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Superman: O Homem de Aço

Superman – O Homem de Aço

Alienígena e exilado, perseguido por aqueles incapazes de compreendê-lo, e ao mesmo tempo, um deus para eles, para todos nós. Amado e idolatrado por muitos, não tão amado por muitos mais. O primeiro herói. O HERÓI. Sem ele, provavelmente, não existiriam os heróis como os conhecemos, não existiria toda essa rica mitologia contemporânea que enaltece corações e mentes em páginas de quadradinhos ilustrados.

ATENÇÃO! Este texto contém TODOS OS SPOILERS DO MUNDO sobre o enredo do filme. Se você não quiser saber detalhes cruciais sobre O Homem de Aço, pare agora e vá ler o texto sem spoilers. Volte depois de ver o filme, e leia a partir da imagem da Faora. Agora, se não importa pra você ler spoilers, continue por sua conta e risco!

O Superman foi criado lá em 1938, na revista Action Comics #1, e definiu o gênero de super-heróis nos quadrinhos. Ao longo do tempo, ganhou inúmeras — INÚMERAS — histórias de origem, contadas e recontadas diversas vezes, das mais variadas formas, por diferentes escritores. Algumas se tornaram cânones, outras foram desconsideradas ou reformuladas, mas, no fim, todas, em algum momento, fizeram parte da mitologia do principal super-herói da DC Comics. Isso criou um monte de referências a serem consideradas quando se pensa nos primeiros anos de heroísmo do personagem.

Superman – O Homem de Aço (Man of Steel, EUA, 2013) surge para ser uma nova origem, uma completa releitura do icônico personagem, adaptado não só para se adequar à linguagem cinematográfica, mas também para se adequar a uma visão de mundo mais atual, a mesma visão que, em 2005, foi responsável pela releitura do Batman.

Christopher Nolan e David Goyer desenvolveram Batman Begins em cima de algumas vantagens em termos cinematográficos, porque até então não havia sido contada uma história de origem plena para o Batman num filme, a ponto de mostrar seus anos de treinamento e todas as dúvidas e desesperanças contras as quais teve que lutar antes de assumir seu manto. Ainda que ele tivesse aparecido em outros filmes que mostravam como Bruce Wayne se tornou um herói, Batman Begins foi inteiramente direcionado para contar a história sobre como um órfão cresceu para se tornar um símbolo de medo contra o crime de sua cidade natal.

Com o Superman, a questão é um pouco mais delicada, pois a origem do herói já havia sido contada em Superman, filme de 1978 dirigido por Richard Donner, que até hoje permanece como um marco para os super-heróis no cinema, lembrado com carinho por muitos fãs, seja por sua história, seja por seu elenco, seja por sua trilha sonora. Considerando o peso que o antigo Superman representa para a cultura pop, Nolan e Goyer tinham uma missão das mais árduas pela frente em sua tentativa de reinventar o herói para uma nova geração. E eles começaram mostrando que devemos, SIM, respeitar o passado, mas, sobretudo, devemos viver o PRESENTE, e os super-heróis de hoje não são os super-heróis de ontem.

Superman – O Homem de Aço

Por isso mesmo, optaram por diversas alterações conceituais na construção desse novo Superman. A começar pela oportuna ajuda do diretor que se juntou a eles nessa jornada, Zack Snyder, que concede ao filme seu estilo visual inestimável e momentos REALMENTE ÉPICOS de ação. Durante anos, uma das grandes questões sobre os filmes do Superman foi a ação. Muito se falava sobre explorar vilões a altura do Superman e sobre fazer sequências de luta mais impactantes. Snyder tem uma percepção bastante particular para combates épicos e se mostra essencial para construir cenas de porradaria para um personagem como o Superman. O roteiro se encarrega de colocar os vilões a altura. O novo filme evita se sentir como uma reconstituição do material anterior, sabiamente evitando as armadilhas que levaram Superman: O Retorno ao fracasso, se equiparando ao estimado filme de 1978 em muitos aspectos, e também conseguindo, de muitas formas, ser superior. Além disso, o novo Superman se lembra de prestar homenagens ao velho Superman, como a cena em que Faora e um aliado kryptoniano encaram o Superman numa rua de Smallville, ou a cena em que o Superman suporta o raio de energia a Máquina Planetária e seu rosto sofre distorções que, por um instante, revelam a face do ator Christopher Reeve.

O filme tem no elenco Henry Cavill como Clark Kent / Kal-El / Superman; Amy Adams como a jornalista Lois Lane; Michael Shannon como o General Zod; Antje Traue como Faora; Laurence Fishburn como Perry White; Richard Schiff como o Dr. Emil Hamilton; Russell Crowe como Jor-El, pai kryptoniano do Superman; Ayelet Zureras como Lara Lor-Van, mãe kryptoniana do Superman; Kevin Costner como Jonathan Kent, pai adotivo de Clark; e Diane Lane como Martha Kent, mãe adotiva do herói.

Através de uma narrativa inteligente e personagens envolventes interpretados por grandes atores, O Homem de Aço conta a história de origem que conhecemos. Clark Kent (Cavill) é um homem que cresceu aprendendo a lidar com poderes além da compressão das pessoas. Após anos de peregrinação pelo mundo tentando entender a si mesmo e as suas origens, Clark descobre que é descendente de Krypton, um planeta alienígena e avançado que foi destruído muito tempo atrás, e que foi enviado para a Terra por seu pai kryptoniano, Jor-El (Crowe). Aqui, ele foi encontrado por Jonathan (Costner) e Martha Kent (Lane), que foram seus pais adotivos e ensinaram-no a ter controle sobre os grandiosos poderes que carregava. Clark sempre foi diferente, vivendo dia após dia em busca de uma resposta para sua maior pergunta — “Por que estou aqui?”

Educado sob os valores humanos de seus pais adotivos, Clark descobre como pode usar seus poderes para ajudar o planeta que o acolheu quando a Terra é atacada pelo destrutivo General Zod (Shannon), um também sobrevivente do planeta Krypton. Assim, ele torna-se o maior herói que o mundo já conheceu.

O roteiro parte de muitas premissas para construir o enredo, sendo que a principal delas é a questão de apresentar Clark Kent como alguém desajustado à sociedade por ser diferente, mas que, ao mesmo tempo, tenta descobrir desesperadamente uma forma de se ajustar. O filme mostra Clark como um alienígena — que é o que ele é! — perdido num mundo que não é o seu, que passou a vida com medo de mostrar quem realmente é porque os humanos, em geral, hostilizam aquilo que não compreendem.

Superman – O Homem de Aço

Aproveitando muitos elementos da graphic novel Superman: Terra Um, muitos mesmo, a história acompanha Clark enquanto ele tenta descobrir seu passado e se ajustar na sociedade humana, mas que se vê obrigado a revelar sua presença para proteger o mundo de um perigo causado por ele próprio. A narrativa não-linear, também parecida com a da graphic novel e semelhante ao Batman Begins, reforça a melancolia da busca de Clark, uma vez que, pouco a pouco, conhecemos a construção de seu caráter e as preocupações de seus pais para com seus poderes. Tecnicamente, a opção de contar a história fora de ordem e através de flashbacks também contribui com o desenvolvimento da trama e dos personagens, já que, como eu disse antes, a origem do Superman já foi contada diversas vezes, e não precisa ser toda recontada novamente. Isso cria alguns buracos e inconsistências no roteiro, além de coincidências típicas dos quadrinhos, mas também não é algo que atrapalha o entendimento do que o filme quer passar para quem está vendo.

O Homem de Aço é um drama quase biográfico, e com teor épico, que toca em algumas ideias interessantes e até mesmo filosóficas. Não é a toa que, num dado momento, vemos um Clark adolescente apanhando de uns valentões da escola enquanto estava lendo um livro de Platão, cujos escritos de A República parecem servir como base para muitos dos elementos da história, desde o fato de que Krypton é uma sociedade onde o conhecimento científico passou ser usado para sustentar uma ordem política que aboliu a escolha e a oportunidade, até o fato de que não importa o quão forte e poderoso você seja, você tem responsabilidades para com esse poder e precisa suportar qualquer tipo de assédio moral em prol de sua virtude intelectual. Krypton, aliás, é uma parte bem interessante dessa nova versão, desenvolvida em cima de elementos inspirados nas revistas The Man of Steel, de John Byrne, e Legado das Estrelas, de Mark Waid, e aprimorada com alguns aspectos ambientais e tecnorgânicos que tornam o prólogo do filme impressionante.

Superman – O Homem de Aço mostra que é possível juntar história densa, personagens profundos, visual impressionante e porradaria desenfreada na construção de um filme de super-heróis, fugindo de estereótipos que muitos ainda insistem em atribuir a esse gênero cinematográfico, mesmo nos tempos atuais em que temos produções como Batman: O Cavaleiro das Trevas e Os Vingadores.

O centro da história ainda coloca Clark, ou Kal-El, dividido entre seus dois pais. Jor-El, seu pai biológico, vê potencial para que seu filho se torne uma luz de esperança para a raça humana, como um símbolo de inspiração e bondade. Jonathan Kent, o homem que o criou, por ser um humano, é mais realista e reconhece o medo e o caos social que se abateria sobre a sociedade se o mundo descobrisse que Clark é um alienígena. Graças a esses dois personagens, somos obrigados a olhar ao nosso redor, para nosso próprio mundo, fazendo as mesmas perguntas que Clark para, finalmente, vermos essas duas formas distintas de pensamento convergir no ideal que cria o Superman que conhecemos — “Você dará as pessoas da Terra um ideal pelo qual lutar.”

Aos poucos, o herói vai sendo apresentado como a divindade-chave dessa mitologia que vem se construindo no imaginário moderno. Jor-El fala num dado momento: “Ele será um deus para eles.” Na verdade, Superman é praticamente um deus, que sempre teve esse caráter de messias, de salvador da humanidade. Como Grant Morrison dizia: “Ele é como um Jesus da ficção científica.” Aliás, o filme também se inspira, muito de leve, na série Grandes Astros: Superman, escrita por Morrison, justamente por esse aspecto que mostra o Superman como alguém que carrega um tremendo fardo sobre os ombros, mas escolhe dividi-lo com a humanidade, sendo tanto um protetor quanto um guia.

Superman – O Homem de Aço

Ele é o principal dentre os deuses de um grande panteão, algo que se aproxima bastante com o que sempre foi o conceito de super-heróis da DC, que, diferente da Marvel, são mais divindades do que humanos com super-poderes. Por isso mesmo, o novo Superman também é mais denso, mais sério, porque a DC sempre foi mais formal com seus personagens, enquanto a Marvel sempre foi mais descontraída, com personagens mais humanizados e divertidos. Claro que ambas têm seriedade e diversão, mas cada uma trabalha isso a sua maneira, e isso reflete porque O Homem de Aço é um filme tão foda, e porque Os Vingadores é um filme tão foda, e porque ambos são filmes IGUALMENTE fodas de formas totalmente diferentes.

Mas é um fato que vivemos em tempos mais sombrios, onde vive-se mais tempo com os pés fincados no solo de uma dura realidade do que com uma capa esvoaçante nos céus por entre as nuvens. Os filmes de super-heróis, desde Homem de Ferro, vêm se adaptando a essa visão de universo heroico mais próximo da realidade e no qual as falhas dos heróis fazem-se mais evidentes — no qual os heróis são mais humanos.

Nessa busca pela humanidade em um alienígena, O Homem de Aço explora uma imagem cristã de concepção do herói, conduzindo-o por sua jornada como o “Jesus da ficção científica” que Grant Morrison caracterizou. Clark começa sua jornada aos 33 anos, viaja promovendo ações que beiram o milagre, ajudando pessoas como um anjo da guarda, e barbudo — e eu fiquei esperando ele tirar a barba com a visão de calor refletida num espelho, juro que fiquei.

Apesar das referências, é uma imagem sutil, pois o Superman surge como alguém que está na Terra para ajudar a humanidade, não para redimi-la. Ele poderia acabar facilmente com todas as desgraças da Terra, mas ele não está aqui para nos salvar de todos os nossos pecados. Sua vida, assim como a vida de cada um de nós, é moldada pela escolha e pela oportunidade, e ele faz suas escolhas, ele vai contra tudo que Krypton e sua própria natureza pregavam. Por isso é tão difícil para ele, assim como é difícil para qualquer um, assumir uma grande responsabilidade, porque ele gostaria de continuar sendo o filho comum do fazendeiro, mas decide ser algo maior porque pode fazer coisas maiores — “E se uma criança sonhasse em ser algo diferente do que a sociedade esperava? E se ela quisesse ser algo maior?”

Mais do que isso, esse novo Superman é impulsionado pela premissa de que vivemos um tempo de espiritualidades superficiais, em que temos dificuldade de aceitar e concordar com muitas coisas, espirituais ou não, mas que, às vezes, precisamos dar um voto de fé antes se quisermos receber essa mesma fé de volta. E não estou falando de “fé” no sentido religioso da palavra, mas “fé” no sentido de acreditar, em qualquer coisa que seja, em si mesmo, nas outras pessoas, ou simplesmente acreditar que um filme de super-herói pode ser bom, e emocionar, e te fazer pensar em um milhão de coisas. Assim como Jor-El deseja que seu filho seja livre para escolher, nós somos livres para escolher, e não precisamos nos prender a convenções sociais ou espirituais para seguirmos o caminho que consideramos certo.

Ainda que seja um super-herói mais melancólico e vivenciando momentos de descoberta sobre si mesmo, esse Clark Kent se beneficia da vitalidade do ator Henry Cavill, que por ser pouco conhecido, concede uma aura de encanto renovada para o personagem. Cavill não tem realmente uma grande oportunidade de aproveitar seu heroísmo, mas esbanja um charme misterioso que consegue capturar a essência de pura bondade do Superman ao mesmo tempo em que trava uma batalha interna para encontrar seu verdadeiro lugar no mundo.

O elenco respeitável que orbita o protagonista é outra peça fundamental do filme, por representarem pessoas influentes na vida do personagem. Kevin Costner e Russell Crowe trabalham com a seriedade necessária para seus papéis, e são extremamente representativos por moldarem as crenças sobre a existência de Clark/Kal-El no mundo. Costner é um espelho moral para Clark, e sua participação é emocionante. Crowe é mais ativo, fodão como só Russell Crowe sabe ser, e participa da ação, mas também oferece a Kal-El a escolha de ser ou não um super-herói. Michael Shannon cria um General Zod intimidador, que se revela uma versão filosoficamente antagônica para o Superman, ainda que não seja realmente um vilão. Zod acredita verdadeiramente em sua causa e no sistema da sociedade que o criou. Ele representa a opressão criada pela impossibilidade do livre-arbítrio, e o vazio que a falta de uma opção pode proporcionar. Apesar de seus objetivos e de sua crueldade, entendemos a dor e as limitações de sua existência pré-determinada. Já a atriz Amy Adams prova mais uma vez que consegue se adequar a qualquer papel com uma Lois Lane crível, uma mistura perfeita de repórter durona, curiosidade incontrolável, inteligência moral e coração compassivo. Adams cria uma Lois Lane adorável, e encrenqueira como só a Lois Lane sabe ser, afinal, Superman não é Superman sem ficar salvando a Lois de algum apuro a cada segundo. Além disso, a química entre Cavill e Adams é fascinante.

A trilha sonora de Hans Zimmer amplia o impacto e imponência de cada cena, com batidas cadenciadas nos momentos mais calmos, que vão crescendo nos momentos mais épicos. A trilha reforça a epicidade do filme, e assim como acontece em Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge, não para em momento algum, e emociona em cada cena. Não é uma trilha pensada para substituir o clássico de John Williams nos filmes anteriores, mas pensada para se adaptar a essa nova visão do Superman. A trilha de John Williams é linda, mas não caberia na atmosfera desse filme como cabe na atmosfera dos filmes antigos. Já a trilha de Hans Zimmer é condizente com os novos tempos, e é perfeita para O Homem de Aço.

Superman – O Homem de Aço

A atmosfera mais espiritualizada cumpre sua função de construir o Clark Kent como humano e, aos poucos, vai abrindo espaço para o alienígena Homem de Aço. É quando o filme se assume de vez como entretenimento puro e simples, com um visual grandioso, digno do Superman. Em cada parte, é perceptível as influências de Nolan e Goyer, no teor mais sóbrio, e as de Snyder, no teor mais extravagante. O equilíbrio que se estabelece entre seus criadores é o que torna O Homem de Aço um filme excepcional. Na tentativa de combinar esse tom mais sombrio e humanizado da história, Snyder faz uso de cores suaves e de alto contraste, características normalmente marcantes em seus filmes, e com isso ainda produz um efeito que parece fazer as luzes brancas ainda mais brilhantes e imponentes. Por outro lado, ele também se revela mais contido do que o normal, sem usar excessivamente seus típicos efeitos de câmera lenta, mas ainda causando impacto com suas cenas de ação. Snyder aproveita sem receios a estética dos animes, que muitos cineastas apreciam, mas poucos realmente se dispõem a usar.

Snyder, que é fã assumido de animações japonesas, sabe que qualquer combate entre o Superman e algum ser super-poderoso deveria, inevitavelmente, atingir escalas épicas, e como animes gostam de combates em escala épica, Snyder não se segura. O diretor reconhece que heróis e vilões têm a força de deuses, e mergulha fundo nas sequências devastadoras de ação, de tal forma que atravessamos prédios entre socos, rasantes e arremessos, e sentimos o impacto de cada golpe, e ficamos abismados com o nível de destruição massiva provocado pela batalha entre Superman e Zod.

Os combates entre Superman e Faora, e depois entre Superman e Zod, são porradarias dignas de Dragon Ball Z, no melhor estilo velocidade, voar, bater, explodir, destruir. É muita porradaria. FODA. Sem controle. Passamos anos torcendo pra ver um Superman chutando bundas com todo o seu poder no cinema. E é o que ele faz. EM ESCALA CÓSMICA.

Outra coisa. FAORA-UL. Que espetáculo! Não só por ser linda de morrer, mas por ser uma tremenda porradeira! Aliás, se já não tivessem usado ela como Faora, essa atriz Antje Traue seria uma Mulher-Maravilha sensacional!

Obviamente, milhões de pessoas provavelmente morreram durante esses confrontos, e isso acaba sendo meio inevitável num combate entre deuses. Inclusive, em parte, esse aspecto do filme poderia gerar alguns questionamentos parecidos com os da série chamada Crise de Identidade, publicada em 2004 pela DC, que tratava sobre a ética de ser um super-herói, até que ponto ele poderia chegar para proteger seus entes queridos e qual o verdadeiro peso de ser um super-herói. Foi uma série que acrescentou uma carga dramática aos deveres dos super-heróis, e tentou humanizá-los um pouco mais, mostrando que até mesmo seres super-poderosos quase divinos cometem erros. Nesse filme, Clark ainda está começando seu caminho como herói, ainda age por ímpeto sem pensar nas consequências, e certamente ainda tem muito a aprender. Além disso, não acho que um inimigo como General Zod se deixaria ser levado para um lugar menos habitado tão facilmente.

Há também a própria questão da forma como o General Zod é derrotado. O Superman mata ele. Quebra o pescoço dele. Mas por um motivo bastante aceitável. A morte de Zod é inserida no enredo justamente para promover essa mudança de conceitos a respeito do personagem. Estamos falando de uma reinvenção do Superman para o século XXI, não aquele Superman de 1938, nem aquele do filme de 1978. Esse é um Superman novo, com características novas e ideais novos. O que não significa que ele não terá esse código de não matar no futuro.

O Homem de Aço é uma nova história de origem, e nessa nova história, o Superman está aprendendo com seus erros. Sua aversão à morte, aparentemente, está sendo construída. Ele não gosta da ideia de matar, mas o faz mesmo assim porque se vê sem outra opção. Ou ele mata Zod, ou Zod mata a família de humanos com a visão de calor. O próprio Zod se coloca nessa posição, pois uma vez que teve seu plano frustrado, não tinha mais motivos para viver, por isso, força o Superman a matá-lo. Depois de tomar essa decisão, pode ser que o Superman assuma uma posição mais firme quanto a não matar, afinal, matando Zod, ele praticamente destruiu o que restava de seu povo e sua cultura, e terá que conviver com isso no futuro. O desespero dele é bem evidente.

Superman fez o que o Superman realmente faria em uma situação difícil, proteger a raça humana. Essa é a essência do personagem. Era matar ou ser morto, e ele não tinha outra escolha. A vida é feita de escolhas, nem sempre elas são simples, e muitas vezes vão contra nossas crenças e nossos códigos morais. O Superman normalmente toma todas as medidas possíveis para evitar a morte de um inimigo, mas, nos quadrinhos, ele já tomou essa decisão extrema, algumas vezes, para salvar vidas. O próprio General Zod já morreu pelas mãos do Superman no arco Vidas Paralelas se Encontram no Infinito, publicado aqui no Brasil na revista Super Powers.

Superman – O Homem de Aço

O Homem de Aço não se esforça tanto para criar um novo universo cinematográfico para a DC, mas se estabelece num mundo convincente e cheio de vislumbres sobre os possíveis futuros que podem ser explorados ali. O filme é realista na abordagem e sincero na emoção, mas também maravilhosamente fantástico, e apesar da sobrecarga sensorial, existem muitos easter eggs do Universo DC espalhados pelo filme, apenas esperando para serem encontrados.

Muitos rumores afirmavam que Bruce Wayne faria uma participação no filme, e de certa forma, ele está lá, ainda que não seja em pessoa. Durante a luta final entre Superman e Zod, eles vão para o espaço e destroem um satélite que tem o logotipo da Wayne Enterprises. O Batman deve ter ficado muito puto por eles terem destruído o satélite, mas se isso aconteceu, significa que o Batman provavelmente já está ciente da existência do Superman.

Lex Luthor, o grande arqui-inimigo do Superman, não apareceu ainda, mas a logotipo da LexCorp também já deu as caras numa cena durante a batalha entre Superman e Zod no meio da cidade. Além disso, quando Jor-El está mostrando a história de Krypton para Kal-El num painel de metal líquido, aparece rapidamente um kryptoniano careca hasteando uma bandeira com uma armadura que é muito igual a do Lex Luthor nos quadrinhos. Pode ser uma dica sutil. No final, o General Zod simplesmente abandona os pedaços de sua armadura no topo de um prédio, ou seja, basta o Luthor encontrar essa armadura, adaptá-la e usá-la para se tornar um futuro vilão blindado contra o Superman.

Outro logotipo aparece na fachada de um prédio durante a luta de Superman e Zod, dessa vez, da linha quadrinhos chamada Blaze Comics, que na verdade pertence ao Gladiador Dourado, um esportista que veio do futuro atrás de fama e dinheiro e acabou se tornando um herói — embora seja um herói de pouca representatividade na DC. Nos quadrinhos, ele possui uma empresa de quadrinhos chamada Blaze Comics.

Com relação a personagens efetivamente fazendo participações especiais, há a presença do Dr. Emil Hamilton, que tem um papel importante nas histórias do Superman por sua ligação com os Laboratórios S.T.A.R. e que poderia abrir algumas possibilidades para a aparição de personagens da DC no futuro — apesar de seu desfecho no filme. Outra personagem é a militar que aparece no final dizendo que acha o Superman é sexy. O nome dela é Major Carrie Farris, um nome muito curiosamente parecido com Carol Ferris, que foi namorada do Lanterna Verde e depois se tornou uma vilã.

Por falar em vilões, os tentáculos que surgem da Máquina Planetária para atacar o Superman podem ser um vislumbre leve para um futuro com a Liga da Justiça no cinema — mesmo que a ideia não seja realmente usada. Nos quadrinhos, a primeira aparição oficial da Liga da Justiça foi na revista The Brave and the Bold # 28 para enfrentar um monstro alienígena com tentáculos chamado Starro, o Conquistador. Pode não ser nada, mas pode ser alguma coisa, especialmente considerando que o filme da Liga da Justiça depende do Superman para ser produzido. Além disso, aquele crânio que serve como Codex em Krypton também parece um vislumbre de uma possível aparição do Braniac, outro vilão famoso do Superman. Essa impressão é ainda mais forte se considerarmos a aparência da nave usada pelo General Zod, que é muito igual à nave do Braniac.

Pra completar, parece que a Supergirl, apesar de ainda não ter aparecido, tem um lugar garantido nessa nova mitologia do herói. Antes de o filme estrear, a DC publicou uma história em quadrinhos que servia como prequel para o filme, explicando como a nave kryptoniana acabou presa no gelo do Ártico por cerca de 20 mil anos. Nesses quadrinhos, a nave era pilotada por Kara Zor-El, que seria uma antepassada de Kal-El, portanto, aquela que conhecemos como Supergirl. Segundo a história, um assassino matou o resto da tripulação em suas câmaras de estase, mas Kara aparentemente conseguiu sobreviver ao ataque, como fica sugerido por causa da câmara vazia e aberta que Clark encontra quando descobre e entra na nave.

As questões são: a Supergirl morreu 20 mil anos atrás? Ou será que ela voltou para sua câmara e saiu apenas recentemente? Ou o único sobrevivente do acidente foi, na verdade, o serial killer kryptoniano? Essas são questões que já abrem pontas para serem desenvolvidas numa sequência. E eu adoraria MUITO ver a Supergirl nesse novo universo.

Superman – O Homem de Aço é invariavelmente uma história de origem, criado como um reboot para o Superman no cinema, e formulado sob concepções mais contemporâneas que vêm sendo trabalhadas em Os Novos 52, o reboot da DC nos quadrinhos. Na verdade, poderia até ser definido como um Superman: Ano Um, assim como existe Batman: Ano Um, um cenário que impõe o aprendizado ao herói com desafios e escolhas muito maiores e mais perigosas do que simplesmente ter que aprender a voar.

O Superman surge como um homem de dois mundos, e como uma boa história de origem, mostra Kal-El em sua decisão clara sobre o mundo do qual deseja fazer parte. O filme nos conduz por uma jornada que nos explica as razões e as motivações para essa escolha. Assim como o Superman dos Novos 52, esse é um Superman criado para o século XXI, cujas transgressões aproximam-no do que é um ser humano, enquanto seus sacrifícios demonstram o verdadeiro apreço que ele sente pela humanidade. Diferente de Batman Begins, que mostra a criação de um herói de forma pessimista, O Homem de Aço é a criação de um herói de forma otimista, um herói que acredita em valores e na humanidade, e que apesar de alienígena é tão humano quanto eu ou você.

“Meu pai acreditava que se o mundo descobrisse quem eu era, iria me rejeitar. Tinha certeza que o mundo não estava preparado. O que você acha?”

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