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O Oceano no Fim do Caminho

O Oceano no Fim do Caminho

A nostalgia pode ser perigosa. Ao lembrarmo-nos do passado, principalmente da infância, tendemos a recordar apenas os bons momentos, muitos permeados da inocência infantil, apagando da memória as coisas ruins dessa fase de nossas vidas. Ao chegar à idade adulta, muitos parecem que esquecem que já foram crianças e ainda as tratam com condescendência, esquecendo que elas sabem muito mais do que aparentam, e que sim, são obrigadas a passar por algumas merdas na vida.

O Oceano no Fim do Caminho (The Ocean at the End of the Lane, EUA, 202 páginas, 2013), publicado aqui no Brasil pela Editora Intrínseca, apresenta o primeiro romance adulto de Neil Gaiman em quase uma década, onde deixa bem marcado como a infância pode ter um lado ruim. O livro é narrado por um protagonista já adulto que volta a sua terra natal para um funeral, e acaba relembrando determinadas passagens de seus sete anos de idade, algumas já há muito tempo esquecidas. O nome do protagonista não é contado, embora para o leitor atento há uma possível pequena dica em determinada passagem, que não vou dizer qual é — vai ter que ler pra saber.

O curioso é que o livro inicialmente seria apenas um conto com o qual o autor iria presentear sua esposa Amanda Palmer, mas a obra foi crescendo e acabou se tornando um romance não planejado. Imagine a felicidade do editor ao receber do nada a notícia de que Neil Gaiman tinha um novo livro pra publicar.

Trata-se de um romance de horror, onde a presença do sobrenatural se faz presente apenas depois de alguns capítulos. O início todo é focado em descrever a vida do protagonista aos sete anos, como sua festa de aniversário onde nenhum convidado apareceu (a parte mais assustadora), sofria bullying, entre outros dissabores, mas ao mesmo tempo tinha conforto nos livros de fantasia, o que cria uma identificação muito grande para qualquer um que tenha atravessado seus primeiros anos em meio aos mundos fantásticos da literatura, e acabou virando um amante da leitura pro resto da vida.

Isso muda quando acontece uma tragédia na pequena localidade, e acaba atraindo um ser sobrenatural que desencadeia toda a trama. Este ente apresenta-se como Ursula Monkton, que se disfarça de humana e torna-se a governanta do narrador, despertando o pior na família dele. E o menino é o único na casa que sabe que ela é de outro mundo. Para se livrar dela, o garoto acaba recorrendo à ajuda das mulheres Hempstocks, que lidam com magia há várias gerações. A mais nova delas, Lettie, acaba virando amiga do protagonista, e é quem afirma que o lago em sua propriedade é na verdade um oceano.

Gaiman é bem sutil em narrar as passagens fantásticas. O papel dos seres, bem como das Hempstocks, nunca é explicitado, dando a entender muito mais coisas do que a narração apresenta. Deixa, assim, espaço para a imaginação dos leitores, que podem preencher eles mesmos o não dito pelo autor. Ao mesmo tempo, os fatos descritos tornam-se mais assustadores, e embora algumas passagens sejam bem sombrias, não há espaço para o gore ou o terror barato.

Outro ponto a se destacar é que, embora a ação se passe quase toda com uma criança, o ponto de vista é sempre adulto, que apresenta inclusive reflexões como tal. Não é um livro nem um pouco infantil, pelo contrário, requer certa maturidade para se entender o que está realmente ocorrendo.

O clímax do livro é de tirar o folego, e o final não é exatamente feliz ou infeliz, possuindo na verdade um clima agridoce — as perdas são inevitáveis, mas é preciso seguir em frente. Aliás, pode-se afirmar que o livro todo possui esse tom. Assim, Gaiman foge dos estereótipos comuns ao retratar a infância e, ao mesmo tempo, faz literatura fantástica de extrema qualidade. Dessa forma, presenteou seus leitores com uma pequena pérola, vinda de um lago que pode na verdade ser um antigo oceano, habitado por seres que já passaram por nosso mundo, e hoje são lembrados apenas nos contos de fadas.

P.S.: Algumas das Hempstocks já apareceram antes em outros livros do autor, como Stardust e O Livro do Cemitério, o que permite especular que, assim como Quentin Tarantino, talvez exista por aí um “Gaimanverso” a espera de ser desvendado.

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