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A Grande Beleza – Festival do Rio 2013

Ao término do suntuoso quebra-cabeça que é A Grande Beleza (La Grande Bellezza, Itália, 2013), um homem mais velho elegante chamado Jep Gambardella (Toni Servillo, que possui um olhar ao mesmo tempo melancólico e travesso) — que se veste bem em ternos sob medida, e que olha para o seu mundo brilhante com um desdém irônico e divertidamente educado — fala sobre o mundo que ele criou — “Termina sempre assim. Com a morte. Mas primeiro havia vida. Escondida sob o blá, blá, blá”.

O maravilhoso blá, blá, blá de A Grande Beleza é o jogo de lembranças de seu personagem, que através da memória promove uma meditação sobre a vida, uma celebração dos incidentes de alegria e tristeza que tornam os seres humanos mais humanos. Gambardella é um escritor e jornalista que acaba de completar 65 anos. Ele escreveu um livro, chamado O Aparelho Humano — que seria um subtítulo útil para o filme —, mas nunca escreveu outro depois disso, passando o resto da vida às margens da sociedade artística, tendo casos, desfrutando de festas, frequentando cafés, questionando significados da existência.

A Grande Beleza

O filme começa na festa de 65 anos de Gambardella, um verdadeiro bacanal de convidados elegantes que dançam em um terraço com vista para o horizonte de Roma. É uma fila interminável de pessoas dançando. Suas festas são sempre orgias enlouquecidas, que segundo o próprio Gambardella possuem os melhores trens de dança dentre todas as festas já feitas, porque eles não chegam a lugar algum. Sua honestidade brutal — como quando fala a uma velha amiga, Stefania, que uma vez Flaubert quis escrever um livro sobre nada, por isso era muito ruim que ele nunca a tivesse conhecido — é alegre ao invés de cruel. Gambardella é o ápice do estilo.

Você consegue entender por que seu amigo, Romano (Carlo Vendone), um dramaturgo medíocre, quer seguir seus passos elegantes. Mas Romano tropeça onde Gambardella flutua: é a diferença entre sofisticação e falta de jeito, e isso nos permite ver o protagonista como um mestre deslizando com graça através da sociedade.

A busca de Gambardella explica por que ele nunca escreveu um segundo livro — “Eu procurava a grande beleza, mas não encontrei.” Também explica por que ele decidiu viver como um observador cosmopolita, que é minucioso em suas percepções, mas que não encontra motivações para expressá-las através da palavra escrita. Ele prefere apenas observar, pois quando precisa opinar, é sempre incisivo e devastador, sem realmente achar que vale a pena fazê-lo. Numa cena particularmente interessante do filme, Gambardella destrói a arrogância de uma amiga — novamente Stefania — com algumas palavras sobre a realidade, mostrando como aquela sua amiga usa a prepotência para esconder suas fraquezas e falhas. E ainda assim, mesmo com todas as divergências, Jep e Stefania permanecem amigos, que conseguem reconhecer um ao outro, e mais tarde, durante uma dança, também conseguem perceber que ainda podem ter algo de bom quando estão juntos.

A crítica, que toca ao mesmo tempo na forma como a arte é encarada hoje em dia e na forma como as pessoas encaram a si mesmas hoje em dia, revela como vivemos desesperados para provar nosso valor aos outros, muitas vezes diminuindo o trabalho e os méritos alheios — tanto de amigos quanto de desafetos — para nos sentirmos mais valiosos em nossos trabalhos e nossos méritos. Por outro lado, mostra a importância de conhecermos a nós mesmos, pois quando temos consciência de quem somos e do que somos capazes, podemos alcançar nossos méritos sem preterir o próximo. Claro que isso nunca é simples, porque sempre buscamos alguma motivação, e quando não a temos, muitas vezes preferimos o afastamento e a reflexão que talvez um dia possam nos esclarecer sobre o que queremos. Gambardella é a representação dessa angústia, que se esconde por trás do bon vivant que transita continuamente por sentimentos superficiais e festas vazias. O aparelho humano é complicado.

O passado de Gambardella é adornado por belas cenas de crepúsculo. Em dado momento, ele é visitado por um viúvo que lhe diz que sua ex-mulher — o primeiro amor de Jep em um verão de muito tempo atrás — nunca o superou. São as lembranças desse amor do passado que mexem com as emoções de Jep e instigam-no a perseguir algo que lhe falta, algo que lhe transmita algum calor, uma vez que ele já não tem a mesma disposição para lidar com frivolidades. É quando ele conhece Ramona (Sabrina Ferilli), uma stripper de 40 e poucos anos que escandaliza seus amigos com seu jeito desprendido e suas roupas ousadas. Jep encontra em Ramona um estímulo para olhar a frente, não apenas para o passado.

O diretor e co-escritor Paolo Sorrentino parece pegar inspirações e tecer homenagens a La Dolce Vita, de Federico Fellini, com seu exame da vida romana através dos olhos de um aventureiro. Ainda que relembre a essência do clássico cinema italiano, e estimule vastas comparações por isso, A Grande Beleza é um filme que observa, mas não tenta realmente ser como as antigas produções da Itália. Assim como seu protagonista, o filme busca sua grande beleza a sua própria maneira, olhando para o passado, mas vivendo em um mundo contemporâneo. A Grande Beleza é estruturado como um espécie de sonho surreal, ou talvez seja a composição das linhas de um romance, um novo livro — na verdade, há indicações de que a jornada de Gambardella pela nostalgia pode ser uma invenção que culminará em seu tão questionado segundo livro.

Há um momento perto do final em que Jep visita um amigo mágico, que pode fazer uma girafa desaparecer — “É apenas um truque”, diz o amigo, revelando-nos o que parece ser o elemento principal da vida de Gambardella. Sua vida é um truque, realizado para ser divertido, e para esconder aquilo que não precisa ser visto em sua superfície. Ele é um homem com apenas um livro porque ele estava distraído com as diversões do sexo, da amizade e do flerte. A grande beleza que ele busca é a sua vida. É o que todos nós buscamos.

A Grande Beleza

A Grande Beleza

A Grande Beleza

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