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Morte Súbita

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Morte Súbita

Uma questão muito em voga nos últimos tempos é a discussão entre Alta Literatura versus Literatura de Entretenimento. Para muitos, a mistura é impossível, assim como água e óleo. Para outros, escrever bem não significa ser chato, sendo a divisão fruto mais de um preconceito de ambas as partes. Há até certa rivalidade entre a chamada Academia e os escritores “populares”, como se o parâmetro de qualidade literária fosse, para o bem ou para o mal, o número de vendas do autor. Mas o que acontece se a escritora popular mais bem sucedida do século XXI resolvesse surpreender e escrever um livro nos moldes da Alta Literatura?

A resposta é Morte Súbita (The Casual Vacancy, Reino Unido, 2012), o primeiro romance da escritora J. K. Rowling após a série Harry Potter. O livro, publicado aqui no Brasil pela editora Nova Fronteira, gira em torno da eleição para o Conselho Distrital de Pagford após a morte de um de seus membros mais ativos, chamado Barry Fairbrother. Ele defende que a vila de Fields, habitada por pessoas de baixa renda, deve permanecer no distrito, enquanto para seu principal adversário político, Howard Mollison, a mesma deve ser vinculada ao município vizinho de Yarvil.

A eleição na verdade é apenas um mote para mover a trama. Sem um protagonista fixo, a autora busca fazer um estudo psicológico dos personagens, focando os capítulos ora em um, ora em outro (não é igual, mas lembra um pouco o que faz George R. R. Martin nas Crônicas de Gelo e Fogo). Somos apresentados então a pessoas de todas as idades e classes sociais, e a forma como interagem entre si, seus sentimentos e suas atitudes em relação aos outros, assim como naquilo em que acreditam. Num momento, vemos uma jovem sonhadora, e no seguinte, uma mulher de meia-idade frustrada; depois, um adolescente que apanha do pai, seguido de uma miríade de possibilidades de personagens.

As discussões políticas surgem, mas o foco é sempre no psicológico. A autora apresenta, nas entrelinhas, críticas à situação social do Reino Unido após a crise de 2008, defendendo que o corte de gastos sociais pelo governo gera uma série de consequências perniciosas para a população em geral, e que isso deve ser ao menos colocado na balança, tirando o foco apenas da questão orçamentária e tecnocrática. Contudo, isso é feito de forma bem sutil. A preocupação principal no livro é como esses eventos afetam as pessoas no seu dia a dia, e como elas lidam com seus próprios problemas e anseios perante o futuro.

Não há aqui grandes acontecimentos. A trama é extremamente lenta. As primeiras 50 páginas nos apresentam aos personagens e como estes reagem a morte de Barry Fairbrother. Depois a história começa a andar, mas bem devagar, até engrenar mais ou menos na metade, acelerar e terminar de forma meio abrupta. O grande problema do livro é justamente esse ritmo meio truncado, que talvez torne difícil para uma parcela dos leitores chegar ao final.

Quem espera algo emocionante como os livros infanto-juvenis de Rowling, vai se decepcionar. Já quem conseguir passar pela lentidão e se envolver, vai receber um bom estudo de personagens, todos muito realistas e críveis. Não há também mocinhos ou bandidos, todos são seres humanos com qualidades e defeitos. A autora não julga seus personagens, é honesta com eles e os faz evoluir. Chegando ao final, eles são pessoas diferentes, e isso acaba por se sobrepor a eventuais falhas de estrutura do livro.

Podemos então afirmar que a autora saiu-se bem em escrever um livro adulto, que se enquadra nos requisitos da Alta Literatura. Embora não seja brilhante, a obra é eficaz nesse sentido. Contudo, os fãs tradicionais da autora podem torcer o nariz, justamente por não ser mais do mesmo. Do outro lado, a academia é rancorosa e não sei se aceitaria tão fácil uma autora tão popular agora querendo se passar “por um deles”. Portanto, é corajosa a decisão de Rowling, que saiu de sua zona de conforto e botou a cara à tapa mais uma vez. Se isso significa uma virada na carreira da escritora, o tempo irá dizer. Talento para isso ela tem. Quem sabe ela consegue ser bem sucedida e consegue demonstrar que essa divisão é uma bobagem. Parafraseando Oscar Wilde, não existem livros populares ou sofisticados. Os livros são bem ou mal escritos.

P.S.: A BBC anunciou uma série televisiva baseada em Morte Súbita, com colaboração da própria autora na adaptação. Vamos aguardar as novidades!

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