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O Voo

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O Voo (Flight, EUA, 2012) é um filme fervoroso em destacar os efeitos desastrosos que o abuso de substâncias pode ter na vida de uma pessoa, mesmo que essa pessoa seja um herói que salvou muitas vidas. Denzel Washington apropriadamente retrata um homem que atingiu o fundo do poço e estava preparado para ficar lá, até que as coisas tomam um rumo inesperado e ainda pior. É quando vemos a capacidade que um homem tem para se afundar ainda mais em seus próprios medos e em sua incapacidade de viver a vida sem artifícios. O Voo mostra como essa decadência pode ser difícil, dramática e sem limites, e o faz de forma emocionante, com a direção magistral e momentos de ação desesperadores de tão bons.

Depois de anos dirigindo filmes de animação, o diretor Robert Zemeckis volta ao cinema live-action para contar o drama de Whip Whitaker (Denzel Washington), um homem que tomou algumas decisões erradas na vida. Ele é alcoólatra, do tipo que não admite seu problema e ainda o amplifica com drogas. Mas, em seu processo de auto-destruição, ele ainda põe a vida de outros em risco porque ele é um piloto de aviões, e não tem pudor em voar sob influência do álcool e das drogas. Ele ainda tem um caso com uma comissária de bordo chamada Katerina Marquez (Nadine Velazquez), que trabalha nos voos de Whitaker, mas não parece notar o perigo que ele representa.

Por ter se arriscado a voar dessa forma várias vezes, Whitaker adquiriu uma falsa sensação de segurança em sua capacidade de operar um avião sob efeitos de álcool e drogas. Uma sensação permeada também pela típica arrogância de um homem que tem consciência sobre suas habilidades extraordinárias, apesar de não ter consciência sobre outras coisas.

Logo no começo do filme, somos colocados num dos voos de Whitaker, o mais fatífico. Cerca de meia hora depois de decolar com alguma turbulência, e nenhum bom-senso, o avião é estabilizado e o piloto assume que tudo está bem a ponto de tomar umas doses de vodka e tirar um cochilo. Porém, algo dá errado, os motores entram em combustão e o avião começa a cair. Whitaker acorda num solavanco e faz o impossível para impedir o pior — ele faz um verdadeiro milagre e consegue aterrissar o avião, salvando a vida de 96 pessoas, mas perdendo outras 6 no processo.

Isso tudo acontece na primeira meia-hora de filme, numa sequência de cenas das mais tensas. A queda do avião é retratada com perfeição agonizante, vista em sua maior parte por dentro da cabine do piloto e do avião, recurso inteligente que nos insere na cena e nos faz ter medo real dela. A sequência é conduzida com tamanha eficiência, que durante a queda, temos a impressão de que estamos dentro do avião, caindo junto com ele, desesperados para que tudo dê certo no final. E tudo acontece tão rápido que é difícil até respirar. Pessoas que têm medo de aviões vão provavelmente sentir calafrios vendo essa cena. Se eu que gosto de aviões senti, imagina quem não gosta.

A grande questão da cena surge em torno de Whitaker, que consegue manter a calma em meio ao caos para fazer o que é preciso em nome da segurança de todos a bordo. E ele faz sem pestanejar. Seria de esperar que Whitaker fosse aclamado como herói por seus esforços, mas há um pequeno problema. Enquanto estava inconsciente, ele passou por um teste toxicológico que revelou sua embriaguez e o uso de drogas durante a operação do voo. Logo, independente de seu ato heroico, muitos começam a questionar se o acidente não aconteceu por falhas causadas por ele próprio.

Whitaker recebe o reconhecimento por seu feito, mas precisa enfrentar uma dura investigação da NTSB (National Transportation Safety Board) sobre suas condições durante o voo, e o veredicto pode colocá-lo na cadeia para o resto de sua vida. Para lidar com essa situação, ele conta apenas com a ajuda de Charlie Anderson (Bruce Greenwood), seu amigo e representante; do advogado Hugh Lang (Don Cheadle), que respeita o piloto e quer ajudá-lo, mas não confia nele; e Harling Mays (John Goodman, sensacional como sempre), seu amigo drogado meio porra-loca, que tenta ajudá-lo da maneira que pode, ainda que não seja convencional.

O filme discursa fortemente sobre esse aspecto, sob duas vias, uma mais evidente do que a outra. Por um lado, mostra que somos responsáveis pelas consequências de todos os nossos atos, não importa se somos heróis ou vilões. Nem mesmo alguém que foi capaz de fazer um milagre para salvar dezenas de vidas está livre de seus pecados. Porém, por outro lado, os pecados são inerentes à natureza humana e têm sua parcela de importância até mesmo nos atos mais heroicos, pois o filme não tem pudor em deixar no ar outra questão — será que Whitaker teria conseguido fazer o que fez se estivesse sóbrio?!

Ele estava errado por estar pilotando um avião embriagado, não há dúvidas, mas, foi o seu raciocínio rápido e compostura em uma situação difícil que salvaram um número significativo de vidas. E talvez por causa dessa embriaguez, ele tenha conseguido se livrar das inibições que poderiam impedi-lo de tomar a atitude que tomou, que matou 6 pessoas, mas evitou a morte de outras 96. É o tipo de coisa que não é fácil justificar, e que precisa ser vista com cautela e certo nível de imparcialidade, porque, afinal, a vida não é só preto e branco. Mesmo os maiores heróis carregam consigo manchas de vilania. Esse é o grande mote do filme, e o motivo pelo qual ele se mostra excepcional.

O Voo lida maravilhosamente com essa ambiguidade, mostrando com complexidade o caminho confuso de um homem forte, capaz de manter a calma para controlar um avião em perigo, mas incapaz controlar sua própria vida. Whitaker passa o filme inteiro tentando aterrissar sua vida em segurança, como fez com o avião, mas não consegue. É perturbador assistir à decadência constante do personagem, chega a dar raiva. Quando as coisas parecem estar dando certo, ele faz alguma merda e tudo desanda — é o retrato clássico de alguém com problemas de alcoolismo, inclusive a total incapacidade de admitir isso para si mesmo. Mesmo quando ele conhece Nicole (Kelly Reilly), que ele conhece no hospital e com quem compartilha problemas parecidos, Whitaker deixa a coisa desandar.

O filme transcorre na busca de Whitaker por redenção, sem que ele saiba que está procurando desesperadamente por isso — o desejo fica claro pela forma como ele sempre fala do filho. Whitaker é um herói, que sabe que é um herói, mas que se mostra como vilão, e que não é o herói para as pessoas que ele gostaria que o vissem como tal. Justamente por ter afastado todas as pessoas importantes de sua vida, ele não consegue se aceitar, e por isso mesmo acaba por não ser aceito.

Por causa desse aspecto, o filme também conta com algumas conotações espirituais. Muitos atribuem o pouso miraculoso de Whitaker à intervenção divina, e Deus é muitas vezes invocado em conversas sobre destino e pecado. E aqueles que usam Deus para explicar as dificuldades da vida o fazem de forma bastante positiva.

Mas Whitaker, como eu disse, é como um anjo caído tentando recuperar suas asas — e essa é outra metáfora inserida no conceito do filme. Ele perdeu a fé, nos outros, em Deus e em si mesmo, e é incapaz de aceitar qualquer explicação divina para seu ato. Porém, mesmo ante toda essa incredulidade, ele permanece o tempo todo às voltas com sua própria fé e espiritualidade. Ele zomba da fé dos outros, mas há momentos em que ele não parece ter totalmente rejeitado sua fé. O enredo se fortalece enquanto se move através da transformação do personagem.

O filme, no entanto, não parece realmente apto para o público jovem, dado muito do seu conteúdo. A história concentra-se em um homem que abusa de álcool e drogas, tudo de forma bastante explícita. Até certo ponto, parece uma mistura entre Marcas de Um Passado (de 1988 com Michael Keaton) e Herói por Acidente (de 1992 com Dustin Hoffman). Não há pudores em mostrar o quão grotesca pode se tornar a vida de uma pessoa que se deixa ser consumida pelo álcool e pelas drogas. Não há beleza, ou glamour, e o filme é incisivo em mostrar isso. E até nisso, é ambíguo. Por um lado, é pesado para as mentes mais jovens; mas por outro lado, serve como um alerta ferrenho para que essas mesmas mentes jovens possam aprender sobre aspectos mais duros e cruéis da vida. Digo isso porque, aqui no Brasil, o filme pegou censura 14 anos.

Denzel Washington apresenta o desempenho convincente pelo qual é conhecido, e conquista o público apesar de seu egoísmo. A angústia que ele nos causa cada vez que enfia o pé um pouco mais na lama é uma prova da capacidade do ator em retratar a ampla gama de emoções da concepção de Whip Whitaker.

Robert Zemeckis, cujo último filme live-action foi Náufrago, continua demonstrando a habitual segurança na direção, mantendo a tensão e o ritmo da narrativa sem perder o toque comovente que a história exige. Na verdade, ele parece até mais seguro com live-action do que com as animações que ele fez anteriormente — O Expresso Polar, A Lenda de Beowulf e Os Fantasmas de Scrooge. A cena do acidente com o avião é tão impressionante, concisa e dramática que fica até difícil pensar nele como o diretor de filmes bem-humorados como De Volta Para o Futuro ou Uma Cilada Para Roger Rabbit. No entanto, há uma cena rápida envolvendo um paciente de câncer na qual o nível de humor negro inteligente é tamanho que imediatamente nos faz pensar nele como o cara responsável por A Morte Lhe Cai Bem. Zemeckis tem todo o meu respeito, e não é de hoje.

Emocionante até o fim, O Voo tem um desfecho relativamente previsível, que deve ser esperado ao longo de toda a história e que fundamenta definitivamente a mensagem. Você pode salvar um monte de vidas, mas você dificilmente será um herói se não for capaz de salvar a sua própria. E mesmo um herói precisa se responsabilizar pelos seus atos.



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