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O Grande Gatsby

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O Grande Gatsby

O Grande Gatsby é provavelmente o maior romance de Francis Scott Fitzgerald, um trabalho maravilhosamente condenatório sobre os novos ricos norte-americanos da década de 20. O livro é tão importante que é tido como o grande romance da literatura americana, justamente por abordar as ilusões e desilusões do chamado sonho americano. Por sua fama, o romance já ganhou três adaptações para o cinema e uma para a TV, sendo uma delas a versão de 1974, dirigida por Jack Clayton, com roteiro de Francis Ford Coppola, e elenco encabeçado por Robert Redford e Mia Farrow.

A nova versão é muito diferente da supracitada. O Grande Gatsby (The Great Gatsby, EUA, 2013) é mais estiloso, mais movimentado e mais vigoroso. O filme de 74 tinha a força de seus atores, mas era um tanto quanto sem vida. O filme atual também tem a força de atores, e exagera na vitalidade, detalhe que torna a decadente história de Jay Gatsby ainda mais passional, e dolorosa — especialmente para aqueles que já leram o livro e sabem como tudo acontece.

A história acompanha o aspirante a escritor Nick Carraway (Tobey Maguire), enquanto ele deixa o meio-oeste e chega à Nova York na primavera de 1922 — uma época de moralidade duvidosa, riquezas superficiais e muito jazz. Perseguindo seu próprio sonho americano, Nick se estabelece como vizinho do milionário Jay Gatsby (Leonardo DiCaprio), um homem misterioso que nutre uma paixão secreta por Daisy (Carey Mulligan), prima de Nick e esposa do rico e mulherengo Tom Buchanan (Joel Edgerton). Nick envolve-se com Jordan Baker (Elizabeth Debicki), uma esportista amiga de Daisy, e acaba atraído para o mundo cativante dos ricaços, com suas ilusões, seus amores e seus enganos. Nick torna-se testemunha desse mundo por onde transita, e escreve um conto de amores impossíveis e tragédias anunciadas.

O Nick Carraway do filme, assim como no livro, surge como alter-ego do próprio Fitzgerald, cuja história não é realmente bonita. Na vida real, Fitzgerald foi casado com a escritora (e rica) Zelda Sayre, com quem teve uma vida bastante conturbada. Inicialmente, Zelda não teria aceitado se casar porque Fitzgerald não tinha condições financeiras para sustentá-la. Fitzgerald, por sua vez, teria se esforçado para conquistar a segurança financeira necessária para que fosse aceito.

Os dois, no entanto, viviam um casamento permeado por inveja, amargura e ressentimento, motivo pelo qual Fitzgerald usava sua relação como referência para seus romances, enquanto se afundava no alcoolismo. Zelda ainda sofria de transtorno bipolar, e permaneceu os últimos anos de sua vida internada num hospital psiquiátrico.

Havia ainda Ginevra King, uma rica socialite norte-americana e o primeiro amor de Fitzgerald, um amor que não chegou a ser concretizado. King também era apaixonada por ele, mas acabou casando-se com um ricaço de Chicago. King serviu de inspiração para Fitzgerald na criação de Daisy, incluindo o caráter volúvel e egocêntrico da personagem. Ginevra King foi um sonho perseguido pelo autor, mas inatingível, enquanto Zelda foi o combustível para sua ruína, sem a qual Fitzgerald provavelmente não teria escrito suas obras.

Nesse aspecto, Jay Gatsby também surge como alter-ego do autor, um homem disposto a tudo — tudo mesmo — para conquistar o amor de sua vida. Jay representa um Fitzgerald desiludido, que passa a vida sonhando com uma mulher que não pode ter, um garoto simples que luta para crescer e se torna um homem absurdamente rico — um novo rico, que apesar do dinheiro, não tem realmente o status.

Jay vive por uma ilusão, enquanto Nick apenas observa de longe. Um olha de dentro, o outro, de fora. O próprio Nick se coloca nessa posição, de olhar por dentro e por fora, por ele também ser um alter-ego de Fitzgerald, e por ele ser um alter-ego de Jay — Nick é aquele que enxerga além dos sonhos e se mantém com os pés firmes na realidade. Leonardo DiCaprio faz um trabalho apaixonante como Jay Gatsby, e Tobey Maguire é providencialmente passivo como Nick Carraway — é impressionante como a cara de paspalho de Maguire funciona bem para o personagem, especialmente nos momentos mais cômicos, como o primeiro encontro entre Jay e Daisy.

Por falar em Daisy, ela é o furacão que passa pela vida de Jay e Nick, uma legítima melindrosa, que parece o tempo todo imersa num mundo de superficialidade, incapaz de perceber o mal que suas ações podem fazer aos outros. Carey Mulligan é deliciosamente vibrante como Daisy, e acrescenta certa profundidade à personagem — chega a ser desconcertante observar a atriz em cena. Mas, curiosamente, seus melhores momentos são quando Daisy assume sua faceta mais dondoca fútil, quando seus lapsos de consciência abrem alas para seus delírios mimados. É aqui que nos rendemos de vez aos encantos dela, e é quando entendemos por que Jay Gatsby é quem é. Mulligan é uma musa, ou melhor, um misto das musas de Fitzgerald, uma vigorosa representação de Zelda Sayre e Ginevra King.

Os demais atores orbitam o trio principal, com excelência, mas com a devida distância. O único que se envolve realmente no entrelaçamento dos três é o marido infiel interpretado por Joel Edgerton, e por isso mesmo, o que mais se destaca. Isla Fisher e Jason Clarke, como Myrtle e George Wilson, são importantes para o enredo, mas têm poucos momentos, e são facilmente apagados pela força desarvorada do trio principal e do estilo brutamonte de Edgerton.

Por trás de toda essa vitalidade está o diretor Baz Luhrmann, cujos trabalhos eu particularmente adoro — só pra citar dois: Romeu + Julieta e Moulin Rouge. Luhrmann privilegia o estilo sobre a substância num tremendo festival para olhos e ouvidos, quase que promovendo uma extensão conceitual de sua Trilogia da Cortina Vermelha, formada por Vem Dançar Comigo, Romeu + Julieta e Moulin Rouge. Porém, o estilo sobre a substância costuma ser a grande força motriz de Luhrmann, e é nesse furor carnavalesco que a pouca substância ganha cores emocionais. Tudo é muito colorido e extravagante, com figurinos de época, atuações, direção de arte e trilha sonora que exaltam a soberba dos personagens, de tal forma que você acaba inserido naquele clima materialista de festas e fofocas desmedidas, quando amor perdia-se em luxúria e noções distorcidas de realidade nublavam qualquer bom-senso. O maior mérito de Luhrmann, no entanto, está no fato de que nos perdemos facilmente nesse mundo — junto com Nick Carraway, que representa o nosso olhar (como público) e também se torna um alter-ego para o diretor. A percepção vazia de Luhrmann é um complemento admirável a forma irônica com que Fitzgerald enxerga todo esse estilo de vida burlesco e dissimulado. Mais do que isso, Baz Luhrmann impressiona por sua capacidade de despertar melancolia e paixão por esses sonhos desvirtuados.

A abordagem teatral de Luhrmann, na verdade, consegue ser bastante fiel ao livro de Fitzgerald, ainda que seja superdimensionada, pois não sobra muito espaço para interpretação, e o poder visual do cinema acaba pouco valorizado pela necessidade de narrar os fatos o tempo todo. Nick Carraway é um narrador no sentido literal da palavra, é o personagem do livro transposto para a tela como um personagem de livro. Mas até isso parece fruto da veia teatral do diretor.

Claro, em se tratando de Baz Luhrmann, há também a veia musical, com uma trilha sonora que aproveita o clássico jazz dos anos 20 (mais evidente no livro) diluído numa batida hip hop mais aproximada aos tempos atuais. Enquanto Fitzgerald escrevia sobre jazz e falava sobre a música de seu tempo, Luhrmann direciona isso para o hip hop, e consegue extrair alguma sensibilidade desse repertório produzido por Jay-Z. Ainda que não seja tão jazz, o filme é suficientemente contemporâneo, com suas festas homéricas ao som de Beyoncé (cantando Amy Winehouse), will.i.am, Florence and the Machine, Lana Del Rey, entre outros. As músicas inspiram ainda mais o caos da história, e o caos inspira as músicas, ora enérgicas, ora melancólicas.

O Grande Gatsby é uma visão de mundo de décadas atrás que ainda consegue refletir a atualidade. Mesmo entre todas aquelas plumas e paetês, a dura realidade sobressai, ardilosa e pungente, numa história sobre dinheiro e poder, e sobre pessoas que acreditam que os sonhos podem ser comprados — porque, em geral, as pessoas acreditam que sonhos (e felicidade) podem ser comprados. Jay Gatsby é um sonhador corrompido por sonhos distorcidos, e representado por falácias que nunca revelam seu verdadeiro eu. É o que normalmente somos frente ao dinheiro e ao poder, falácias — fala-se demais, faz-se de menos. Somos frutos de nossos próprios anseios, acreditamos neles, lutamos por eles, com todas as armas que dispomos. Gatsby as usa com sinceridade, e é nisso que reside seu valor. O mundo dos sonhos pode ser facilmente devastado pela realidade, mas graças a Gatsby percebemos que mesmo diante de tanta corrupção, estamos sempre lutando por nossos sonhos incorruptíveis.

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