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Gosick

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Gosick (Japão, 2011) é um anime baseado numa série de livros escritos por Kazuki Sakuraba, animado pelo estúdio Bones de forma caprichada e bonita, como é comum do estúdio. O estilo de arte do anime é realmente impressionante, e chama bastante atenção já na abertura. A personagem principal, inclusive, recebe um destaque todo especial da arte, e mesmo parecendo uma boneca às vezes, é de uma beleza exótica encantadora.

A história tem um estilo meio Sherlock Holmes (de saia), mas são poucas as referências reais ao personagem de Arthur Conan Doyle, e essas referências ora funcionam, ora não.

O ano é 1924, e o enredo se passa num país fictício e pequeno da Europa, chamado Saubure, no colégio Saint Marguerite, que possui um grande acervo de livros graças à sua imensa biblioteca em formato de torre. Porém, no alto dessa torre, existe um jardim onde mora a misteriosa e excêntrica Victorique, uma bela menina de cabelos loiros que foi posta ali por seu pai e que descende de um povo das montanhas conhecidos pelo nome de Lobos Cinzentos — motivo pelo qual ela própria é conhecida como Loba Cinzenta, e temida por isso.

Por causa desse temor, os alunos do colégio não se aproximam da torre, ou de Victorique, mas isso muda com a chegada de Kujo Kazuya, um aluno de intercâmbio que veio do Japão para estudar na Europa. Kujo, assim como Victorique, é visto com desconfiança pelos alunos extremamente supersticiosos do colégio, algo muito comum na região por causa das inúmeras histórias de mistério e fantasmas que fazem parte da cultura do país. Kujo acaba indo parar na torre e conhece Victorique, que vive entediada por estar sempre trancada e gosta que lhe arrumem casos complicados para que ela possa resolver. Ah, ela também gosta de doces, bastante! Kujo, que é corajoso, mas muito submisso, se torna amigo de Victorique, e um verdadeiro pau mandado, já que faz tudo o que ela pede, mesmo a contragosto. Juntos, os dois começam a resolver casos trazidos por Grevil de Blois, o inspetor de polícia (inepto) que também é irmão de Victorique — e possui um topete tão tosco que é engraçado.

Aos poucos, entre um caso e outro, a história vai se revelando, mostrando que existe muito mais por trás dos mistérios de Saubure do que simples folclore.

As influências de Sherlock Holmes — e o que me chamou atenção para o anime, pra falar a verdade — são basicamente os dois personagens, uma detetive extremamente perceptiva com um assistente para quem ela precisa explicar os mistérios, se envolvendo em vários casos de solução engenhosa, desvendados graças às habilidades quase sobrenaturais da personagem principal, que chama as pistas de “fragmentos de caos” e encontra suas respostas no que ela chama de “fonte da sabedoria”, que é uma espécie de sexto sentido quase profético que ela possui — aparentemente por sua descendência dos Lobos Cinzentos.

Inicialmente, Gosick é um espetáculo agradável. O primeiro arco das lebres, especialmente, é bem intrigante, especialmente quando, mais para frente no anime, se mostra um elemento importante para alguns segredos da trama. O desenvolvimento do casal de personagens principais, contudo, é a verdadeira alma da série.

Victorique é meio agressiva, e até violenta, com Kujo, mas a relação deles é tocante e divertida mesmo entre as brigas. Os dois demonstram uma ligação forte como amigos, que evolui bastante ao longo dos casos, e eles se mantêm como um casal adorável até o final. Mais tarde, ainda parece uma personagem nova, Avril Bradley, uma loirinha despojada e de espírito aventureiro que se apaixona por Kujo. Apesar de se mostrar um obstáculo para o casal principal, ela não ganha muito foco, mas se desenvolve de forma divertida e vai até o final como uma personagem jovial e agradável. Avril e a professora sensacionalmente maluquinha Cecile, a partir da metade da série, se tornam as grandes responsáveis pelo alívio cômico em meio a tanta tensão que desaba no enredo.

Os mistérios iniciais são tranquilos e simples, resolvidos sem qualquer dificuldade pelas capacidades dedutivas quase sobrenaturais de Victorique. Até certo ponto, parecem casos tolos, visto que não representam desafios genuínos para os personagens. Victorique e Kujo vão apenas passando de fase em direção a um novo caso. Porém, aos poucos, os casos vão se ligando em um ou outro ponto, estabelecendo relações entre si e com os contos folclóricos normalmente disseminados em Saubure. Isso é uma parte interessante da composição do cenário.

Na metade final do anime, o clima muda completamente. O humor singelo e meio non-sense desaparece quase que totalmente e dá lugar a uma trama mais intrincada, focada no passado de Victorique e carregada de tragédias. São duas formas diferentes de conduzir a trama, que pode provocar alguma estranheza, mas que funciona, visto que a aventura despretensiosa dos casos iniciais adquire mais aspectos dramáticos à medida que os casos vão se tornando mais complexos e pessoais.

No terceiro ato, principalmente, Victorique torna-se mais emotiva e melancólica graças aos abusos que sofreu de seu pai, o Marquês Albert de Blois, e seu maior inimigo na trama. Ainda conhecemos sua mãe, Cordelia Gallo, que foi expulsa da sociedade dos Lobos Cinzentos por um crime que não cometeu. Cordelia acabou sendo violentada pelo marquês, que desejava ter uma filha Loba Cinzenta para usar suas habilidades na tempestade que estava por vir — no anime, eles se referem às Grandes Guerras Mundiais como “tempestades” e a Segunda Tempestade estava por vir. O Marquês de Blois quer subir a posição de primeiro-ministro do Rei Rupert através de mentiras, e essa ambição movimenta um grande mistério da história na segunda metade: o assassinato da Rainha de Saubure, o caso mais interessante da série e com a melhor reviravolta. Cordelia aparece tentando proteger a filha, mas possui objetivos próprios e recebe ajuda do ilusionista Brian Roscoe, que tem motivações meio toscas — e parece uma versão sem graça do filme Grande Truque, de Christopher Nolan.

A série, ao longo de seus episódios finais, ainda que se enrole um pouco em alguns momentos, se revela uma viagem maravilhosa ao longo dos contos de assassinato e mistérios que estão profundamente enraizados dentro da sociedade desse pequeno país fictício, que fica em algum lugar no norte da Itália. Ao combinar aspectos de suspense e contos de fadas, com oscilações entre comédia e tragédia, Gosick consegue resultar numa grande aventura, com subtramas que se entrelaçam habilmente como o todo e personagens realmente cativantes.

Só perde um pouco de força quando acontece a Segunda Tempestade, normalmente apresentada como se fosse a Segunda Guerra Mundial, mas que acontece numa data diferente (de 1925 a 1929, ao invés de 1939 a 1945). Ainda que o cenário seja fictício, o entorno europeu é trabalhado com bastante proximidade à nossa realidade, e incomoda um pouco quando a Segunda Guerra aconteça antes da data histórica original. A própria Síndrome de Maria Antonieta, que faz os cabelos de Victorique assumirem uma cor esbranquiçada, é uma anomalia associada à depressão e ao estresse que teve muitas de suas ocorrências detectadas durante o período da Segunda Guerra Mundial. A impressão é que adiantaram as coisas no enredo para os personagens não envelhecerem demais e também porque precisavam encerrar a história, e não dava para passar muitos anos abordando a questão da Segunda Tempestade. O problema é que boa parte das motivações da trama gira em torno da Segunda Tempestade, e essa perda de verossimilhança, junto com a abordagem superficial da guerra, esvaziam um pouco alguns aspectos do desfecho.

Gosick, contudo, exige um pouco de paciência às vezes, e você precisa se engajar na história para apreciar melhor a série. Não é um anime perfeito, e desperdiça um pouco seu potencial por causa de alguns deslizes do enredo, mas por seus personagens interessantes e por seus mistérios, vale como uma aventura rápida e divertida pelo país fantástico de Saubure.

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