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Evangelion: 3.33 You Can (Not) Redo

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Evangelion: 3.33 You Can (Not) Redo

Evangelion: 3.33 You Can (Not) Redo (Japão, 2012) é um filme complicado, difícil de descrever, difícil de absorver. A premissa básica do projeto Rebuild of Evangelion (Evangelion Shin Gekijoban) quando ele foi lançado era que os dois primeiros filmes contariam histórias aproximadas à série original e, a partir do terceiro, a história tomaria novos rumos. Portanto, era de se esperar que Evangelion: 3.33 fosse tão diferente em termos de enredo, mas o que não se esperava era tamanha diferença conceitual. O terceiro filme não é só diferente da série original, também é muito diferente dos próprios dois filmes anteriores. Esse é seu maior problema e seu maior trunfo. Há uma temática e um arco narrativo, que são bem básicos. Evangelion: 3.33 é o mais instável dos filmes, incerto sobre os objetivos que deseja atingir, com um potencial para ser épico que oscila entre conceitos intrincados e não plenamente esclarecidos.

O filme é ousado por mudar drasticamente o mundo estabelecido na série original e nos filmes anteriores. É um mundo novo, devastado, que inicialmente promete exploração e progresso. Mas a promessa não se cumpre totalmente. Evangelion nunca foi de explicar muito, mas pelo menos mantinha suas mensagens implícitas, às vezes descaradamente implícitas. Evangelion: 3.33 não tem isso. Tudo é bastante exagerado e simplesmente descarado. O filme gasta os 30 minutos iniciais mostrando um festival de novas armas e máquinas. Ao invés de fornecer um pano de fundo para que nós possamos entender e apreciar essa mudança tão radical no cenário, recebemos apenas um sucessão de ações explosivas que servem mais para mostrar que a animação é boa.

De fato, a animação é muito foda, e as sequências de batalha são impressionantes, com porradarias frenéticas e movimentos insanamente rápidos! Nota-se uma evolução considerável nos aspectos técnicos com relação ao segundo filme. A mistura de desenho nítido e tradicional com arte de computador discreta é uma forma interessante de conduzir uma animação, e a forma contida com que as cenas são apresentadas provoca uma sensação leve de claustrofobia frente àquela realidade tão opressora. Assim como a história, a arte não é sempre clara, mas é o real prazer. A abertura com Asuka e Mari resgatando o Eva Unidade 01 no espaço é impactante e realmente uma boa introdução para o filme! E devo dizer que meu lado fã vibrou nessa abertura, porque eu adoro a Asuka, e é ela, com um tapa-olho, mais fodona do que nunca!

O problema é que o prazer às vezes é tão massificado que se torna repetitivo e perde seu charme. Como eu disse, as cenas de ação são legais, mas depois de muito tempo apenas com ação e nenhuma história ou revelação, o filme começa a irritar.

Depois da abertura forte, somos levados a uma situação de mesmice e enrolação quando Shinji acorda na nave Wille. Aqui, a coisa desanda quando percebemos que todos os problemas — TODOS!!! — poderiam ter sido evitados com uma conversa rápida entre os personagens. Shinji acorda desorientado, querendo saber e entender o que está acontecendo, mas Misato — que agora é a Coronel Misato Katsuragi, comandante da organização Anti-Nerv — decidi tratá-lo com frieza e não conta qualquer coisa pra ele. Shinji, inseguro como sempre, acaba tomando a atitude errada que leva ao resto da história. Ok, se a Misato não tratasse ele com frieza, a história não aconteceria e o filme terminaria em dez minutos, mas o problema é que ISSO NÃO FAZ SENTIDO!!! Os personagens parecem ter perdido completamente o senso comum e quaisquer habilidades de comunicação!

Hideaki Anno optou claramente por usar um estereótipo para construir seu enredo, trabalhando com um herói que, sem conhecer todos os fatos, se junta as inimigos sem saber que eles são os vilões da história. Por um lado, isso é bom porque mostra as motivações dos vilões mais de perto, ultrapassando o maniqueísmo básico; mas por outro, no caso de Evangelion: 3.33, em vez de desenvolver os personagens fornecendo uma lógica para suas ações, o roteiro apenas define um comportamento passivo-agressivo para os personagens. Isso é que não faz sentido e, pior, faz com que os personagens pareçam estúpidos.

Peguemos o caso mais tenso, que é a Misato, a mais contraditória e que mais sofre com problemas de caracterização. No final do segundo filme, Misato incentivava Shinji a tomar uma atitude firme por aquilo que desejava, e vibrava quando ele o fazia. Claro que foi essa atitude de Shinji que causou o apocalipse e que mudou o cenário para o terceiro filme. Logo, pode-se dizer que Misato se tornou amargurada por causa de tudo o que aconteceu, e talvez por ter incentivado isso. Mas ainda não é lógica a forma como ela trata Shinji.

A história se passa 14 anos depois do segundo filme, e o moleque ficou 14 ANOS aprisionado dentro do Eva Unidade 01, num estado de hibernação, e quando ele finalmente sai, ninguém se preocupa com ele?! Ninguém sequer fica do lado dele?! Isso porque eram todos amigos antes! Misato apenas grita com ele agressivamente, sem lhe dizer por que ou o que ele fez. É claro que ele acaba tomando uma decisão errada e estúpida por causa disso. Ah, isso sem mencionar que colocam uma bomba presa ao pescoço dele! Sério, precisava ser assim?! Se tem uma coisa que sempre esteve clara na série e nos filmes é a influência que Misato tem sobre Shinji. Ela só precisava estalar os dedos que ele a obedeceria e aceitaria suas decisões, mas ela resolve ser escrota com o garoto que passou a vida inteira sendo escrotizado pelo pai… É óbvio que ia dar merda! Algumas palavras gentis e Misato teria Shinji comendo na mão dela, e tudo estaria resolvido e faria mais sentido!

Mas tudo bem, não sabemos o que aconteceu nesses 14 anos entre o segundo e o terceiro filme, uma vez que não recebemos quaisquer indícios sobre esse período de tempo. Dizer simplesmente que as coisas são diferentes agora é a melhor forma de encarar Evangelion: 3.33, mas ainda não convence, porque os personagens são simplórios demais para serem convincentes em seus atos.

Asuka é outro caso, mais leve do que Misato, pois trata Shinji mal, mas sempre foi assim com ele. Fica razoavelmente claro que ela gosta dele, mas ela não aceita isso muito bem, e nisso a personagem se aproxima de sua versão original. O problema é que Asuka não é desenvolvida o suficiente para criarmos empatia pelo conflito dela em relação a Shinji — como acontecia na série original. Asuka está no filme apenas para ser porradeira! A Mari, coitada, é a mais subaproveitada de todas. É uma personagem nova, que tinha potencial para crescer como uma adição importante ao universo de Evangelion, mas termina apenas como uma personagem bonita, colorida, fan service, que atua como sidekick para Asuka. Infelizmente, Mari é uma representação clara de alguns dos desperdícios do filme.

Os personagens mais aproveitados, e que são o centro da trama, são Shinji, Rei e Kaworu. Isso acontece porque Shinji é o foco principal da história, algo que tinha ficado claro desde o lançamento de Evangelion: 1.11 You Are (Not) Alone. Explorado apenas superficialmente na série de TV, Kaworu Nagisa ganha mais contornos aqui, e é definitivamente a melhor parte do filme. A relação de Kaworu e Shinji é gradual e convincente, estimulada pela vivacidade da música e do dueto que os dois formam no piano — e depois, para pilotar um Evagelion de entrada dupla: o Eva Unidade 13. O filme se encontra quando Kaworu aparece e sua ambientação apocalíptica se torna mais acessível para nós.

O cenário torna-se realmente intimidador nesse ponto, de aspecto avermelhado e frívolo, como se o mundo estivesse banhado em sangue. A brutalidade intrínseca da série é super-exposta por todo o cenário, e pra piorar, Shinji é o responsável por tudo isso. Ele pensou apenas em seus próprios anseios no final de Evangelion: 2.22 You Can (Not) Advance e se tornou o herói que sempre quis, mas acabou com o mundo no processo. A maior representação dessa realidade é que, num dado momento, ele percebe que está vestindo a roupa de Touji, seu melhor amigo e uma das vítimas do apocalipse que provocou.

Kaworu surge como uma esperança de recuperar o conforto e a amizade que Shinji tinha antes, e que ele mesmo devastou. Shinji se rende a sensação, apenas para descobrir que está prestes a repetir seus erros. A forma como Shinji gradativamente desce a escadaria de sua própria obsessão por consertar tudo é representada numa cena maravilhosamente artística, e cercada pelo cenário onde só se vê desolação a perder de vista. O apocalipse de Hideaki Anno é extremo e impressionante, e os planos de Gendo Ikari na trama, ainda que confusos e mal-explicados, podem levar a um desfecho realmente grandioso. Naturalmente, isso significa que o filme termina com mais perguntas do que respostas.

Pois é, até a aparição de Kaworu, o filme causa uma sensação angustiante de que algo não está certo, e é com esse personagem que vem a contradição de Evangelion: 3.33 You Can (Not) Redo, que (Não) é nada daquilo que nós imaginávamos, mas se isso é bom ou ruim, é muito complicado dizer! A questão é: no fundo, com todos os seus defeitos dolorosos, eu gostei do filme! Eu poderia chamar de guilty pleasure, porém é mais do que isso. A verdade é que Hideaki Anno conseguiu reconstruir todo o universo de tal forma que devastou (literalmente) os padrões pré-estabelecidos da série, nos obrigando a sair da nossa zona de conforto para pensar sobre isso. E se tem uma coisa que Evangelion sempre estimulou foi a contradição e o questionamento.

Evangelion: 3.33 You Can (Not) Redo é um filme confuso, mas que talvez tenha sido pensado para ser confuso, porque seu nível de confusão é quase agressivo, do tipo que violenta nossas convicções naquele universo e naqueles personagens a ponto de nos fazer questionar tudo o que estamos vendo. Depois assistir ao filme, me senti inicialmente angustiado, depois atordoado, depois perplexo por tamanha pretensão e ousadia, então, fiquei pensando, e pensando, e pensando, e percebi que Anno não apenas reconstruiu, mas desconstruiu tudo o que sabíamos sobre Evangelion, e criou uma experiência completamente nova.

Se por um lado é tudo muito frio e desconexo e vazio, por outro, é tudo muito vigorosamente apocalíptico — ou seja, destrói as convenções e revela novas realidades. E isso vale para os personagens e para nós, fãs da série. E sim, estou tendo pontos de vista divergentes sobre a mesma obra, porque esse é um filme que provoca essa contradição, mas cujas várias formas de se expressar se completam num todo que, no fim, é fascinante.

Evangelion sempre foi sobre solidão, e sobre a necessidade de lidar com as consequências de atos cometidos com a intenção de acabar com essa solidão. Shinji é um herói solitário que só se sente confortável pilotando um robô gigante, enfrentando monstros e salvando o mundo, pois é quando recebe reconhecimento, carinho, consideração e amizade. É um herói típico que pilota um mecha porque quer ser herói, mas tudo sempre acaba dando errado pra ele. Evangelion: 3.33 impõe uma nova realidade, mais crua e desprovida de toda o calor humano de antes. Rebuild of Evangelion não é sobre relações interpessoais, é sobre um herói atormentado e arrancado de sua zona de conforto, pois já não pode mais pilotar seu tão estimado mecha. Shinji quer pilotar o Eva 01, ele quer ajudar, mas não é permitido e talvez nunca mais possa fazer isso. Misato e Asuka já não têm mais a mesma conexão e condescendência com ele, ainda que Asuka pareça hesitante. Ele não tem mais aquele conforto de antes e tudo o que ele quer é se agarrar novamente a esse conforto que lhe foi tirado. Assim somos nós, fãs, assistindo a esse filme, arrancados drasticamente de nossa zona de conforto em relação à série e desesperados para ter esse conforto (da série original que já conhecemos) de volta.

Apesar das inconsistências e vazios, Hideaki Anno nos deu a oportunidade de conhecermos uma Misato que não passa a mão na cabeça de Shinji toda vez que ele faz alguma merda; uma Asuka que continua fodona e porradeira, mas parece uma guerreira cansada, que não envelhece e, por isso mesmo, pode estar fadada a lutar pelo resto da vida num mundo desolado por uma causa perdida; e uma Rei que voltou a ser uma boneca inexpressiva, e agora precisa aprender a ser humana novamente — mas que pode ser a mesma Rei dos filmes anteriores. Claro que é frustrante, difícil de aceitar. Shinji fica chocado, e quebra. Nós ficamos chocados, e quebramos. Agora, se essas são sensações que Evangelion sempre foi capaz de provocar e Evangelion: 3.33 provoca, isso só pode significar que o filme tem seu valor.

O clássico acabou. The End of Evangelion, como o nome diz, foi o fim da série clássica, e o final de uma era que não pode (nem vai) ser repetida. Evangelion: 3.33 You Can (Not) Redo é diferente conceitualmente porque tem uma proposta diferente, de ser mais leve, mais dinâmico, mais simples e mais blockbuster — mais próximo do que é o cinema atual e do que é a geração atual. Mais do que isso, é parte de um conjunto que não pode ser considerado separadamente. Evangelion: 3.33, como parte de uma tetralogia, serve de ponte entre os eventos do segundo e do quarto filme (que está por vir). A ponte ainda está incompleta e só vamos conseguir absorver tudo (ou quase tudo) quando chegarmos ao final do caminho. Até lá, muitas questões e contradições vão perturbar nossas mentes… Mas não é isso que faz Evangelion ser Evangelion?! Parece bom pra mim.

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