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Por um CINEMA Sem Rótulos!

Cinema Arte e Comercial

Estava pensando, por que existe essa necessidade de rotular os filmes como “arte” e “comercial”? Primeiro que não curto rótulos, acho que Cinema (assim mesmo, com C maiúsculo) é arte e pronto e depois que é tudo uma questão de ponto de vista.

Esse questionamento começou quando percebi que algumas pessoas se surpreenderam com o fato do diretor Guillermo Del Toro realizar um filme como Círculo de Fogo (Pacific Rim); afinal, o cara que criou o Labirinto do Fauno, um filme denso, sobre a Guerra Civil espanhola, não combina com robôs gigantes lutando com monstros gigantes. Combina sim, quando você lembra que Del Toro também é famoso por ter feito a franquia Hellboy. Voltamos aí para os rótulos, afinal Hellboy é muito comercial, feito apenas para ganhar dinheiro, já o Labirinto do Fauno é um filme de arte, uma obra de autor. Certo. Bom, Círculo de Fogo também! Sim! Completamente, um filme autoral. Tudo ali veio da mente maravilhosa de Del Toro, arte, roteiro, concepção de personagens e figurino. Tudo! E isso está muito claro na produção, a preocupação do diretor com cada milímetro que aparece na tela.

Nada está ali por acaso. E quer coisa mais foda e linda do que a cena da menininha fugindo do Kaiju e depois a visão dela de cima. Aquele pontinho azul num mar de destruição e cinzas. Quem não lembrou na hora da menininha de vermelho em A Lista de Schindler? Porque tem isso também, bons diretores sabem citar e homenagear outros bons diretores de forma bem sutil, e isso fica ainda mais incrível quando você percebe. Esse é apenas um exemplo das milhares de homenagens que Del Toro faz em seu filme ao próprio Cinema, criando sua obra em cima da memória de outros grandes filmes. Mas, ah, é um filme de ação, blockbuster, com monstros e robôs gigantes, não é arte, não é conceitual, é apenas comercial! Não pode ser os dois? Arrastar multidões às salas de cinema e ao mesmo tempo ser muito bem realizado… Quem disse que comercial não pode ter qualidade?

Vamos então lembrar de outra franquia de sucesso, sobre um super-herói, que é dirigida por ninguém menos que Christopher Nolan, um diretor completamente autoral, responsável por um dos melhores filmes que já vi: A Origem (Inception). O que Nolan fez com a franquia Batman é reconhecidamente elogiada por todos. É muito difícil alguém colocar um mínimo defeito nela: o Batman de Nolan é o perfeito anti-herói, digno de filmes noir, clara influência em toda a série. Não há a menor dúvida de que Nolan mudou a linguagem dos filmes de heróis. Acho difícil de agora em diante alguém ter coragem de chamar um zé ninguém para dirigir um filme de bilhões de dólares, tanto que a Marvel Studios colocou Kenneth Branagh para dirigir o primeiro filme do Thor. Branagh, aquele que, quando você escuta o nome, a primeira coisa que pensa é Shakespeare. Podem falar que não gostaram do filme e tudo, mas eu achei sensacional Branagh transformar toda a rivalidade entre Thor e Loki em um drama shakespeariano da melhor qualidade, digno de deuses nórdicos, sem comentar Anthony Hopkins como Odin.

Vamos mais fundo nessa brincadeira. Lembram de Michel Gondry? Diretor francês, que começou fazendo vídeos para a Bjork, conquistou o mundo com Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembrança… Super obscuro, extremamente talentoso, Gondry também passeou pelo cinema comercial e realizou um filme de super-herói: O Besouro Verde. Quase ninguém gostou, é verdade, mas aí é questão de gosto, não de ser ou não arte. Porque acho meio difícil alguém não concordar que Gondry é um artista, no sentido mais puro da sua definição. O que tento provar aqui é que rotular e torcer o nariz para um filme apenas porque ele é “comercial” é ridículo. Que quando se cria ideias fechadas para determinadas coisas, se perde muito mais no processo.

O próprio cinema quando surgiu, lá no fim do século XIX, era considerado uma arte inferior, vulgar, que não sobreviveria. Bom, acho que superamos isso, não? Desde o advento da cultura pop que arte passou a ser um conceito cada vez mais subjetivo, no qual o brilhante Andy Warhol surgiu, mostrando que até uma lata de sopa – algo extremamente comercial, aliás – pode ser arte. Se voltarmos à década de 70, para quando George Lucas lançou sua saga de ficção científica, Star Wars, poucos acreditavam nele e menos ainda que em 40 anos seria um ícone do cinema mundial, que influenciaria milhares de outros filmes, mantendo-se atual até hoje, quando esperamos ansiosamente pelo Episódio VIIStar Wars é uma das franquias mais rentáveis até hoje, quer coisa mais comercial que isso? Ao mesmo tempo, transcende o limite entre “comercial” e “arte” ao se tornar icônica.

Por outro lado, por que um filme como Oldboy, extremamente violento, é considerado um filme de arte? Por que é coreano? Ok… Mas é violento e com um temática típica de filmes comerciais. Tudo bem que não arrecadou milhões, bilhões, sei lá, mas Spike Lee já sacou o potencial financeiro do filme e vai lançar a sua versão, que provavelmente vai ser um sucesso comercial. Acho Oldboy incrível, tenho Chan-Wook Park entre meus diretores favoritos e entre suas obras destaco Sede de Sangue, que deixa muito filme bom de vampiro no chinelo. E o cinema francês? Pura arte! Não! Tem muita comédia chinfrim, feita de qualquer jeito, com roteiros horríveis e o único intuito de ganhar dinheiro. Enquanto todo mundo pensa em Goddard e Truffaut, gostaria de citar o ótimo Luc Besson. O cara é pop pra caramba, seus filmes são de fácil acesso e fizeram excelentes bilheterias. Comercial? Claro que não, ele é francês. Entende o quanto esses rótulos são ridículos?

Ao mesmo tempo é hilário ver diretores completamente autorais, que não estão nem aí pro mainstream, virarem comerciais, no sentido de arrastar multidões para o cinema. Entre eles, Woody Allen, que faz o filme que quer, do jeito que quer, e dane-se Hollywood, e por isso mesmo é genial. E meu amadíssimo Pedro Almodóvar, que conquistou o mundo com seus dramas, mas encheu o saco e voltou pra comédias escrachadas, deixando um monte de gente chocada e gritando aos quatro ventos que ele “perdeu o jeito”. Não, simplesmente ele faz o que quer. É nesse ponto que volto lá no Guilhermo Del Toro e puxo até o Peter Jackson, que fazia filmes trash sensacionais na Nova Zelândia, realizou o belíssimo Almas Gêmeas (que apresentou Kate Winslet ao mundo) e transformou a saga Senhor dos Anéis em uma obra prima. Outros dois exemplos de diretores que fazem o que querem, sem dúvida. Allen, Almodóvar, Del Toro e Jackson (e todos os outros que citei) são autorais dentro de seus estilos e criam seus filmes com total maestria.

Se você deixa de ver Círculo de Fogo, O Homem de Aço, Batman, Thor, Homem de Ferro, Os Vingadores ou qualquer outro filme desse estilo porque são comerciais e não “cinema de verdade”, está compactuando com uma mentalidade bem pequena, que não consegue enxergar além do que todo mundo fala que é certo ou errado. Vivemos a era da cultura pop: HQs, rock, ficção científica, séries de TV etc, são nosso legado para as gerações futuras e isso não significa nivelar por baixo, significa entender essa nova realidade e perceber a arte em tudo isso. É impossível ver um filme do Zack Snyder (O Homem de Aço) e não perceber sua estética; ouvir a trilha sonora de O Cavaleiro das Trevas ou O Homem de Aço e não se emocionar com a linda trilha sonora de Hans Zimmer.

Esse é um assunto bem vasto, que pode ser discutido por horas ou páginas, mas o mais importante é entender que para falar de cinema não dá para ser branco e preto, precisamos enxergar os entretons. O que há na verdade, são filmes bons e ruins, isso todos concordam, mas acreditar que um filme é ruim a partir do público para o qual ele é voltado, é ridículo.

O que mais adoro no Cinema é ele ser acessível a todos e possibilitar à imaginação viajar, pela mente, por histórias de amor, por dramas pessoais, ao lado de nossos heróis favoritos, dentro das páginas de um livro incrível, para outro planeta e por aí vai, sem limites, apenas se deixando levar e aproveitar ao máximo possível essa viagem, sem rótulos, sem preconceitos.

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