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Uma Noite de Crime – Festival do Rio 2013

Uma Noite de Crime

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Uma Noite de Crime

Uma Noite de Crime (The Purge, EUA, 2013) parte de uma premissa MUITO FODA para contar sua história. No passado, os Estados Unidos enfrentaram um momento de crise e aumento absurdo da violência e da criminalidade. A solução veio através dos Novos Pais Fundadores, que foram eleitos pelo povo e promoveram um renascimento da América através do evento conhecido como “Noite de Crime”.

Durante uma noite — doze horas —, uma vez por ano, todo e qualquer crime é legal, e as pessoas podem sair às ruas e extravasar toda a sua violência das formas mais brutais, e não sofrerão quaisquer represálias legais por isso. Os serviços de emergência — polícia, bombeiros, hospitais — são desativados durante esse período, e voltam a funcionar somente na manhã seguinte. A imprensa faz alarde sobre os eventos, sobre a matança, sobre a contagem de corpos, como se tudo fosse um grande carnaval de morte — o que, de fato, é.

No ano de 2022, o desemprego está em um por cento (um por cento!) e todos vivem suas vidas com prosperidade e segurança, tudo graças à Noite de Crime — chamada de The Purge no original, que podemos considerar como uma “purificação”. Os ricos se tornaram (obviamente) mais ricos, e durante essa noite, muitos se escondem em suas casas fortemente protegidas por sistemas de segurança sofisticados. Os pobres tornaram-se as maiores vítimas, caçados e mortos sem piedade durante a Noite de Crime, e muitos defensores dos direitos humanos acusam o evento de ser promovido para reduzir o índice populacional e, consequentemente, os índices de pobreza.

O começo do filme foca em apresentar a Noite de Crime, mostrando imagens das noites de anos passados, e como as pessoas lidam com isso. Algumas se escondem em seus lares, outras preparam suas armas para sair às ruas. Mas todos acompanham, de alguma forma, o desenrolar dessa orgia ritualizada de estupros, massacres e mutilações. O objetivo é simples: permitir que as pessoas libertem a selvageria inerente a todos os seres humanos durante uma única noite e sem qualquer controle para garantir que durante todas as outras noites do ano essa selvageria permaneça contida.

Os personagens principais são os membros da família Sandin, cujo patriarca, James (Ethan Hawke), vende sistemas de segurança, em grande parte para os seus vizinhos — que se mostram até um pouco ressentidos pela família Sandin ter enriquecido graças a eles. Enquanto isso, as crianças, o tímido Charlie (Max Burkholder) e a rebelde Zoey (Adelaide Kane), se ressentem de sua família de suas próprias maneiras, enquanto a mãe, Mary (Lena Headey), tenta manter a estabilidade do lar.

Os Sandins se preparam para a Noite de Crime, calmamente preparando os sistemas de segurança de sua casa, e já sentimos imediatamente que as coisas vão dar errado. O filme cria a tensão pela noite com eficiência. Quando a noite começa, os problemas aparecem. O namorado de Zoey se infiltrou na casa e quer “ter uma conversa” com o pai. Em seguida, um desconhecido, o homem negro sangrando (Edwin Hodge) surge gritando por socorro na rua, perseguido por uma multidão invisível, e Charlie o deixa entrar na casa — numa cena que me fez pensar no filme O Alvo, e se Jean-Claude Van Damme aparecesse ali, estaria tudo acabado para os bandidos! (rs)

O filme é eficiente em sua proposta, mas não é perfeito. Muita coisa não é plenamente explicada, e às vezes, fica até um pouco difícil suspender a descrença — não acontece no filme inteiro, apenas em alguns momentos. — Por exemplo, como a Noite de Crime realmente funciona em escala nacional nunca fica realmente claro, pois a história é bastante contida. Todos os crimes são permitidos, mas o foco é a violência e a matança… Será que os crimes de colarinho branco seriam permitidos também?! Como o filme deve ter uma continuação, é possível que o segundo amplie um pouco mais sua área de atuação, saindo de dentro de casa e expandindo para as ruas, de modo que a Noite de Crime possa ser mostrada em larga escala. É o que eu espero, pelo menos.

Outro aspecto prejudicial é que o filme se esforça o tempo todo para manter a integridade moral dos personagens principais — no caso, a família —, diferente do que acontece, por exemplo, no filme A Entidade, que tem os mesmos produtores de Uma Noite de Crime e também tem Ethan Hawke no elenco. A Entidade não tinha medo de perverter seus protagonistas, mas Uma Noite de Crime é extremamente relutante, e isso diminui um pouco a força dos personagens e do cenário.

O negócio é que o diretor James DeMonaco, como eu disse antes, prefere manter as coisas restritas, de modo que não expande tanto o universo do filme. Curiosamente, DeMonaco é o roteirista do remake de Assalto à 13ª DP, de 2005, inspirado no filme de 1971 dirigido por John Carpenter. A trama de Uma Noite de Crime possui muitos aspectos similares com o Assalto à 13ª DP, como o fato de que gira em torno de um grupo de pessoas, preso em um lugar sitiado por criminosos, tentando proteger um homem inocente contra a ira dos inimigos do lado de fora — um se passava com policiais presos numa delegacia; este se passa com uma família presa em sua própria casa. John Carpenter criou Assalto à 13ª DP pensando nas histórias de zumbis, mas colocando uma gangue de humanos brutais contra as pessoas entocadas. Uma Noite de Crime também usa essa ideia, inclusive com tomadas de invasão da casa semelhantes, nas quais os criminosos são tratados com certo suspense, como se fossem zumbis. As máscaras com “rostos sádicos” aumentam a sensação claustrofóbica da situação.

Apesar de alguns buracos no roteiro e da relutância moral com os protagonistas, a premissa do filme produz uma confluência perfeitamente áspera entre conflito familiar, luta de classes, e colapso social. As possibilidades são infinitas, e esse é o charme do filme. DeMonaco, por manter as coisas restritas e contar sua história em pequena escala, é eficiente trabalhando com a tensão ao invés do banho de sangue. Sabemos o que acontece pelas ruas pelo que é noticiado, mas não pelo que vemos. O que é mostrado é o desespero das pessoas envolvidas nessa situação complexa — pessoas que, inclusive, dizem apoiar a Noite de Crime, embora não tenham coragem real para participar dela. O filme é curto e grosso em mostrar como o ser humano pode ser uma criatura sórdida, vil e capaz das maiores bestialidades quando isso é permitido. Ao mesmo tempo, tenta provar que nem tudo é corrupção, e que existem aqueles que possuem bom-senso — mesmo que às vezes demorem a perceber a importância disso.

Mais do que isso, reflete que a bestialidade, muitas vezes, se esconde atrás das máscaras mais bonitas e bem apessoadas, vide o jovem vilão interpretado por Rhys Wakefield, cujo sorriso é tão macabro que seu rosto por si só já parece uma máscara de sadismo — ele é o líder do grupo de criminosos, se veste com o que parece ser um uniforme de universidade, age de forma polida, e é extremamente homicida. Ele é medonho, e é apenas a ponta do iceberg da violência.

Uma Noite de Crime mostra-se uma dança da morte intrigante, com uma premissa forte e uma história rasa, mas que DeMonaco consegue desenvolver com uma tensão angustiante que mistura estética de câmeras de segurança e estilo de gravações portáteis para transmitir informações que limitam nosso ponto de vista e, ao mesmo tempo, ampliam nossa inserção no caos daquele cenário fantasticamente aterrorizante. Ainda que a trama derrape num ou noutro momento, o filme consegue saciar nossa sede de sangue e ainda despertar nossa consciência. Uma Noite de Crime não é sutil, e nem deveria. Não se trata de classe social ou moralidade, se trata da necessidade de violência — a nossa própria. Nós somos o público-alvo, e precisamos ser purificados também.

MOSTRA MIDNIGHT MOVIES

UMA NOITE DE CRIME (The Purge) – De James DeMonaco. Com Ethan Hawke, Lena Headey, Max Burkholder, Adelaide Kane, Edwin Hodge. Estados Unidos / França, 2013. 85min.

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