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O Espírito de 45 – Festival do Rio 2013

O Espírito de 45

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O Espírito de 45

O Espírito de 45

Após o 11 de setembro, surgiu uma tendência de produção de documentários com faceta política, onde há uma clara tomada de posição por parte do diretor na defesa de um ponto de vista. Cineastas como Michael Moore e Morgan Spurlock fizeram suas carreiras calcadas nisto. No entanto, há um diretor britânico da velha geração que sempre fez cinema político e agora retorna ao estilo documental na compra de mais uma briga. Trata-se de Ken Loach e seu filme O Espírito de 45 (The Spirit of ’45, Reino Unido, 2013).

Utilizando-se de uma extensa pesquisa de imagens de arquivo, intercaladas com entrevistas atuais, o longa expõe o clima de esperança que apossou a Grã-Bretanha em 1945, ano de encerramento da Segunda Guerra Mundial. O grande desafio dos britânicos, após derrotar o nazismo, era reconstruir o próprio país, arrasado não só pela guerra como uma crise econômica que perdurou por toda a década de 30 do século XX.

Logo fica claro ao espectador que, ao falar da pobreza do povo durante a década de 30, a mira de Loach está focada no presente. A crise ocasionada pelo crash da Bolsa de Nova York em 1929 acabou causando muito mais sofrimento na classe trabalhadora do que em quem estava no topo da pirâmide social, situação que se repete hoje. E seguem-se cenas e relatos de penúria difíceis de assistir passivamente.

Com a inesperada vitória do Partido Trabalhista nas eleições de 45, passou-se a construir o chamado Estado de Bem-Estar Social, de fundações inspiradas na obra do economista John Maynard Keynes, onde o Estado atua diretamente na economia, nacionalizando empresas e serviços, procurando garantir ainda o pleno emprego a todos. Isto durou até a eleição de Margaret Thatcher, que durante os anos 80 tratou de desmontar tudo o que a geração anterior havia construído, e cuja política de desregulação do mercado foi o que, em última análise, resultou na nova crise econômica que o mundo atravessa desde 2008.

O filme é claramente a favor do retorno a antiga política trabalhista, que hoje nem o próprio partido defende mais. No entanto, acusá-lo de planfetário é inútil, pois é justamente esta a proposta do diretor. A obra no entanto possui alguns problemas, principalmente de ritmo. Ele perde um grande tempo mostrando como ocorreram as nacionalizações das empresas, em tom extremamente didático e até enfadonho. Mas vem a se recuperar depois, quando o foco passa a ser o de crítica ao modelo econômico atual. Além disso, talvez tenha faltado falar mais dos motivos que levaram Thatcher a ser re-eleita, que estão relacionadas a uma crise do próprio modelo do Estado de Bem-Estar Social.

Seu grande mérito é o de levantar a discussão. É sempre bom ver um grande diretor trazendo questões importantes, fazendo o público refletir sobre o mundo em que vive. A grande mensagem é que as coisas já estiveram ruins antes, e a sociedade soube se organizar para superá-las. Devemos olhar ao passado e tomar lições do que deu certo ou não para as gerações passadas.

Trata-se de um filme que provavelmente será esquecido com o tempo, quando novos problemas surgirem; mas Ken Loach já tem toda uma obra com lugar marcado na História do Cinema, podendo se dar ao luxo de abrir mão um pouquinho da posteridade pessoal e se preocupar com a posteridade política e econômica de seu povo.

MOSTRA PANORAMA: GRANDES DOCUMENTARISTAS

O ESPÍRITO DE 45 (The Spirit of ‘45) – De Ken Loach. Com Julian Tudor Hart, Dai Walters, Ray Davies, Tony Mulhearn. Reino Unido, 2013. 94min.

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