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O Perigo da Única História – Segundo a Escritora Nigeriana Chimamanda Adichie

Chimamanda Ngozi Adichie é uma escritora nigeriana, e uma mulher definitivamente encantadora. Segunda ela própria, escreve desde os 7 anos de idade e sempre foi ávida pela leitura. Porém, como cresceu lendo livros norte-americanos e britânicos, acabou desenvolvendo uma consciência sobre personagens da literatura que estava longe de sua realidade. Ela atribui essa consciência ao que chama de O Perigo da Única História, que você pode entender melhor assistindo ao vídeo abaixo.

Quando completou dezenove anos, deixou a Nigéria e se mudou para os Estados Unidos, onde estudou na Universidade Drexel da Filadélfia, se transferiu mais tarde para a Universidade de Connecticut, fez estudos de escrita criativa na Universidade Johns Hopkins de Baltimore, e mestrado de estudos africanos na Universidade Yale.

Seu primeiro romance, Purple Hibiscus (Hibisco Roxo), foi publicado em 2003. O segundo romance, Half of a Yellow Sun (Meio Sol Amarelo), tem esse nome em homenagem à bandeira da Biafra, um estado situado a sudeste da Nigéria e uma das causas da Guerra Civil Nigeriana. A história se passa no período da Guerra Civil, entre 1967 e 1970, e ganhou o Orange Prize para ficção em 2007, prêmio concedido para histórias de ficção escritas por mulheres no idioma inglês em todo o mundo.

O que Chimamanda Adichie tem a compartilhar é não só interessante, mas também, importante. Mais do que isso, enquanto a ouvimos falar sobre a realidade da Nigéria, percebemos muitas similaridades com questões facilmente encontradas aqui no Brasil, como aqueles que se deliciam com a leitura a despeito das insistentes afirmativas de que brasileiro não lê; que largam trabalhos burocráticos para abrir uma editora; que abrem negócios e fracassam, mas não desistem; que confrontam todos os dias problemas com uma infraestrutura fracassada e um governo falho, e ainda assim prosperam a despeito do governo.

A autora conta como escrevia histórias que eram semelhantes às histórias estrangeiras que ela lia, sempre com crianças de pele branca e olhos azuis. Até que ela descobriu histórias africanas, e percebeu que pessoas como ela poderiam estar nas histórias.

Quando ouvimos ou lemos histórias sobre uma determinada parte do mundo, normalmente percebemos essa parte do mundo sob o ponto de vista das histórias que absorvemos. Nem sempre nos preocupamos em saber se a realidade retratada naquela história é condizente com a realidade real (com perdão da redundância). A verdade é que, em geral, aceitamos facilmente o que nos é contado, e raramente nos preocupamos em pesquisar detalhes ou apurar a veracidade dos fatos.

Adichie fala sobre sua própria experiência sobre a única história. Primeiro, contando sobre a família de Fide, um garoto de origem humilde que trabalhava em sua casa. Depois, atentando para sua percepção quando ouviu sobre a imigração mexicana na época em que vivia nos Estados Unidos, e como acabou influenciada pela percepção dos norte-americanos sobre a imigração mexicana.

“Mostre um povo como uma coisa, como somente uma coisa, repetidamente, e será o que eles se tornarão” — é assim que se cria uma única história, de acordo com a escritora. A única história rouba das pessoas a dignidade. E nessa questão, ainda há o elemento do poder, o fator “ser maior do que o outro”, ou como Adichie: nkali, uma palavra da tribo Igbo. Quem detém o poder, frequentemente detém a versão da história que é contada e recontada. É como normalmente acontece durante uma guerra: quem vence, define a história que será conhecida pelas gerações futuras, e como será conhecida.

Ao envolver-se com todas as histórias de uma pessoa, lugar ou problema, a armadilha de uma única história pode ser evitada. A única história faz com que as diferenças entre as pessoas se destaquem, e a grande questão é que a única história é uma descrição incompleta — muitas vezes, imperfeita. Naturalmente, compreender a história sobre um país ou uma pessoa não significa ter um conhecimento completo a respeito deles. Até porque não acho que seja realmente possível ter um entendimento completo sobre alguma coisa, a não ser que nos conformemos em acreditar numa única história. No que diz respeito a pessoas, especialmente, sempre há algo a ser descoberto, sempre há aquele fator inconstante que pode mudar pensamentos ou comportamentos no último segundo. É assim que surgem guerras, e tratados de paz, e manifestações por questões políticas e sociais, e mudanças de paradigmas. Não se pode tratar essas variáveis através de pensamentos simples e padronizados disseminados por histórias únicas.

A fim de contar histórias sobre uma cultura ou sub-cultura, Adichie deixa claro que devemos nos certificar de ter uma visão objetiva sobre toda aquela cultura, não uma única história para perpetuar estereótipos. É por causa de visões nubladas por histórias únicas que durante muito tempo mulheres, negros, homossexuais, entre outros, sofreram com preconceitos e perseguições — e ainda hoje, sofrem. Isso porque frequentemente nos permitimos fazer suposições mais amplas e generalizações a respeito de alguma coisa que não conhecemos plenamente. Supor é mais fácil e rápido do que pesquisar, se aprofundar e se abrir para novas percepções. Além disso, uma única história é um ciclo que perdura fervorosamente se não for quebrado.

Interpretar e reinterpretar constantemente tudo o que acontece ao nosso redor pode ser uma forma enriquecedora de entender as histórias que nos cercam. Cada pessoa, cada coisa, cada lugar possui sua história, e conhecê-los por vários pontos de vista sempre pode nos proporcionar novas ideias e materiais. Por exemplo, para aqueles que almejam escrever uma história algum dia, como Adichie, essa é uma perspectiva positiva.

A liberdade de criação e de pensamento é, e sempre será, uma ferramenta poderosa. Com liberdade, as pessoas podem descobrir mais sobre outras histórias, desde que elas queiram buscar e conhecer essas outras histórias, desde que elas aceitem sair da zona de conforto de uma realidade egocentrista — ou de uma arrogância piedosa. Com liberdade, até mesmo situações trágicas podem ser usadas a nossa favor, e encaradas com bom humor, pois o humor surge mais facilmente quando se é livre.

Claro que, além da liberdade, é preciso satisfazer necessidades básicas de qualquer ser humano para que ele possa demonstrar interesse de ir além de uma única história. É por essas necessidades básicas que todos nós lutamos, todos os dias, das mais variadas formas; para que possamos nos dedicar a encontrar histórias além daquela única história que está o tempo todo tentando aliciar nossos pensamentos e devorar nossas almas.

“Quando nós rejeitamos uma única história, quando percebemos que nunca há apenas uma história, sobre nenhum lugar, nós reconquistamos um tipo de paraíso.”

Chimamanda Adichie e o Perigo da Única História

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