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Cloud Atlas

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Antes de começar, não vou chamar o filme de “A Viagem”, o nome dado aqui no Brasil. A Viagem?! Sério?! Só porque o filme é sobre re-encarnação, carma e vidas passadas, deram esse nome?! Já usaram essa ideia numa novela, e porra, toda a vez que escuto o nome do filme, só consigo pensar naquela musiquinha do Roupa Nova.

Cloud Atlas merece mais do que isso, e esse nome consegue ser ainda pior do que “A Origem” para Inception, especialmente por ter NADA a ver com o conceito do filme, ou do livro no qual o filme foi inspirado. Parabéns mais uma vez aos escolhedores de nomes em português de filmes, vocês cada vez mais se superam na criatividade. Só que não.

Cloud Atlas (EUA, 2012) soa em tela como seis peças separadas, poeticamente conectadas e habilmente orquestradas como uma bela sinfonia que atravessa espaço e tempo. Cloud Atlas, inclusive, é o nome de uma composição musical criada por um dos personagens na história e que representa a conexão efêmera entre presente, passado e futuro, tão efêmera quanto uma nuvem, cujas sutis ligações caracterizam algo como um mapa onde tudo está conectado — pronto, Mapa das Nuvens seria um ótimo nome em português pro filme!

Na trama, inspirada no livro homônimo de David Mitchell, cada peça tem um começo, um meio e um fim, e todas as seis avançam gradualmente em uníssono, servindo como interlúdios umas para as outras, crescendo num tom quase febril até alcançarem seus desfechos — sendo que cada clímax acontece como resultado das ações das outras histórias. Toda essa sinfonia toca harmoniosamente enquanto provoca emoções fortes e reflexões espirituais sobre amizade e abnegação, amor e perdão, coragem e revolução. Aqui, até as mais ínfimas ações do passado se estendem ao presente e ajudam a moldar o futuro, algumas vezes de forma sutil, outras vezes de forma abruta, mas sempre sob julgo do conjunto de ações, reações e consequências que dão origem ao carma.

O filme parte do princípio que uma pequena ação positiva, quando promovida em determinadas circunstâncias e conduzida por um caminho correto, pode construir um sentimento tão grandioso que seria capaz de derrubar as forças mais opressivas da natureza humana — que muitas vezes se configuram em escravidão e regimes ditatoriais, mas que também podem significar a incapacidade humana de fugir dos erros e pecados que mantêm a mente aprisionada ao passado e incapaz de vislumbrar um futuro sem culpa. Cloud Atlas mostra-se uma melodia sobre a liberdade, física, mental e espiritual.

As três histórias do meio são dirigidas por Tom Tykwer (Corra, Lola, Corra), enquanto a primeira e as duas últimas são dirigidas por Lana e Andy Wachowski (Matrix). Não é difícil reconhecer a influência de cada diretor nas peças condizentes, e essa marca diferenciada torna o filme uma experiência ainda mais marcante, pois é quase como ver seis filmes diferentes, com gêneros diferentes, numa só produção. A exímia edição contribui bastante pra essa qualidade narrativa. No começo, pode parecer um pouco confuso se situar nos tempos diferentes, nos quais personagens e acontecimentos diferentes são apresentados e precisam ser estabelecidos dentro do contexto, mas à medida que a história segue, e as partes vão se ligando, até que façam parte do todo. Os cortes da edição, ainda que súbitos, são inteligentes por acontecerem nos momentos em que se cria harmonia entre uma peça e outra. Isso aumenta a ideia de conexão entre as histórias.

Situado em 1849, a primeira história é sobre Adam Ewing (Jim Sturgess), um advogado americano de San Francisco que, em uma viagem de navio, ajuda um escravo clandestino. Mas ele está lentamente sendo envenenado pelo médico inescrupuloso Dr. Henry Goose (Tom Hanks), que pretende roubar o ouro que Adam leva consigo.

A segunda história, situada no Reino Unido em 1936, é mais profunda emocionalmente e acompanha o atormentado Robert Frobisher (Ben Whishaw), um compositor musical muito talentoso, mas que sofre por ser bissexual e se vê obrigado a deixar seu amante, Rufus Sixsmith (James D’Arcy). Robert está buscando uma composição musical perfeita, que ele chama de “Sexteto de Cloud Atlas”, uma obra-prima que recebe o devido respeito apenas no futuro.

A terceira peça tem lugar na Califórnia em 1973, onde a jornalista investigativa Luisa Rey (Halle Berry) se encontra Rufus Sixsmith (James D’Arcy, envelhecido pela maquiagem) e descobre uma conspiração envolvendo indústrias petrolíferas envolvidas com energia nuclear.

A quarta peça acontece no Reino Unido em 2012, e gira em torno de Timothy Cavendish (Jim Broadbent), um editor de 65 anos de idade, que é perseguido por bandidos a quem deve dinheiro. Essa é história mais divertida do filme, e embora possa parecer meio fora de contexto se comparada às outras, as peripécias de Timothy Cavendish parecem ser as que mais exaltam os anseios de liberdade que permeiam todo o filme.

A quinta história é a melhor em termos de estética, narrativa e ação, e é também a parte mais direta na abordagem — com a marca inconfundível de ficção cientifica dos Irmãos Wachowski. O foco dessa história é Sonmi-451 (Doona Bae, que coreana linda!), uma clone criada através da genética para ser uma espécie de escrava num mundo dominado pelo consumismo, até que é resgatada por um líder rebelde chamado Hae-Joo Chang (Jim Sturgess, coreanizado). A peça acontece na Coreia do Sul no ano de 2144, e tem um estilo visual bastante cyberpunk. Detalhe que as pessoas desse futuro são tão dominadas pelo consumismo que elas se tornam parte de uma massa na qual são indistinguíveis como indivíduos, cujas aparências são nitidamente resultado de muitas e muitas cirurgias plásticas feitas para que todos pareçam coreanos e iguais — não, a coreanização de Jim Sturgess ou Hugo Weaving não é maquiagem mal-feita, é proposital!

A história final é ambientada no pós-apocalíptico 2321, e é a mais fraquinha do filme em termos de narrativa. Os dois personagens principais são Zachry (Tom Hanks), membro de uma tribo primitiva, e Meronym (Halle Berry), membro de uma civilização avançada deixada para trás pelos colonos que abandonaram o planeta. Meronym está em busca da Cloud Atlas, uma estação de comunicação que permitirá a ela enviar um sinal de socorro para as colônias espaciais. Mas as pessoas da tribo recusam-se a ajudá-la por causa de suas superstições, exceto Zachry, que acaba aceitando a missão de Meronym depois que ela salva sua sobrinha da morte. Porém, Zachry e Meronym precisam lidar com um bando de canibais que assola a área próxima a estação de comunicação — uns canibais que parecem os Reavers da série Firefly. Pra completar, Zachry precisa lidar com seu (literalmente) demônio interior, uma criatura verde imaginária chamada de Velho Georgie (Hugo Weaving), com quem fala constantemente em seus pensamentos. O Velho Georgie parece uma mistura de Chapeleiro Maluco (Alice no País das Maravilhas) com Mefistófeles (Fausto) que não funciona muito bem dentro da premissa do filme, e acaba terminando como um bufão sem grande finalidade.

As cinco primeiras histórias de Cloud Atlas são tão boas que poderiam ser longa-metragens separados e funcionariam direitinho por conta própria. Porém, o filme não está isento de falhas. Além da história sem graça do final (Zachry e Meronym), o maior problema reside no desempenho irregular ao longo das peças, especialmente da parte dos atores Tom Hanks e Halle Berry. Os atores, no entanto, são muitas vezes auxiliados pela maquiagem complexa e impressionante que deixa a maioria deles irreconhecíveis em vários momentos do filme. Porém, há de se destacar as atuações excepcionais de Jim Sturgess, Ben Whishaw e Jim Broadbent, os maiores responsáveis pelo carisma e pela paixão despertados em suas respectivas histórias.

Cloud Atlas pode não alcançar plenamente seus objetivos ambiciosos, mas, sem dúvida, é uma obra a ser admirada. Uma vez um grande General Romano, e também um grande Gladiador, disse: “O que fazemos em vida ecoa na eternidade!” Nunca essa premissa foi tão impactante como em Cloud Atlas, quase como se todas as memórias do mundo estivessem armazenadas nas nuvens, esperando para serem acessadas por um emaranhado de encarnações que se interligam como latitudes e longitudes de um mapa que influencia nossas escolhas e caminhos. Sim, o que fazemos em vida ecoa na eternidade!



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