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Suspensão da Realidade – Festival de Rio 2013

Suspensão da Realidade

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Suspensão da Realidade

Experimentação não é uma proposta facilmente palatável em qualquer obra, porque costuma trabalhar com ideias que modificam padrões, e mudanças nem sempre são fáceis de aceitar; o cinema contemporâneo, por exemplo, está cheio de paradigmas, que muitos podem não perceber, mas estão lá. Suspensão da Realidade (Suspension of Disbelief, Reino Unido, 2012) experimenta novas formas de fazer cinema, e tem valor por isso, mas se perde em sua própria ambição.

Originalmente intitulado Suspension of Disbelief, o filme brinca com um elemento ESSENCIAL para assistir a muitas obras de ficção: a suspensão da descrença, quando precisamos abstrair a realidade para acreditar em coisas que não seriam críveis na vida real — ainda que a vida real seja cheia de surpresas estranhas.

O filme não só suspende a realidade, ele insere uma realidade dentro da outra, criando uma metalinguagem para um filme dentro do filme. Não se espante, é um bom filme, e sua proposta é intrigante. O problema é que a ambição por usar a suspensão da descrença de forma inventiva é tanta que às vezes o filme se torna cansativo.

O diretor Mike Figgis conduz seu enredo sob a ótica do processo de criação de um enredo, enquanto o personagem principal é, ao mesmo tempo, professor de uma aula de roteiro e protagonista da história que está sendo contada. Paralelamente, acompanhamos a processo de filmagem de um filme. Figgis é franco ao apresentar nuances mais sórdidas sobre a indústria cinematográfica, ainda que nas entrelinhas dos arcos de sua trama.

Suspensão da Realidade foca num gênero específico, o noir, apresentando-o com sensibilidade artística e acadêmica, e de forma razoavelmente desconstruída — embora as convenções ainda estejam presentes.

Na trama, um talentoso roteirista e romancista chamado Martin (Sebastian Koch) passa por um momento difícil em sua carreira. Anos atrás, sua esposa saiu de casa e nunca mais foi vista. Sua filha, Sarah (Rebecca Night), está completando 25 anos e começando uma carreira como atriz, mas não quer contar com o sucesso do pai para conseguir seus papéis. Após uma festa, um dos convidados, a misteriosa e sedutora Angelique (Lotte Verbeek), desaparece e é encontrada morta num canal no dia seguinte. Therese, irmã gêmea de Angelique, chega à cidade para tratar dos assuntos de sua irmã e precisa ficar enquanto as investigações sobre a morte não são concluídas. A presença de Therese afeta a vida de Martin, que parece perder a noção entre o que é ficção e o que é realidade.

A força de Suspensão da Realidade está no trabalho com as convenções tradicionais dos filmes noir, incluindo o erotismo e o mistério por trás de um assassinato. Figgis acrescenta suas próprias distorções através dos conceitos de filme dentro do filme, enquanto brinca com os dispositivos de roteiro e produção que resultam numa obra cinematográfica. As cenas em que Martin discute com estudantes de cinema sobre a estrutura da história são transformadas em “realidade” pelo filme que, na verdade, está dentro do filme.

Martin aproveita-se de sua experiência com Angelique e Therese para escrever um novo roteiro, enquanto ensina seus alunos — durante a aula mostrada nos entreatos — sobre técnicas para escrever um roteiro, construir personagens e criar um bom começo, um bom meio e um bom final.

A ambição da trama é justamente criar “um bom começo, um bom meio e um bom final”, e é nessa tentativa de fugir dos clichês e inovar que o filme acaba se perdendo ao criar “um começo promissor, um meio desfocado, e um final frio”. Ao conduzir vários arcos simultaneamente, a história como um todo enfraquece, culminando num desfecho interessante, mas sem a profundidade que merecia. Pode ser que a intenção tenha sido essa mesmo, terminar de forma frívola, mas na tentativa de criticar as frivolidades da grande indústria do cinema, o filme acaba perdendo a intensidade normalmente inerente a um filme noir. A frieza funciona para o desfecho de Sarah, mas não para o clímax da história de Martin e Therese, que certamente precisava de mais paixão e furor.

Ainda assim, como filme noir, produz uma femme fatale marcante, tão enigmática que chega a ser desconcertante — destaque para a beleza exótica de Lotte Verbeek. Como técnica de roteiro, soa pretensioso. Como experimentação, é muito bem-vindo — é gratificante assistir a um filme que ousa fugir dos padrões.

MOSTRA PANORAMA DO CINEMA MUNDIAL

SUSPENSÃO DA REALIDADE (Suspension of Disbelief) – De Mike Figgis. Com Sebastian Koch, Lotte Verbeek, Emilia Fox, Rebecca Night, Eoin Macken. Reino Unido, 2012. 111min.

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