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Oblivion

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Oblivion (EUA, 2013), assim como Tron: O Legado, outro filme do diretor Joseph Kosinski, pode parecer, numa primeira olhada, mais uma ficção científica de ação, com um personagem heroico correndo para um lado e para o outro, voando em naves futuristas, singrando desertos em motos excêntricas etc. etc. Mas, não. Oblivion é muito mais do que isso; longe de ser uma ficção científica genérica que almeja sucesso a todo custo, é um suspense inteligente, cheio de mistérios e que sabe como poucos contar sua história.

A história se passa num futuro no qual a Terra evoluiu absurdamente. Jack Harper (Tom Cruise) é um dos últimos homens capazes de operar os poucos drones (naves robôs de reconhecimento) estacionados na Terra, parte de uma grande operação para extrair recursos vitais depois de décadas de guerra com uma terrível ameaça conhecida como Scavs. Os recursos são direcionados para uma espécie de arca espacial com forma de pirâmide invertida chamada Tet, que funciona como um meio de comunicação e transporte entre a Terra e a colônia especial em Titã (um dos satélites de Saturno, e o maior deles), onde os humanos se refugiaram após a guerra.

Da órbita terrestre, a Tet coordena os drones e as ações de Jack — em alguns aspectos, até pela forma piramidal, lembra um pouco a pirâmide dos deuses egípcios que flutua sobre a cidade de Nova York no filme francês Immortel (ad vitam). Ah, detalhe, além de uma pirâmide flutuante, a Lua foi destruída, e permanece no céu como um rastro de destroços (de beleza impressionante) que torna a paisagem terrestre ainda mais desoladora. Aliás, boa parte do filme é permeada por essa atmosfera paradoxal de beleza primitiva, tecnologia avançada e desolação melancólica.

A missão de Jack, no entanto, está quase completa e, em breve, ele poderá se mudar para a colônia em Titã. Sua companheira, Victoria (Andrea Riseborough, estonteante!), não vê a hora de encerrar seu trabalho e ir para a colônia, onde ela acredita que terá uma vida melhor e mais livre. Jack vive patrulhando os céus, a milhares de metros de altura, mas um dia é surpreendido ao resgatar a bela e estranha Julia (Olga Kurylenko) de uma nave espacial abatida. A descoberta da mulher desencadeia uma onda de acontecimentos que obriga Jack a questionar tudo o que sabe e coloca o destino da humanidade em suas mãos.

Joseph Kosinski, o diretor, como eu disse antes, é conhecido por sua estreia com Tron: O Legado, cujo visual deixou muita gente boquiaberto, ainda que o enredo e as caracterizações dos personagens tenham se mostrado simplórios. Aqui, Kosinski mantém o visual impecável, e evolui, criando uma história e personagens carregados de humanidade e sentimento de urgência apocalíptica. Isso talvez seja pelo fato do diretor ter mais domínio sobre sua criação nesse filme, pois Oblivion, na verdade, é baseado numa história em quadrinhos criada pelo próprio Kosinski, mas que nunca foi realmente concluída, especialmente por ele ter sido chamado para dirigir Tron: O Legado. Na verdade, é uma sensação maravilhosa ver um filme tão bom que não é uma sequência ou um remake — e roteiros originais estão se mostrando providenciais na ficção científica.

O diretor conduz sua criação da forma como ele gostaria de ter feito em sua HQ, e faz o seu melhor! A trama vai se desdobrando de forma cadenciada e enigmática, apesar da forte sensação de pesar do cenário, aos poucos apresentando o personagem Jack Harper, cujos anseios, nostalgias e peculiaridades transformam-no em um herói diferente do típico herói estoico que Tom Cruise costuma interpretar. Noutro lado, Victoria é apresentada como a mulher dos sonhos de Jack (dos nossos sonhos também!) até que, aos poucos, uma série de eventos e complicações inesperados vai transformando tudo em pesadelo, num estilo bastante hitchcockiano, vide Um Corpo que Cai.

Aliás, o desempenho inspirado de Tom Cruise, apoiado pela frieza delicada de Andrea Riseborough, é o que fundamenta grande parte da narrativa — e os dois possuem uma química invejável. O elenco de apoio vai surgindo à medida que a trama avança, e seus personagens se mostram igualmente importantes para o contexto principal. O roteiro consistente ajuda bastante, claro. Os efeitos visuais fascinantes, também.

Kosinski constrói e desenvolve muito habilmente sua história, traçando uma linha sinuosa e repleta de reviravoltas surpreendentes. Quando você pensa que sabe o que vai acontecer, o foco muda completamente e novas possibilidades se abrem no enredo. Os personagens vão sendo aprofundados lentamente ao longo desse caminho e a ação fica restrita a momentos esporádicos. Porém, por causa desse tratamento narrativo, a ação, quando acontece, torna-se mais contundente — especialmente no que diz respeito às sequências de perseguição na Bubbleship (a Nave Bolha).

Além disso, Kosinski usa e abusa de várias referências e inspirações de filmes clássicos do gênero, como 2001 – Uma Odisseia no Espaço e Solaris (pela alusão do Tet a um misto de monólito preto com o planeta telepático); Corrida Silenciosa, Blade Runner e Matrix (pelo que representa o personagem de Jack em si). O toque especial é que Oblivion não está situado na escuridão do espaço. A paisagem é de um futuro pós-apocalíptico devastado, mas, até certo ponto, radiante, de céu azul límpido e nuvens coloridas pela luz do sol. Impossível não ficar maravilhado com a beleza quase artística de ver Jack, solitário, atravessar vastidões desérticas em sua motocicleta, quase uma visão de Lawrence da Arábia no futuro.

Soma-se a isso uma trilha sonora emocionante de Anthony Gonzalez e Joseph Trapanese, que parecem um misto entre o eletrônico pesado do Daft Punk para Tron: O Legado e a batida instrumental impactante de Hans Zimmer para Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge.

Oblivion surge como uma ficção científica impactante, meticulosamente coordenada por pessoas que sabem exatamente o que estão fazendo e aonde querem chegar.

Acima de tudo, exalta um sentimento pleno de nostalgia, a importância de não se esquecer do passado e de todas as experiências pregressas que podem levar um homem ao conhecimento e ao futuro. Oblivion, que pode ser traduzido como “esquecimento”, luta desesperadamente para manter viva a chama do passado na construção de um presente e um futuro melhor.

Como um bom cyberpunk, o futurismo se mostra como representação do presente, como uma crítica ao nosso presente, cada vez mais tomado por urgência imediata que faz como que nos esqueçamos dos tempos anteriores que nos trouxeram até aqui. Não significa se apegar ao passado, mas respeitá-lo como parte da construção do presente. Eu, por exemplo, sinto falta dos anos 90, mas não me apego desesperadamente àquela época, apenas a uso como referência para viver o hoje. Num mundo tão ordenado e restritivo (quase que sob a sombra de um Tet que não vemos), é bom se lembrar de uma época em que as coisas eram um pouco mais equilibradas e espontâneas. Os anos 90 tinham uma dose saudável de caos. Oblivion lembra que o caos eufórico de uma partida de baseball (ou qualquer coisa parecida) ainda é melhor do que a solidão amarelada e uniforme de um deserto.

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