Você Viu?

Homem de Ferro 3

Homem de Ferro 3

Homem de Ferro 3

Homem de Ferro 3

Homem de Ferro 3

Após o triunfo de Os Vingadores, seguir com as histórias de seus heróis não seria uma missão das mais fáceis, mas a Marvel Studios volta para mostrar que ainda sabe manter o foco em apenas um herói, e que ainda são verdadeiros mestres em administrar seus icônicos personagens no cinema, independente da expectativa (certamente) opressora.

Homem de Ferro 3 (Iron Man 3, EUA, 2013) abraça sua missão sem receios, mas ao invés de se tornar um filme de escalas estratosféricas como foi Os Vingadores, finca os pés um pouco na Terra ao abordar aspectos mais intimistas de seu protagonista e da sociedade. O terceiro filme-solo do Vingador Dourado é mais pessoal do que os dois anteriores, cortesia de Shane Black, que assume a direção e também escreveu o roteiro junto com Drew Pearce.

Os Vingadores se beneficiava consideravelmente da epicidade criativa de Joss Whedon, enquanto Homem de Ferro 3 se aproveita da arrogância despojada dos melhores trabalhos de Shane Black, que foi roteirista de filmes como O Último Boy Scout e Máquina Mortífera; de fato, em alguns momentos, temos vislumbres dos elementos que tornavam a série Máquina Mortífera tão sensacional, e o vilão da vez poderia facilmente ser equiparado ao vilão-diplomata de Máquina Mortífera 2, pela prepotência supostamente inviolável e pelo cenário da batalha final.

Aliás, ciente de suas responsabilidades para com o primeiro filme de sua Fase Dois no cinema, a Marvel não tenta reinventar a roda, embora este seja um dos filmes mais fortes do estúdio até agora, que aparentemente avança por um território ligeiramente diferente de antes, quase como se fosse um filme de ação dos anos 80 disfarçado de filme de super-herói, com direito até a um pouco da violência dessa época, do tipo que gostava de machucar o herói e empurrá-lo até seus limites. Isso faz algum sentido, já que a Marvel pretende mover suas histórias para rumos diferentes nessa Fase Dois. Ainda que esse filme seja mais centrado na Terra, sabemos que a intenção futura é levar os heróis ao espaço, com Guardiões da Galáxia e Os Vingadores 2, premissa que deve se inspirar tanto na ação como na ficção científica das décadas passadas.

Homem de Ferro 3 é o primeiro filme de Shane Black na direção desde Beijos e Tiros, o único filme que dirigiu, em 2005, tendo como protagonista o próprio Robert Downey Jr; ou seja, foram cerca de oito anos apenas escrevendo roteiros bem-sucedidos, e depois de sua volta à direção em Homem de Ferro 3 só consigo pensar como seria se Black tivesse investido mais na carreira de diretor da década de 80 até aqui, porque o cara é talentoso pra caramba. Aliás, muito do estilo de Beijos e Tiros se faz presente em Homem de Ferro 3.

O diretor mergulha fundo nos medos e anseios de Tony Stark, algo em que a antiga parceria entre Black e Downey Jr. faz diferença, pois os dois ainda guardam a velha cumplicidade. Robert Downey Jr. parece ainda mais a vontade no sofrimento de Stark do que na arrogância. Ao tirar do herói aquilo que faz dele um herói, seus poderes, Black desenvolve um aspecto da índole de Stark que ainda não havia sido realmente mostrado: seu desespero ante a impotência. Stark sempre foi um homem quebrado por um passado cheio de erros, que sempre esteve em busca de redenção, e projetou a armadura para encontrar essa redenção.

A armadura, naturalmente, garantia-lhe segurança para perseguir seu objetivo, mas sem ela, não só a redenção parece mais distante, como ele se vê enfraquecido para proteger as pessoas que lhe são importantes. Mais do que isso, agora, depois dos eventos de Os Vingadores, ele sabe que existem perigos muito maiores à espreita no universo, e teme por isso. Stark se tornou tão obsessivo com a necessidade de superar sua impotência que ele criou um verdadeiro exército de armaduras a fim de se proteger de qualquer eventual ameaça. O problema é que nem mesmo dezenas de armaduras são suficientes quando ele se depara com seu maior algoz, um antagonista que não veio do espaço, mas que está aqui, na Terra, e se mostra um adversário mais perigoso e palpável do que qualquer mal alienígena.

Como você deve ter notado, Homem de Ferro 3 é o mais denso dos filmes do herói até agora. Em muitos aspectos, possui um pouco das questões de queda e ascensão do herói que vimos em Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge.

O surgimento do Mandarim, interpretado com devoção por Ben Kingsley, reforça em Stark sua incapacidade de lidar com suas experiências recentes envolvendo deuses, alienígenas e outras dimensões. O Mandarim é desenvolvido de forma audaciosa para ser a ameaça definitiva ao Homem de Ferro; é o típico vilão que inegavelmente representa o extremo antagônico do herói. A inteligência inventiva de Stark não parece mais tão eficiente, e simplesmente se enfiar dentro de uma armadura não representa mais qualquer garantia de proteção. Homem de Ferro 3 não é um filme sobre um herói salvando o mundo, é um filme sobre um herói tentando salvar a si mesmo. Mas, sim, ele ainda precisa salvar o mundo, e o amor de sua vida. Claro que isso complica mais as coisas.

Por causa do Mandarim, o filme também se torna o mais politizado de toda a franquia. Se antes a história tocava levemente nas questões entre os Estados Unidos e o Oriente Médio, agora o discurso é mais ativo, não uma simples composição de cenário. O Mandarim é incisivo ao expressar as motivações para seu desprezo contra os Estados Unidos e contra as escolhas políticas norte-americanas em relação ao Oriente Médio; uma adaptação interessante, já que estabelece um vilão mais próximo da realidade geopolítica atual. Além disso, o Mandarim surge em cena para ser um símbolo, assim como o Homem de Ferro é um símbolo para Tony Stark. O vilão simboliza o que de pior os erros de uma pessoa ou uma nação podem criar, e nem sempre isso significa a simples anarquia. As escolhas são consideravelmente polêmicas, e muitos talvez não gostem, mas fazem sentido dentro do contexto narrativo que vem sendo trabalhado desde o primeiro Homem de Ferro, e estão dentro da lógica dos personagens nos quadrinhos.

O enredo é baseado em duas famosas sagas do personagem: A Guerra das Armaduras, escrita por David Michelinie e Bob Layton, e o arco Extremis, escrita por Warren Ellis.

Como eu disse antes, Tony Stark precisa enfrentar um inimigo cujo alcance não conhece limites. Ele encontra seu mundo pessoal destruído nas mãos do Mandarim. Além disso, precisa enfrentar sua própria tecnologia, uma vez que seus inimigos começam a atacá-lo usando versões das armaduras que inventou. Stark, então, embarca numa difícil jornada para encontrar os responsáveis, uma viagem que, a cada instante, testa seu valor e sua força de vontade. No outro lado da história, há a nanotecnologia Extremis, uma espécie de soro desenvolvido por Maya Hansen, interpretada pela adorável-sempre-linda Rebecca Hall, e que está sendo usado pelo inescrupuloso Aldrich Killian, representado de forma respeitável por Guy Pearce.

No lado dos aliados, Gwyneth Paltrow ganha mais liberdade para desenvolver Pepper Potts e sua relação amorosa com Stark; e este é, sem dúvida, seu melhor desempenho desde que assumiu a personagem. Paltrow e Downey Jr. mantêm a química de sempre, e finalmente vemos o relacionamento entre os dois com um pouco mais de profundidade. O melhor é que, dessa vez, Potts é levada para a ação, por apenas alguns momentos, mas que valem a pena só para vê-la saindo da zona “herói salva mocinha” para “mocinha salva herói”. Só pra constar, Gwyneth Paltrow, sua linda!

Don Cheadle também retorna como James Rhodes, que agora se chama Patriota de Ferro, não mais Máquina de Combate. A escolha é bem curiosa, já que, na verdade, o Patriota de Ferro é uma versão supostamente heroica do vilão Norman Osborn, o dono da Oscorp do Homem-Aranha, também conhecido como Duende Verde. Nos quadrinhos, durante a saga Reinado Sombrio, Osborn criou e vestiu essa armadura mista de Homem de Ferro com Capitão América (que estava morto na época da saga) e, com ela, tornou-se líder dos Vingadores Sombrios — uma versão antagônica dos Vingadores. O negócio é que a Sony é a dona dos direitos de tudo relacionado ao Homem-Aranha, incluindo Norman Osborn. A armadura do Patriota de Ferro, naturalmente, está fora desse pacote, e a Marvel resolveu aproveitar isso para customizar o Máquina de Combate nesse filme, e exaltar um pouco mais o caráter patriótico/militarizado de Rhodes. Ao mesmo tempo, a forma como o Patriota de Ferro é mostrado faz uma analogia clara ao caráter vilanesco que a armadura possui nos quadrinhos.

Apesar das variações em termos de armadura, Rhodes não é tão explorado, embora ainda seja o contraponto perfeito de Stark. O personagem continua com a função bastante específica de questionar os atos do herói e direcioná-lo para um caminho que seja mais correto. O resultado é que os dois acabam enfrentando mais situações juntos, e sem suas armaduras. Homem de Ferro 3, nesse aspecto, se revela um filme mais físico, com muitos combates corpo-a-corpo e cenas de ação que envolvem correrias, escaladas, saltos e lutas, abordagem reforçada pela inserção da Extremis na história, já que uma das funções da tecnologia é conceder poderes a uma pessoa comum.

Há ainda o humor já tão característico dos filmes com o Homem de Ferro. As tiradas bem-humoradas são variadas, e tão engraçadas como em Os Vingadores, talvez até mais. Até o Jarvis, o inexpressivo sistema de Inteligência Artificial que auxilia Tony em seus equipamentos, solta uma ou outra piadinha de vez em quando.

O roteiro tem seus problemas, e alguns elementos da trama são introduzidos e depois esquecidos em virtude das constantes viradas nos fatos. Algumas sequências de ação também refletem um pouco da inexperiência de Shane Black em lidar com um filme de larga escala, o que é compreensível já que é o segundo filme que ele dirige. O confronto final, por exemplo, é razoavelmente confuso, e o motivo pelo qual não desanda totalmente é porque Black sabe dosar ação e humor para criar situações divertidas e inventivas. Na verdade, a criatividade é a grande sacada desse filme, pois são muitas as surpresas, as referências aos quadrinhos e as reviravoltas inteligentes dignas de uma produção pensada como puro entretenimento.

O misto de densidade narrativa, ação desenfreada e humor sagaz culminam no ESPETÁCULO visual impressionante que é Homem de Ferro 3. Como você já deve ter visto nos zilhões de trailers e comerciais de divulgação, muitas e muitas cenas são produzidas através de computação gráfica de primeira linha, e temos muitas e muitas armaduras. Pode parecer exagero, no geral, mas as armaduras têm sua razão de existir na história, especialmente a nova armadura principal, chamada de Mark XLII (Mark 42), que é separada em módulos e permite a Tony controlar remotamente outras armaduras (inspirações claras na Extremis). Diferente do que acontece nos filmes anteriores, aqui, a Mark XLII se torna quase um personagem, que compõe uma alegoria emocionante para o próprio Tony Stark. Através das interações entre Stark e a Mark XLII estabelecemos um link com a dualidade do herói, consciente e subconsciente, homem e máquina, partes equivalentes e conflitantes do verdadeiro ciborgue que é Tony Stark, um homem dividido lutando para reunir suas peças. Stark se constrói, se desconstrói e se re-constrói o tempo todo, desde o primeiro Homem de Ferro até esse Homem de Ferro 3, e essa é, sem dúvida, a marca dessa trilogia.

Há de se mencionar o fato de que Robert Downey Jr. encerrou seu contrato com a Marvel nessa produção, e pode não voltar a vestir a armadura do Homem de Ferro nos filmes posteriores a esse. Homem de Ferro 3 soa mesmo como um final, e até torna essa possibilidade um pouco mais suportável, mas nós sabemos que um herói como Tony Stark está longe de encontrar seu descanso. Se por algum acaso Robert Downey Jr. não voltar, vai ser difícil evitar a tristeza, mas ficamos na torcida para que ele volte, e continue sendo Tony Stark por mais alguns anos.

De fato, levando-se em consideração toda a trajetória do personagem até agora, o filme funciona como o episódio final para essa trilogia. Agora, certamente, o herói vai ser direcionado para novos rumos; provavelmente, mais expandidos e mais ousados, em possíveis novas trilogias. A essência, no entanto, continua para sempre. Homem de Ferro 3 é pura emoção e diversão, e um início triunfal para a Fase Dois do universo cinematográfico da Marvel. Na Fase Um, a Marvel criou e expandiu seu universo. Na Fase Dois, está claro que a Marvel quer se divertir nele. Nós também.

PS: Os créditos são uma homenagem bonita com músicas e imagens de toda a trilogia Homem de Ferro. Mas, você sabe que esse é um filme da Marvel, logo, no final dos créditos, existe uma cena adicional. Não é algo que avança a história para outros filmes do universo cinematográfico da Marvel, é só uma cena pra fazer você gostar um pouco mais desse universo, e desses personagens.

Compartilhe este Post

Posts Relacionados



Inscreva-se no Canal

Resenhas Populares

Rogue One: Uma História de Star Wars

Rogue One: Uma História de Star Wars

It: A Coisa

It: A Coisa

Planeta dos Macacos: A Guerra

Planeta dos Macacos: A Guerra

Animais Fantásticos e Onde Habitam

Animais Fantásticos e Onde Habitam

Raw

Raw

Siga no Bloglovin’

Follow

Vem Com a Gente

Curta e Compartilhe

Aperte o Play

Nível Épico em Imagens