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Gravidade – Festival do Rio 2013

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Gravidade (Gravity, EUA, 2013) é experiência grandiosa, ousada e brilhante, e por isso mesmo, não é fácil descrever. Poucos filmes são realmente capazes de retratar de forma tão impactante a imensidão do espaço sideral — e no momento, eu poderia pensar em 2001: Uma Odisseia no Espaço e Lunar. Usando como pano de fundo o vazio escuro, o diretor Alfonso Cuarón conseguiu produzir um verdadeiro marco para o gênero, com cenas de beleza inestimável e grande significado filosófico. Ele aproveita a técnica e a estética para contar uma história de renascimento em escala impressionante. Sem perda de tempo, e com uma história curta, somos lançados numa odisseia que desarma nossos preceitos e nos obriga a pensar profundamente em questões fundamentais — Qual é o propósito da vida? Por que temos medo da morte? Como reunimos coragem para viver? Porque precisamos amadurecer? Até que ponto as adversidades podem levar ao crescimento pessoal ou à loucura?

Através dessas questões, Cuarón constrói sua jornada sobre fragilidade, solidão e autocontrole, e sobre como uma sucessão de adversidades pode levar uma pessoa ao crescimento pessoal. O próprio Cuarón precisou enfrentar muitas adversidades para finalizar sua obra, desde o tempo que precisou esperar para alcançar a tecnologia necessária, até problemas com orçamento, equipamentos e mudança de elenco. Muita coisa aconteceu para esse filme ficar pronto, mas Cuarón superou suas próprias adversidades e conseguiu uma pequena obra-prima para o cinema contemporâneo. Mais do que isso, mesmo com tanta coisa em jogo, Cuarón permaneceu fiel à forma, evitando uma abordagem cinematográfica pré-testada e pré-aprovada em favor de quebrar barreiras criativas e tecnológicas para trazer uma história altamente emocional.

O roteiro surgiu de uma proposta de Jonás Cuarón, filho de Alfonso, que estava escrevendo um filme de sobrevivência chamado Desierto. Por ter gostado da narrativa enxuta, o diretor chamou o filho para desenvolver o projeto de Gravidade, eles fizeram algumas modificações na proposta ao longo do tempo e decidiram concentrar a história em um dos cenários espaciais mais temidos pela NASA da vida real — a Síndrome de Kessler.

Em 1978, um cientista da NASA chamado Donald J. Kessler teorizou que existe uma quantidade suficiente de objetos na órbita baixa da Terra para que qualquer colisão entre esses objetos provoque um efeito cascata, em que os restos do primeiro acidente vão causando mais acidentes, criando mais detritos, e causando outros acidentes um atrás do outro. Uma vez que a Síndrome de Kessler começa, qualquer material ou pessoa em órbita estaria sujeito a um bombardeio letal por estilhaços movendo-se a velocidades tremendas. Cuarón e seu filho se inspiraram nessa teoria para criar o filme, e supervalorizaram o tema para representar as várias adversidades que normalmente enfrentamos na vida para crescer como pessoas.

Na trama, a Dra. Ryan Stone (Sandra Bullock) é uma brilhante engenheira médica em sua primeira missão espacial. Ela é acompanhada pelo veterano astronauta Matt Kowalski (George Clooney), em seu último voo antes de se aposentar. Porém, um desastre acontece e o ônibus espacial é destruído, deixando Stone e Kowalski completamente sozinhos no espaço. Sem contato com a Terra ou qualquer chance de resgate, eles têm somente um ao outro e o único caminho para casa talvez seja uma incursão espacial ainda mais profunda.

Cuarón é conhecido por seu trabalho em Filhos da Esperança e Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban e por ser ousado em seus filmes. Com cerca de uma hora e meia de duração, um tempo curto para os padrões convencionais do cinema atual, Gravidade funciona maravilhosamente dentro de sua premissa simples, especialmente por seus aspectos técnicos. As cenas, grande parte capturadas em greenscreen através de computação gráfica e da EXCEPCIONAL fotografia de Emmanuel Lubezki, criam imagens da Terra e do espaço que promovem uma experiência visual indescritível. Cuarón habilmente alia suas imagens ao seu domínio TAMBÉM EXCEPCIONAL de câmera, aproveitando-se de muitas tomadas longas de plano-sequência, com seis, oito ou dez minutos de duração. A tomada de abertura do filme tem 17 minutos, uma proposta semelhante a já usada pelo diretor no final de Filhos da Esperança. Soma-se a isso a tratamento sonoro, e a falta dele, que oscila entre o silêncio no vácuo, o som abafado de ruídos e vozes dos próprios astronautas, e a trilha sonora pontual nos momentos mais tensos — como quando os astronautas são atingidos por destroços.

Enquanto os astronautas flutuam através do vazio especial, compartilham histórias de suas vidas na Terra, pendurados acima de sua casa, avaliando o valor da vida humana. A personagem principal, a Dra. Ryan Stone vê a beleza do azul terrestre em contraste com a escuridão, e se lembra de sua própria tragédia pessoal sem esperança, pois a tristeza e a dor que ela sentia quando estava lá embaixo volta para assombrá-la com muito mais força no escuro e no silêncio. Sandra Bullock, numa atuação firme e comovente, minimiza a si mesma em meio a toda aquela imensidão, transmitindo com exatidão desesperadora os medos e a fragilidade de sua personagem, e ainda assim, exaltando a força e a dignidade que surge quando erguemos a cabeça e lutamos para superar as adversidades. Sandra Bullock se destaca ainda mais por segurar o filme inteiro sozinha. George Clooney também compõe um bom personagem, que funciona mais como alívio para a tensão constante, mas com papel consideravelmente reduzido. Bullock é a estrela-mor desse espaço sideral.

Gravidade reflete essa necessidade de superação em seu envolvente estudo de personagem, transitando por uma abundância de emoções humanas e criando uma figura feminina proeminente. O filme surpreende também por se sustentar diante de uma proposta tão limitada, e pela vasta gama de ideias para os obstáculos enfrentados pelos astronautas em sua luta pela sobrevivência, que como a Síndrome de Kessler prega, surgem em efeito cascata. Os obstáculos e as soluções oscilam entre o verossímil e o fantasioso, sem medo de ousar e crescer durante o processo, justamente porque uma de suas premissas é acreditar e ter esperança.

Apesar dos efeitos visuais impressionantes, o poder de Gravidade está no equilíbrio solene entre espetáculo e humanização. Filmes sobre viagens espaciais tendem a ter certo romantismo, porque uma viagem prolongada ao espaço é um sonho poderoso que permanece fora do nosso alcance, por enquanto, e cineastas como Alfonso Cuarón se permitem a ousadia de extravasar esses anseios sob a forma de histórias grandiosas, em sua maioria, infundidas com a maravilhosa sensação da descoberta e superação. Gravidade, por outro lado, é um filme que transforma estes sentimentos completamente, porque além de emular o desejo exploratório e fantasioso da ficção científica, segue um caminho de drama e suspense em que o instinto de sobrevivência, a coragem e a esperança revelam-se essenciais para sobrepujar as dificuldades mais improváveis. A beleza dessa imagem é tanto a euforia e o temor do espaço sideral quanto o sentimento de cumplicidade na experiência humana de estar perdido e com saudades de casa. Porque ser humano é estar conectado a algo, seja ao planeta, a um lugar ou a uma pessoa.

MOSTRA PANORAMA DO CINEMA MUNDIAL

GRAVIDADE (Gravity) – De Alfonso Cuarón. Com Sandra Bullock, George Clooney. Estados Unidos / Reino Unido, 2013. 91min.

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