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Outrage Beyond – Festival do Rio 2013

Outrage Beyond

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Outrage seria algo como um ato ofensivo de grosseria, logo Outrage Beyond seria algo além. Outrage Beyond (Autoreiji: Biyondo, Japão, 2012) é um conto sobre clãs (gangues) rivais da Yakuza disputando territórios uns contra os outros, com muitas intrigas, traições e matanças sangrentas entre os grupos de criminosos apresentados anteriormente no filme Outrage (2010) — que é a primeira parte de Outrage Beyond.

Ambos são escritos, dirigidos e protagonizados pelo multi-funcional Takeshi Kitano — conhecido por filmes como Fogos de Artifício, Zatoichi e Battle Royale. Kitano também é bastante conhecido por seu estilo único e por seu ego — características que são perceptíveis em seus filmes, e isso inclui Outrage Beyond, que eu poderia facilmente descrever como uma espécie de “O Poderoso Chefão” com a Yakuza japonesa. O estilo de Kitano se faz presente o tempo todo no enredo seco, nos personagens exaltados e na violência desenfreada.

A primeira parte, Outrage, conta a história de uma disputa sangrenta entre as famílias da Yakuza em Tóquio. Otomo (Takeshi Kitano) é um subchefe da máfia envolvido na luta entre dois “irmãos”. Ele é calmo, distante, honrado e extremamente violento! Apesar de Otomo ser o protagonista da história, na verdade, acompanhamos mais os outros personagens do que o próprio Otomo — que surge mais como um elemento decisivo na trama e mantém um certo mistério por isso.

Outrage Beyond não é muito diferente. A história acontece alguns anos após eventos que levaram todos a acreditar que Otomo está morto. Eles estão errados — Otomo está de volta e em busca de vingança.

Tudo começa quando a polícia japonesa draga um carro contendo os corpos mortos de um policial e da dona de uma boate. As evidências apontam para o poderoso Clã Sanno, que está crescendo em poder dentro da Yakuza, mas a polícia não pode confrontá-los diretamente. O corrupto policial Kataoka (Fumiyo Kohinata) acredita que Kato (Tomokazu Miura), jovem e imaturo líder do Clã Sanno, não tem respeito pelas velhas formas de compartilhar o poder e conviver com a polícia, por isso, arma um plano para destituir o atual líder da máfia usando Otomo, que mesmo relutante acaba envolvido no plano na busca por sua vingança. O resultado é que eclode uma grande guerra interna entre membros da Yakuza, tendo os policiais como espectadores.

Otomo, personagem de Kitano, por se manter às margens da história durante grande parte do tempo, acaba se mostrando o mais assustador de todos. Ele quase nunca fala, olha para seus inimigos com frieza e, quando precisa matar, é extremamente violento e cruel. Definitivamente, não é um mocinho, mas por sua honra e hombridade, simpatizamos fácil com ele, e vibramos cada vez que ele levanta a voz para impor respeito contra um dos engomadinhos frouxos da Yakuza contemporânea. Porque os caras no poder da Yakuza, pelo que se vê no filme, são os homens gritando uns para os outros. Às vezes, de pé. Às vezes, sentados. Os homens irados em ternos entram e saem de carros o tempo todo. Às vezes, eles abrem a porta. Outras vezes, alguém faz, geralmente um lacaio anônimo ou subordinado. No geral, os chefões da Yakuza são tratados como uma “realeza” decadente, perdidos em suas próprias disputas internas, temerosos por aqueles que possam realmente destroná-los de seu instável poder. Otomo é incrivelmente honrado e disposto a lidar com todas as consequências de suas ações, e por isso mesmo, é temido.

Mas o filme, ao contrário do que se podia esperar de um filme de gangster, não exagera na ação e nos tiroteios. Outrage Beyond, assim como Outrage, tem um ritmo deliberadamente lento, construindo o drama e a tensão de seu enredo aos poucos, de forma intrincada, com foco nos jogos de poder, nas alianças e nas traições. A história complexa aprofunda na estrutura e nas relações da Yakuza consigo mesma e com a polícia, estabelecendo as tramas e reviravoltas em cima de cenas longas e personagens bem desenvolvidos.

A ação não é o elemento dominante, mas acontece, sim, na hora que tem que acontecer — e quando acontece, é um verdadeiro massacre! A violência normalmente importante para qualquer filme sobre a Yakuza também está presente, de forma pontual e incisiva, em torturas, tiros à queima-roupa na cabeça, espancamentos com bolas de beisebol (isso mesmo!) e membros da Yakuza arrancando dedos a dentadas como símbolo de remorso ou pedido de desculpas. As cenas são bastante realistas e grotescas, ainda que não sejam um banho de sangue ensandecido. Algumas cenas brutais, combinadas com efeitos sonoros e situações sarcásticas, provocam risos, que podem ser pelo incômodo e/ou pelo legítimo humor sisudo característico de Takeshi Kitano.

Mas em termos de humor, o destaque vai para o policial Kataoka, interpretado com cinismo descarado por Fumiyo Kohinata, capaz das maiores atrocidades morais, mas sempre com um sorriso safado no rosto. Kataoka é bajulador, traiçoeira, só pensa em si mesmo e não tem pudores em manipular os outros em prol de seus desejos. A forma como o personagem é conduzido ao longo da trama é sem dúvida um dos maiores méritos do filme.

Outrage: Beyond é um filme imponente sobre a Yakuza, uma grande sequência para Outrage, e mais um marco positivo na carreira de Takeshi Kitano. Sobretudo, é um filme de máfia como só o cinema japonês sabe produzir.

MOSTRA PANORAMA DO CINEMA MUNDIAL

OUTRAGE BEYOND (Autoreiji: Biyondo) – De Takeshi Kitano. Com Takeshi Kitano, Toshiyuki Nishida, Tomokazu Miura, Ryo Kase, Fumiyo Kohinata. Japão, 2012. 110min.

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