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A Garota de Lugar Nenhum – Festival do Rio 2013

A Garota de Lugar Nenhum

A Garota de Lugar Nenhum

A Garota de Lugar Nenhum

A Garota de Lugar Nenhum

A filosofia costuma aparecer timidamente no cinema, geralmente em um plano secundário, dando suporte à trama ou ao desenvolvimento de personagens. Contudo, de vez em quando, aparece uma obra que se preocupa primordialmente em discutir ideias, deixando os demais aspectos para o segundo plano. Este é o caso de A Garota de Lugar Nenhum (La Fille de Nulle Part, França, 2012), dirigido e interpretado por Jean-Claude Brisseau.

Conhecido por filmes com autor teor erótico, que inclusive lhe renderam polêmicas e um processo judicial, desta vez, Brisseau muda o foco, mas sem fugir dos temas espinhosos. Não à toa, o primeiro enquadramento é um close no livro Totem e Tabu, de Sigmund Freud.

O diretor utiliza-se de um personagem que é seu verdadeiro alter-ego, Michek Deviliers, um professor aposentado viúvo interpretado pelo próprio Brisseau, que salva a jovem Dora (Virginie Legeay) de ser espancada e a acolhe em seu apartamento. Ela possui poderes paranormais, tem visões do futuro e sente a presença de seres de outro plano na casa dele.

Embora o erotismo esteja presente, ele é bem menos explorado neste filme do que nos anteriores do diretor. O grande foco dele é a discussão que os personagens travam, com referências a pensadores e grandes artistas do passado. O que a primeira vista pode até parecer enfadonho para alguns, funciona bem para quem se dispõe a assisti-lo. Temos reflexões interessantes sobre a morte, re-encarnação e a necessidade humana de criar mitos para buscar conforto. Ao mesmo tempo, há certa dose de humor, que não se presta a gargalhadas, mas serve para tornar mais leves as muitas discussões que levanta.

O filme fala ainda de amor, ainda que não erótico, e sobre a beleza e a possibilidade de o mesmo ser puro. Há na verdade toda uma ideia de amor transcendental, como o de Deus pelos humanos, que perpassa todo o filme. Embora cético, o personagem de Brisseau não cai no niilismo. A presença de Dora o faz ter esperança e motivação novamente e, ainda que ela seja muito bonita, não é o desejo carnal que a torna atraente.

Curioso notar ainda que trata-se de um filme de baixíssimo orçamento. A Garota de Lugar Nenhum foi todo rodado no próprio apartamento do diretor ou em externas. Aliás, Brisseau possui uma bela coleção de filmes, livros e discos, e como todo colecionador dá um jeitinho de mostrá-la. As cenas que envolvem o sobrenatural são todas sugeridas, não há efeito especial algum, exceto por um breve momento. O roteiro é todo construído em diálogos, que são bons, escapando do puro didatismo. Por outro lado, não temos grandes atuações, o que acaba tirando um pouco a força dos mesmos. A trama em si é secundária, parecendo às vezes mera desculpa para permitir a discussão dos temas propostos.

Pode-se dizer então que se trata de um filme bonito, não por seus aspectos técnicos, mas por possuir uma vontade de potência, para ficarmos nos termos filosóficos. É leve, e apesar de meio cabeça, não é nem um pouco sisudo. A Garota de Lugar Nenhum apenas manifesta a curiosidade e a vontade de amar latente em todos nós, mas que acabamos deixando de lado na maior parte do tempo.

MOSTRA PANORAMA DO CINEMA MUNDIAL

A GAROTA DE LUGAR NENHUM (La Fille de Nulle Part) – De Jean-Claude Brisseau. Com Jean-Claude Brisseau, Virginie Legeay, Claude Morel, Lise Bellynck. França, 2012. 92min.

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