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Giovanni Improtta

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Senhora do Destino é facilmente uma das melhores novelas exibidas na televisão brasileira na última década. Se você acompanhou a saga de Maria do Carmo para encontrar sua filha Lindalva, sequestrada no passado pela (inesquecível) vilã Nazaré Tedesco, você sabe que foi uma novela forte, que trouxe para a cultura brasileira personagens até hoje lembrados, como o ex-bicheiro Giovanni Improtta.

Com seu jeito grosseirão e seu linguajar bizarro, o personagem tinha sido criado por Aguinaldo Silva, autor da novela, no livro O Homem que Comprou o Rio, lançado nos anos 70. Com o sucesso que ganhou por causa da novela, Aguinaldo Silva escreveu seu segundo livro com o personagem, chamado Prendam Giovanni Improtta, que logo foi transformado em roteiro para uma adaptação cinematográfica.

No filme, José Wilker retorna ao papel do contraventor Giovanni Improtta, que agora luta incessantemente na busca por ascensão social. Para isso, ele tenta de qualquer maneira construir uma boa imagem para si mesmo, porém, por seu passado, ele sempre acaba envolvido em alguma situação escabrosa que o impede de tirar o pé da lama. Ele se envolve com a cúpula do bicho, formada por Cantagallo (Hugo Carvana), Dom (Othon Bastos) e Ozires (Milton Gonçalves); tem um caso com a filha novinha de um magnata com problemas renais; precisa enfrentar os problemas com sua atual amante que quer ser sua esposa, Marilene (Andréa Beltrão); e ainda se vê acusado da morte de um promotor que o estava investigando. Logo, para conseguir a ascensão social que tanto deseja, ele precisa primeiro provar sua inocência.

Giovanni Improtta (Brasil, 2013) não é um filme perfeito, passa longe disso, e sofre por ser fruto de sua própria identidade, visto que é uma história inspirada num personagem dos anos 70, que fez sucesso lá pelos idos de 2004 e não tem o mesmo apelo hoje que tinha antigamente. Mas, é um filme que consegue divertir, graças justamente ao homem que fez o personagem tão famoso, José Wilker — que também é responsável pela direção, motivo pelo qual transbordam referências a filmes de Quetin Tarantino e dos Irmãos Coen, em especial Pulp Fiction e Fargo, dos quais Wilker já disse em inúmeras entrevistas ser muito fã. Aliás, a trilha sonora é muito tarantinesca, e o amor do filme por Tarantino é tanto que tem até um personagem chamado, olha só, Tarantino!

De volta a Wilker e seu personagem, o ator consegue fazer um trabalho carismático com seu Giovanni Improtta, usando todos os bordões toscos pelos quais ficou conhecido e criando novos com seu português felomenal. José Wilker é a razão de ser do filme, e é um ator a se respeitar, afinal, o cara já foi desde Roque Santeiro até o recente Coronel “Deite que eu quero lhe usar!” Ele sabe exatamente conduzir seu personagem, especialmente por causa da experiência que adquiriu ao longo de seu período na novela Senhora do Destino.

Outros destaques são os três capangas de Giovanni, carinhosamente chamados de Bonsai (Paulo Mathias Jr.), Pouca Sombra (Sérgio Loroza) e Tarantino (Roney Vilela). Eles são os típicos capangas engraçados de um criminoso non-sense, e a fidelidade deles ao patrão é admirável — preciso também mencionar que conseguiram fazer no Bonsai um penteado igual ao do Kuwabara, e se você já viu Yu Yu Hakusho, você sabe do que estou falando.

O mesmo, no entanto, não pode ser dito dos outros atores, que são apenas medianos em seus papéis e não parecem realmente esforçados em tornar seus personagens mais interessantes ou divertidos. A maior vergonha alheia, infelizmente, fica por conta justamente dos veteranos que compõem a cúpula do bicho. Hugo Carvana, Othon Bastos e Milton Gonçalves, coitados, são extremamente mal-aproveitados e eles próprios acabam sucumbindo às armadilhas caricaturais de seus personagens. Othon Bastos, aliás, é o que parece menos a vontade.

No quesito produção, Giovanni Improtta usa e abusa das cores para refletir em seu cenário o espírito galhofa do personagem principal, que é presidente da fictícia escola de samba Unidos da Vila São Miguel — e se você pensa em carnaval, você pensa em cores. Aproveitando o assunto e parafraseando as palavras de Mickael Noah, diretor de marketing do Camarote Folia Tropical na Sapucaí — “o filme, assim como a novela em 2004, levanta a discussão de como uma escola de samba era administrada anos atrás.” De fato, há um pouco dessa questão sobre o estigma sofrido pelas escolas de samba cariocas, mas isso é tratado de forma sucinta, diluído no humor sacana e no festival de cores da produção. A direção de arte consegue transmitir o clima cafona/decadente/cômico do enredo ao mesmo tempo em que concede mais vida para o personagem e o cenário.

Eu confesso que, como muitos, tenho várias ressalvas com relação às comédias brasileiras que têm pipocado no cinema nos últimos tempos. No geral, elas são ruins, mas atingem o grande público e, por isso, tornam-se bem-sucedidas e conseguem uma ou duas continuações que as fazem perdurar. Não vejo tanto problema nos filmes de comédia em si, mas no fato de que, nos últimos dois anos, o cinema brasileiro parece viver apenas deles. É o que alguns vêm chamando de neo-chanchada, em alusão ao fato de que as chanchadas, entre as décadas de 30 e 50, também eram consideradas toscarias vulgares pelos críticos, assim como as comédias de hoje estão sendo consideradas toscarias vulgares pelos críticos. Mesmo com todas as suas limitações, as chanchadas faziam sucesso, e essas tais de neo-chanchadas também fazem.

Na verdade, acho exagero definir as comédias de hoje como neo-chanchadas, mas entendo que elas têm sua função no cinema. As comédias são tão necessárias quanto dramas, pois ajudam a desligar o cérebro um pouco, ajudam a relaxar, e talvez seja por isso que fazem tanto sucesso por aqui, porque o brasileiro já precisa enfrentar milhões de problemas todos os dias (trânsito, saúde, violência, impostos, inflação, corrupção) e acaba buscando algum escapismo nas comédias que lançam para ele todos os dias. É uma pena que seja assim, mas não é difícil entender porque funcionam.

Em termos de comédia, ainda prefiro um Auto da Compadecida ou um Lisbela e o Prisioneiro, mas Giovanni Improtta me proporcionou algumas horas de diversão despretensiosa, mais do que um De Pernas pro Ar ou um Até que a Sorte nos Separe, e isso tem seu valor.

O mérito de Giovanni Improtta é justamente que o filme abraça essa toscaria vulgar sem moderação. Dentre todas essas pretensas neo-chanchadas, Giovanni Improtta talvez seja o que melhor se encaixa nessa categoria por seu humor ingênuo, mas às vezes malicioso, que toca levemente (o mínimo possível) em questões críticas da sociedade atual, questões que estão presentes no nosso cotidiano, mas com as quais, no geral, aprendemos a lidar, muitas vezes com bom humor. Se nós enfrentamos o Brasil com bom humor, é natural que o cinema acabe fazendo o mesmo. Se isso é bom ou ruim, é outra questão.

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