Filmes

Bates Motel – Primeira Temporada

Bates Motel Primeira Temporada

Bates Motel Primeira Temporada

Bates Motel Primeira Temporada

Bates Motel Primeira Temporada

Bates Motel (EUA, 10 episódios, 2013) é um caso de série que, assim como um bom suspense, pega suas vítimas de surpresa. Quando estreou, com uma season premiere tímida e aparentemente sem saber para onde seguir, não dava realmente para saber até que ponto seria bem-sucedida. E demorou até engrenar, porque apenas no terceiro/quarto episódio é que Bates Motel mostra a que veio.

Inspirada no clássico Psicose, filme de Alfred Hitchcock, a série produzida pelo A&E e exibida aqui no Brasil pelo canal pago Universal Channel, leva sua história para a época contemporânea enquanto mergulha na mente de um Norman Bates adolescente. Mais do que isso, explora a complexa relação de Norman com sua mãe, Norma Bates.

Na trama, após a trágica morte de seu marido, Norma Bates (Vera Farmiga) compra um motel na periferia da idílica cidade costeira White Pine Bay, em busca de um novo começo com seu filho Norman (Freddie Highmore). Em sua nova casa, os dois percebem que a cidade não é exatamente o que parece, e os moradores não parecem tão dispostos a deixá-los em paz com seus segredos. Os Bates, no entanto, vão fazer o que for preciso para sobreviver — e vão fazer o que for preciso para proteger seus segredos.

Se você conhece o filme Psicose, ou o livro no qual foi inspirado, escrito por Robert Bloch, você sabe como a história termina, e certamente conhece a icônica cena de assassinato: uma mulher entra no chuveiro, num banheiro branco. Ela lava seu corpo despreocupadamente e, de repente, surge uma sombra por trás da cortina, empunhando uma faca de cozinha. A mulher grita, e o homem a esfaqueia, uma, duas, três, várias vezes. A mulher cai, sem vida, no chão do banheiro, puxando a cortinha para baixo, enquanto o sangue escorre com a água pelo ralo. A vítima era Marion Crane, e o assassino, Norman Bates.

Bates Motel brinca com a angustiante premissa de sabermos o que vai acontecer, e vermos, pouco a pouco, como tudo vai chegar aonde chegou. No começo, é difícil saber o quanto vamos acompanhar; mas à medida que acompanhamos, descobrimos e entendemos um dos assassinos mais famosos do cinema.

A série, de certa forma, se sente como uma variação mais sombria de temas e ideias explorados em outras produções televisivas de sucesso, como Twin Peaks e Lost — especialmente Twin Peaks, por causa dos (muitos) segredos (macabros) que se escondem por baixo da fachada de respeitabilidade da cidade de White Pine Bay. Os produtores executivos Carlton Cuse (Lost) e Kerry Ehrin (Parenthood), no entanto, permitem que o clássico de Hitchcock lance uma sombra sobre o processo, em alguns aspectos mais sutis do que os outros.

O criador Anthony Cipriano começa indiferente, como seu protagonista, mas aproveita seu potencial aos poucos, construindo as bases para o desenvolvimento da história. É como o próprio Norman Bates, cujo caminho já conhecemos, portanto, sabemos que é uma bomba em contagem regressiva, prestes a explodir.

O grande elemento motivador da série é a interação entre mãe e filho, que reflete bastante o porquê dos distúrbios de Norman — a começar pelo fato de que ele só chama a mãe como “Mother” ao invés de usar o termo “Mom”, que é mais carinhoso. “Mother” era o nome da personalidade psicopata de Norman no filme Psicose, mas aqui, a outra personalidade ainda não está formada; está em processo de formação e absorção das psicopatias de sua mãe — porque a série é incisiva em mostrar como os pais podem influenciar no desenvolvimento emocional, psicológico e social dos filhos.

Freddie Highmore, que já se mostrou um excelente ator em filmes como Em Busca da Terra do Nunca e A Fantástica Fábrica de Chocolate, interpreta um Norman Bates estranho e antissocial, capaz de despertar sentimentos extremamente ambíguos, porque apesar de sabermos que ele é um assassino frio e calculista, sentimos empatia por ele, torcemos para que as coisas deem certo para ele. Highmore cria um personagem horripilante e adorável — não é fácil lidar com isso.

Vera Farmiga como Norma Bates, no entanto, é a verdadeira estrela de Bates Motel (invariavelmente). As cenas entre Farmiga e Highmore sugerem um tremendo Complexo de Édipo da parte de Norman, que é visivelmente incentivado pela mãe. A relação entre dois desenvolve-se desprovida de um lado patriarcal desde o começo (com a morte do pai de Norman), e facilmente evolui para algo mais malicioso; muito por causa de Norma, que só sabe resolver seus problemas aproveitando-se de sua sexualidade.

Ao longo do que é mostrado durante suas interações pessoais com Norman, ela é mais complexa do que apenas uma vítima de violência ou desprezo masculino — embora, ela tenha motivos para ser agressiva (física e psicologicamente), especialmente após os abusos implícitos de seu marido e a agressão que sofre logo no primeiro episódio do antigo proprietário do hotel. Os momentos de afago em Norma e Norman são tão carregados de tensão sexual que em dado momento você se pega pensando quando toda aquela tensão vai ser consumada — é perturbador! Por outro lado, torna-se perfeitamente compreensível o que acontece quando Norman resolve descarregar esse vendaval de emoções conflitantes a que ele é submetido diariamente — e ele ainda é só um adolescente, o que, sem dúvida, potencializa tudo.

Soma-se a essa relação complicada o interesse de Norman pelo sexo oposto, que não se desenvolve de forma saudável, a começar pelo livreto cheio de desenhos que retratam mulheres sendo torturadas e abusadas fisicamente — o que é para Norman Bates o equivalente a uma revista Playboy escondida embaixo da cama. Além disso, ele fica obcecado por Bradley Martin (Nicola Peltz), uma menina popular da escola, que é mais aberta e expansiva a interações sociais do que ele. Quando esses dois opostos se encontram, surge um interesse amoroso em potencial, reforçado provavelmente por Bradley ter cabelos loiros, olhos azuis e comportamento extrovertido — quase o que seria uma versão jovem de Norma Bates (como eu disse, é perturbador).

Emma DeCody (Olivia Cooke) é a menina mais normalzinha que cruza o caminho de Norman; é introvertida como ele, e tem uma doença chamada fibrose cística, que afeta todo o organismo e provoca deficiências progressivas. Por causa disso, ela anda sempre com um tubo de oxigênio para facilitar sua respiração. Talvez por ambos serem parecidos de alguma forma, eles acabam se aproximando e se tornando amigos. A pobre menina imediatamente se apaixona pelo estranho, mas encantador, garoto novo na escola — alegremente inconsciente de onde ela está se metendo. Emma também acaba cativada por Norma, pois ela é a única menina que a mãe de Norman trata realmente bem. E isso é outro elemento do Complexo de Édipo que torna a situação perturbadora, pois Norma só aceita Emma perto de seu filho porque ela é uma menina doente e com baixa expectativa de vida — ou seja, não é alguém que vai lhe roubar Norman por muito tempo.

A season finale respondeu a algumas questões que conduziram o enredo da temporada, e estabeleceu efetivamente duas linhas para o eixo central da história: o crescimento dos problemas psicológicos de Norman, e a tentativa de Norma em contar com o Xerife Romero (Nestor Carbonell), que está se mostrando o verdadeiro dono da cidade, como mocinho e bandido, policial e chefe do crime — um personagem que exalta bastante a ambiguidade e o clima Twin Peaks da série. O clímax da season finale, em parte, define a peça-chave do que podemos esperar para a próxima temporada: Norma vs. Romero.

Apesar do começo incerto, a primeira temporada de Bates Motel revelou-se surpreendente por seu crescimento, e por não permanecer embaixo da sombra do material de origem — Psicose — como uma simples prequel do filme. A série se esforça para construir um universo próprio, com seus próprios personagens. A atmosfera anos 60 do cenário surge como uma referência à época em que Psicose foi lançado, e se mistura a um mundo contemporâneo para criar um cenário que, na verdade, não se preocupa realmente em se definir no tempo. O Bates Motel permanece alheio à passagem do tempo e ao mundo ao redor; assim era no filme, e assim é na série. E os mistérios de White Pine Bay são claramente uma tentativa de construir mais sobre esse universo além da pura fatalidade, pois vários são os fatores que vão fazer de Norman Bates o que ele será no futuro.

A segunda temporada deve aprofundar mais esses aspectos, e pode ser ainda mais sombria, mais estranha, e assumir mais riscos para Norman Bates. Ele é um protagonista simpático, que vai sofrendo uma mudança gradual, saindo de uma posição de herói para anti-herói. Mas algo que não se deve esquecer, apesar de tudo: Norman Bates é um psicopata.

Alfred Hitchcock tinha uma definição interessante para estabelecer a real diferença entre surpresa e suspense — surpresa é uma bomba que explode sem aviso; suspense é quando somos avisados da explosão da bomba com antecedência. A diferença entre Psicose e Bates Motel é justamente essa, mas Bates Motel, além do aviso, nos oferece um contador que, episódio a episódio, mergulha na educação de Norman Bates e nos eventos que acabarão por moldá-lo num assassino de dupla personalidade travestido como a mãe.

Compartilhe este Post

Posts Relacionados



Inscreva-se no Canal

Resenhas Populares

Rogue One: Uma História de Star Wars

Rogue One: Uma História de Star Wars

Animais Fantásticos e Onde Habitam

Animais Fantásticos e Onde Habitam

Raw

Raw

Capitão Fantástico

Capitão Fantástico

O Homem nas Trevas

O Homem nas Trevas

Nível Épico em Imagens

Google Plus

Facebook

SoundCloud