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Meio Sol Amarelo – Festival do Rio 2013

Meio Sol Amarelo

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Meio Sol Amarelo (Half of a Yellow Sun) é o título do segundo romance da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, e tem esse nome em homenagem à bandeira da Biafra, um estado situado a sudeste da Nigéria e uma das causas da Guerra Civil Nigeriana. A história se passa no período da Guerra Civil, entre 1967 e 1970, e ganhou o Orange Prize para ficção em 2007, prêmio concedido para histórias de ficção escritas por mulheres no idioma inglês em todo o mundo. Adichie escreve desde os 7 anos de idade e sempre foi ávida pela leitura. Porém, como cresceu lendo livros norte-americanos e britânicos, acabou desenvolvendo uma consciência sobre personagens da literatura que estava longe de sua realidade. Ela atribui essa consciência ao que chama de O Perigo da Única História — clique se você quiser saber mais sobre isso.

O talento de Adichie e o sucesso do romance chamaram a atenção do dramaturgo nigeriano Biyi Bandele, que escreveu e dirigiu o filme inspirado no livro, lançado numa parceria entre Nigéria e Reino Unido. Meio Sol Amarelo (Half of a Yellow Sun, Nigéria, 2013) é uma tentativa corajosa de adaptar a épica e comovente história por trás Guerra Civil Nigeriana — também conhecida como Guerra de Biafra.

A história acompanha duas irmãs gêmeas, Olanna (Thandie Newton) e Kainene (Anika Noni Rose), descendentes de uma família abastada da Nigéria, que decidem seguir seus próprios em vez de serem usadas como moeda de troca para negócios que seu pai tem com o governo. Aos poucos, através de passagens rápidas de tempo, acompanhamos os caminhos seguidos pelas duas, até que se veem envolvidas no grande tumulto da guerra civil que ameaça a Nigéria recém-independente.

O filme começa durante um jantar de família, de onde Olanna e Kainene saem para comemorar a independência da Nigéria numa festa da alta sociedade. Kainene conhece e se apaixona por um jornalista britânico casado chamado Richard (Joseph Mawle). Olanna tem um amante chamado Odenigbo (Chiwetel Ejiofor), que é um professor e ativista social; depois das festividades, ela vai morar com ele, onde conhece Ugwu (John Boyega), o garoto que cuida da casa de Odenigbo.

Como acontece com qualquer adaptação para o cinema, o livro é condensado e editado de modo a englobar da melhor forma possível o conteúdo num filme de duas horas de duração. Isso normalmente torna a história apressada, com passagens de tempo abruptas, que eventualmente suprime a emoção em prol dos fatos. E no caso de Meio Sol Amarelo, os fatos são muito importantes, mas acabam sendo desenvolvidos com certa frieza. Não significa que o filme é desprovido de emoção; pelo contrário, é comovente, porém, às vezes é um pouco distante quando precisa aprofundar seus personagens.

Devido a isso, muitos elementos por trás da história de Olanna e Kainene, por exemplo, são simplificados, a ponto de seus conflitos — que envolvem principalmente questões de infidelidade com Odenigbo e Richard — não terem o mesmo impacto emocional que os conflitos da Nigéria em si. Muitas transformações cruciais dos personagens e na trama terminam restritas a explicações subjetivas que aparecem em letreiros antes dos créditos finais — logo depois de um final deixado levemente em aberto. Por exemplo, sabemos que “Ugwu é agora um escritor”, pelo que diz os letreiros, mas não há realmente um desenvolvimento dessa transformação de subalterno de Odenigbo a escritor. Aceitamos isso por estar intrínseco a tudo o que ele viveu durante a Guerra Civil, e por pequenos relances que mostram Ugwu ensinando crianças numa sala de aula improvisada ao ar livre. Isso acontece também porque o foco é mantido em Olanna e não se estende muito aos outros personagens — sendo que o livro é contado sob três pontos de vista: Olanna, Richard e Ugwu.

Antes mesmo de entrar em produção, o filme enfrentou uma polêmica com relação ao elenco, especialmente após a escolha de Thandie Newton para ser Olanna — eu confesso que me perguntei por que não tinham escalado atores nigerianos, especialmente considerando o crescimento da indústria de cinema nigeriano (Nollywood) nos últimos anos. Mas também entendo que certas escolhas fazem diferença no resultado final, e que esse é um filme produzido também pelo Reino Unido. A questão é que Thandie Newton é uma atriz talentosa, e certamente, uma das melhores aquisições do filme. Newton desperta simpatia com sua Olanna, e é a personagem com quem mais nos identificamos.

Além disso, Thandie Newton e Chiwetel Ejiofor (que já trabalharam juntos em 2012) constituem o núcleo emocional do filme e possuem uma química romântica agradável, embora Odenigbo seja um personagem inconveniente às vezes. Anika Noni Rose (Dreamgirls) é fascinante como a irmã esnobe de língua extremamente afiada. John Boyega, que já se mostrou talentoso em Ataque ao Prédio, consegue retratar Ugwu como um menino ingênuo e carismático, mesmo com as limitações impostas ao personagem pelo roteiro.

Meio Sol Amarelo, apesar dos problemas, oferece uma visão importante sobre a história nigeriana através de um conto complexo sobre guerra, família, amor romântico e paradoxos da vida pós-colonial da Nigéria recém-independente. A forma como a cultura e a história do país é mostrada, por si só, já concede grande valor à produção. Biyi Bandele consegue extrair o drama por trás de um momento tão crítico na vida dos nigerianos através de locais, atores, movimentos de câmeras e cenas documentais. Há uma cena em que Baby (filha de Odenigbo e Olanna) permanece sentada numa cadeira enquanto seus pais e Ugwu vão e voltam para recolher os pertences durante um ataque militar que os obriga a fugir de casa. A cena é tão habilmente construída e filmada que é impossível não sentir a angústia daquela família tentando escapar do caos da guerra, antes que o caos os alcance. Sequências de documentários e noticiários são inseridas nos entreatos, bem como mapas para concedem à história o contexto apropriado. Apesar de alguns momentos de excessivo melodrama, Meio Sol Amarelo sabe onde depositar seu coração.

MOSTRA EXPECTATIVA 2013

MEIO SOL AMARELO (Half of a Yellow Sun) – De Biyi Bandele. Com Chiwetel Ejiofor, Thandie Newton, Anika Noni Rose, Joseph Mawle, John Boyega. Nigéria/Reino Unido, 2013. 106min.

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