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Evil Dead – A Morte do Demônio

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Evil Dead – A Morte do Demônio

Jovens protagonistas numa cabana na floresta, descobrem uma porta de uma adega manchada de sangue, um deles começa a ler o livro dos mortos, e finalmente, dá merda! Mia, a protagonista, aparece horripilante e sombria, acontecem monstruosidades sinistras, e muito gore, incluindo uma das meninas serrando seu braço quando ele começa a ser possuído por alguma coisa, e outra, grotescamente possuída, rasgando a língua com uma navalha. Carnificina total e explícita para esse remake homenagem da série Evil Dead.

Ainda que tenha várias diferenças em relação à obra original, o novo Evil Dead apresenta um reinício em cima das raízes criadas por Sam Raimi anteriormente. A história segue um grupo de amigos que se refugiam numa cabana isolada, descobrem o Livro dos Mortos e acidentalmente libertam uma horda de demônios que começa a persegui-los e possuí-los um por um.

The Evil Dead, o primeiro, praticamente configurou o clichê dos filmes de terror em cabine na floresta ao longo dos anos, um subgênero antigo, mas ainda bastante familiar ao público contemporâneo chegado numa sanguinolência cinematográfica. É um filme que começou violento e pesado, e aos poucos foi ganhando ares mais de galhofa em suas continuações: Evil Dead II e Army of Darkness. A galhofa, até certo ponto, também se tornou parte do subgênero, tanto que recentemente produziu uma pérola que, pra mim, figura facilmente entre um dos melhores filmes de terror-galhofa que já vi: O Segredo da Cabana.

The Evil Dead, mesmo assim, continua firme em seu posto de obra-prima do terror, mas seu remake vem para trazer de volta um pouco de seriedade ao cenário da cabana na floresta, para o bem ou para o mal.
Evil Dead – A Morte do Demônio (Evil Dead, EUA, 2013) possui participação ativa dos criadores da série, os amigos Sam Raimi e Bruce Campbell, e segue os parâmetros da cartilha do gênero: um bando de jovens numa cabana remota em meio a um festival monumental de sangue e violência. Curiosamente, o filme não tenta ativamente atualizar a premissa, como é bastante comum em remakes. Os carros são mais modernos, mas você vai ver o clássico carro do Ash em cena, compondo cenário; e o máximo de tecnologia fica por conta de celulares, ninguém saca um notebook do nada para pesquisar sobre o Necronomicon na internet.

O roteiro foi escrito pelos uruguaios Fede Alvarez e Rodo Sayagues, revisado para se adaptar melhor ao inglês por Diablo Cody, já que inglês não era o idioma nativo dos escritores. Alvarez assumiu a direção do filme por causa de seu curta-metragem Ataque de Pánico!, que foi lançado no YouTube, e se tornou tremendamente popular em pouco tempo.

Nesse remake, Mia (Jane Levy) é uma viciada em drogas que viaja para uma cabana antiga de sua família para tentar se livrar do vício, acompanhada por seu irmão David (Shiloh Fernandez), sua enfermeira Olivia (Jessica Lucas), e seus amigos de infância Eric (Lou Taylor Pucci) e Natalie (Elizabeth Blackmore). Sem as drogas e sofrendo com a crise de abstinência, Mia torna-se imprevisível e incontrolável, é quando eles encontram o Necronomicon, o Livro dos Mortos, também conhecido como Naturon Demonto. Intrigado, sempre tem um esperto pra ficar intrigado, Eric lê o livro e desperta forças malignas na cabana. Mia é a única que sente alguma coisa estranha no lugar, mas por sua condição, acaba sendo ignorada. Em meio à situação de terror, seus amigos não conseguem distinguir se ela está possuída por alguma coisa ou não.

Nessa parte, relativa à profundidade acrescentada à história, reside, talvez, a maior virtude e o maior pecado do remake. E vou falar sobre isso agora, porque quero deixar o melhor para o final. O roteiro aprofunda razoavelmente as relações entre os personagens e desenvolve habilmente essa premissa de dúvida entre garota drogada e garota possuída — se você parar pra pensar, numa crise de abstinência, não há mesmo muita diferença entre uma coisa e outra. Essa é uma atualização interessante, que cria um arco convincente para o enredo e até para as motivações dos personagens estarem ali e permanecerem ali. Além disso, ainda que o roteiro seja simplório e raso, explora bem um conceito mais sutil que sempre esteve presente na franquia. Evil Dead era, em menor grau, sobre enfrentar seus demônios internos. Lutar contra a dependência de drogas é enfrentar seus demônios internos. Lutar contra a dependência de drogas e contra forças malignas que querem possuir sua alma é enfrentar seus demônios. Ponto.

O problema aparece quando o filme tenta se levar a sério demais, coisa que a franquia original não costumava fazer. Eu sei que Evil Dead – A Morte do Demônio foi feito para ser mais sério, entendo isso e aprovo essa ideia, mas não precisava colocar musiquinha de piano/violino nas cenas mais dramáticas, precisava?! Do meio do filme em diante, o dramalhão fica um pouco exagerado, e até desnecessário para um filme de terror hardcore como esse, especialmente considerando as atuações forçadas e os diálogos piegas para essas cenas. E definitivamente, a trilha sonora não ajuda nessa hora. Nos momentos mais tristes, quando deveria haver apenas silêncio e sons ambientes, entra uma maldita musiquinha de piano, que acaba com todo o clima de horror do cenário, e também tira um pouco da credibilidade dos personagens em meio àquela situação.

Por sorte, esses são momentos rápidos e passageiros, porque, no geral, Evil Dead – A Morte do Demônio foca no que REALMENTE interessa. MATAR. DEMÔNIOS.

Como filme de estreia de Fede Alvarez, devo dizer que foi uma surpresa Sam Raimi ter depositado sua criança nas mãos de um novato, mas Alvarez faz jus a essa credibilidade. Ainda que disponha de mais recursos do que Raimi tinha quando fez o primeiro filme, Alvarez dirige com o mesmo vigor sádico/maníaco de Raimi, com câmeras rasantes através da floresta, enquadramentos milimetricamente planejados, ângulos holandeses, closes intensos, erros de continuidade que parecem propositais, e sequências SENSACIONAIS de violência extrema. É na violência que o filme se encontra, e para de se levar tão a sério.

O elemento terror é exagerado como sempre, com sangue cuspido em jatos ensandecidos, membros decepados, eletrodomésticos sendo usados como armas, e toda sorte de imagens repugnantes e gratuitas despejadas e repetidas à exaustão, desde uma agulha encravada no olho até uma língua sendo rasgada por um estilete. A sangria é tão intensa, tão sádica, que merece até aplausos só pela pura maldade. Afinal, é um filme sobre o mal, pura e simplesmente.

Não é todo o dia, especialmente hoje em dia, que temos a chance de ver um terror feito simplesmente pelo terror, e isso é muito bom. Logo, não espere por sustos, eles não virão. Isso não é suspense, e suspense é que causa tensão e sustos, como Atividade Paranormal, por exemplo. Isso é gore, e gore é feito pra causar repulsa e desconforto. É o que você provavelmente vai sentir vendo Evil Dead – A Morte do Demônio, repulsa e desconforto.

Mas, é quando o terror fica gritante que as características da franquia original aparecem com mais força. Embora seja menos incisivamente engraçado do que, por exemplo, Evil Dead II ou O Segredo da Cabana, o filme possui um pouco daquele humor sacana e maquiavélico do Sam Raimi. A fórmula gore + comédia ainda funciona como antigamente, como foi com Arraste-me Para o Inferno, tanto que é impossível não rir quando os personagens começam a gritar coisas como “o que aconteceu com seus olhos?” pra uma pessoa visivelmente transformada num monstro possuído, isso sem falar na síndrome de Ash do sujeito que é escrotizado com porradas, pregos, tiros, agulhas etc., e não morre por nada! Nessas horas, é mais pra divertir do que pra horrorizar, e de fato, é divertido pra caramba!

Aliás, por falar em Arraste-me Para o Inferno, este último filme de terror feito pelo Sam Raimi também tem suas influências em Evil Dead – A Morte do Demônio, como o demônio que aparece ilustrado no Necronomicon quando os jovens encontram e abrem o livro. O demônio é visivelmente o Lamia, aquele mesmo cabeça-de-bode que azucrina a vida da protagonista de Arraste-me Para o Inferno. Sempre tive a impressão de que o cenário de Arraste-me Para o Inferno se situa no mesmo universo ficcional de Evil Dead, e depois desse filme acredito ainda mais nisso. Se um dia, por ventura, colocarem todos esses universos, The Evil Dead, Arraste-me Para o Inferno e Evil Dead – A Morte do Demônio, juntos, num filme só, vou chorar lágrimas de sangue!

De volta ao Evil Dead – A Morte do Demônio, os atores fazem seu trabalho direitinho não fazendo seu trabalho (rs). Assim como nos filmes antigos, não há qualquer esforço por uma interpretação convincente. Os personagens são caricatos, e as atuações, superficiais. Isso faz parte do conceito. Shiloh Fernandez, contudo, talvez seja o mais deslocado e com menos força de presença em tela, ainda que tenha uma função bastante específica com seu personagem — servir de trampolim para sua irmã evoluir na história. Em contrapartida, Lou Taylor Pucci se mostra um dos mais adequados às propostas do filme com seu Eric, e remete ao típico personagem curioso dos anos 80, com seus óculos-cara-de-nerd e seu gosto incontrolável por desvendar mistérios ocultos e verdades sobrenaturais. Ele trabalha bem a índole duvidosa alguém que libertou um demônio e precisa sobreviver a isso — e vale destacar que ele sobrevive como poucos. Jane Levy, conhecida pela série Suburgatory, deposita toda a sua energia em sua personagem ensandecida e constantemente coberta por maquiagem, sangue e lama. Mia assume seu papel como versão feminina de Ash num frenesi louvável. Assim como acontecia com Ash, você quer ver para onde Mia vai a seguir.

A trilha sonora de Roque Baños, tirando as cenas de pianinho, é providencial, repleta de ruídos macabros que se aproveitam de sons que lembram moscas zumbindo, metal rangendo ou unhas arrastando em quadro negro, outra herança de Arraste-me Para o Inferno, talvez. Numa cena no melhor estilo Hitchcock, uma possuída se retalha num banheiro, segurando um caco de espelho que parece uma faca, sai detrás da cortina onde fica a banheira, e se arrasta atrás de sua vítima ao som de uma composição visivelmente inspirada na clássica música-tema de Psicose.

Mais do que tudo, porém, Evil Dead – A Morte do Demônio é uma grande homenagem a toda a iconografia da série Evil Dead, não só pelos elementos da série que aparecem pelo filme, mas pela forma como eles são usados, desde a mulher possuída forçando passagem pela escotilha acorrentada no soalho até o livro proibido com capa de pele humana e páginas cheias de rabiscos profanos, passando por mãos possuídas e braços arrancados na serra. Como todo filme, Evil Dead – A Morte do Demônio é dividido em três atos, e o deleite para os fãs é ver que cada ato contempla um pedaço da trilogia original de Sam Raimi; o primeiro ato começa com elementos The Evil Dead, o segundo aproveita Evil Dead II, e o terceiro (e melhor de todos) é um festival solenemente desagradável de horror macabro inspirado em Army of Darkness.

Evil Dead – A Morte do Demônio não é um simples remake de um filme; é um remake para uma série inteira. Não é igual às versões originais, mas funciona maravilhosamente bem como novos trilhos a serem seguidos pela clássica franquia. Na verdade, o filme parece exatamente isso, um trem fantasma desgovernado, mas emocionante, devidamente compromissado com a essência de uma série que delimitou muitos aspectos do terror no cinema.

PS: Não saia antes, fique até o final dos créditos, e divirta-se um pouco mais com o que vai ver. Além da participação de uma voz conhecida da série original, ainda temos uma cena divertida de despedida, especialmente pensada para os fãs de Evil Dead.

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