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Anno Dracula

O ano é 1888 e a Rainha Vitória casou novamente, mas não com um homem comum. O novo consorte é o infame Príncipe da Valáquia conhecido como Conde Drácula, que jogou a Inglaterra numa espiral de decadência e trevas. Numa Londres alternativa, a linhagem poluída do Rei dos Vampiros espalhou-se por todos os cantos, co-existindo com os cidadãos, fazendo-os de presas e transformando-os em vampiros. Nas ruas soturnas de Whitechapel, um assassino conhecido como “Faca de Prata” começa a matar vampiras prostitutas, cortando-as com precisão e requintes de crueldade que até mesmo os vampiros aprendem a temer. Charles Beauregard se une à vampira Geneviève Dieudonné para descobrir a verdade por trás dos assassinatos. O misterioso assassino ameaça a estabilidade do novo regime e não demora até ele receber o nome que o tornaria uma lenda: Jack, o Estripador.

(Anno Dracula) – Horror. Estados Unidos, 1992.

De Kim Newman. Com os personagens Drácula, Charles Beauregard, Geneviève Dieudonné, Jack o Estripador, Florence Stoker e Dr. Jeckyll. Editora Aleph. Tradução: Susana Alexandria. 376 páginas.

Anno Dracula


ANNO DRACULA – RESENHA

Anno Dracula é uma inteligente re-imaginação da Inglaterra Vitoriana, numa realidade na qual o Conde Drácula não só conseguiu se infiltrar na sociedade britânica, como se tornou soberano absoluto. Drácula não foi destruído por Van Helsing. Pelo contrário, foi Van Helsing quem sucumbiu. O vampiro, assim, tornou-se mais poderoso do nunca e isso move tudo nessa história. O livro constrói uma mistura majestosa de elementos do mundo literário da época numa história de terror sangrenta e satírica.

As versões alternativas de personagens e obras populares de monstros clássicos do terror se tornaram razoavelmente comuns hoje em dia, com Orgulho, Preconceito e Zumbis e Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros como alguns exemplares disso. Anno Dracula, que foi publicado em 1992, é algo que não simplesmente re-inventa algo, mas cria todo um universo ficcional aproveitando-se de várias referências — de obras do próprio autor, de obras de outros autores, dos próprios outros autores. — Nesse universo FASCINANTE, criadores e criaturas aparecem juntos, como se habitassem o mesmo tempo e espaço. Não se espante por encontrar Arthur Holmwood (Lorde Godalming), personagem de Drácula, confraternizando numa festa com Florence Stoker, a esposa (na vida real) do escritor Bram Stoker; ou por descobrir que Dr. Jeckyll e Dr. Moreau trabalham juntos em peculiares pesquisas.

O próprio Drácula aparece aqui como uma figura obscura, vista sempre como algo distante e inalcançável, quase como se fosse um deus. Todos o temem e aqueles que discordam de seus atos, o fazem em silêncio. A sombra do Rei dos Vampiros sempre se avultando sobre os personagens, mas nunca realmente presente, aumenta ainda mais a tensão de ler essa obra, que faz jus ao título: Anno Dracula é uma clara referência ao termo Anno Domini, que marca os anos seguintes ao ano 01 no calendário ocidental.

O autor Kim Newman, que já foi parceiro de trabalho de Neil Gaiman, conta a história de uma forma que lembra justamente Gaiman, tanto em termos de narrativa quanto de escrita. Apesar de todo o clima de fantasia da história, Newman consegue conduzir a trama com firmeza e doses saudáveis (ou sangrentas) de realismo.

Os vampiros, por exemplo, são apresentados como criaturas misteriosas, que podem ser tanto frutos de uma praga, como resultados de uma maldição mística. Tratá-los como seres mágicos ou apenas um novo passo na evolução das espécies depende apenas do ponto de vista de quem os está estudando. Os próprios vampiros não sabem dizer com precisão o que são ou de onde realmente vieram, algo que fortalece o caráter supersticioso do cenário.

O mais impressionante é que mesmo com toda a superstição, os vampiros de Anno Dracula transitam entre as pessoas como se fossem a coisa mais natural do mundo, graças ao empenho do Conde Drácula em abrir as portas (ou os pescoços) do mundo para seus semelhantes. Mais impressionante ainda é que qualquer um pode se tornar um vampiro pelo preço de 01 mero xelim, e qualquer prostituta pode transformar qualquer infeliz desolado em um vampiro. A mediocridade e o desprendimento transbordam como sangue nesse cenário desolador, de uma forma que lembra as críticas sociais que Oscar Wilde (que é citado no livro) fazia em suas obras.

Os vampiros aparecem como parte de todas as classes da sociedade, desde os nobres até os miseráveis. Nesse aspecto reside a principal dose de realismo injetada nestes seres folclóricos. Ainda que qualquer um possa ser um vampiro, nem todos são capazes de se transformar completamente, ou usar os poderes provenientes dessa condição. Numa das cenas do livro, uma garota recém-transformada tenta se transformar em um morcego, mas não consegue sintonizar com a mudança e acaba deformada, com direito a uma descrição absurdamente grotesca. Em outra cena, uma mulher também recém-transformada precisa desesperadamente beber sangue, mas não tem onde conseguir porque foi abandonada pelo criador; ela encontra uma mãe na rua que oferece o pescoço da filha pequena em troca de algum dinheiro, a recém-transformada paga, e se vê obrigada a beber de um pescoço todo marcado pelas presas de outros vampiros, de tal modo que ela precisa arrancar as cascas de ferida na pele da menina para poder beber o sangue (a descrição é tão incisiva que chega a causar asco).

Anno Dracula é fruto de uma época quando o conceito de vampiro era visto de forma diferente da atual, uma época quando vampiros eram criaturas sombrias e grotescas vindas de pesadelos.

Claro que nem todos os vampiros aqui são feios e monstruosos, apenas os que descendem da linhagem corrompida de Drácula. Outras linhagens existem no cenário. A protagonista Geneviève Dieudonné — MELHOR personagem do livro — é descendente da linhagem de Chandagnac, criada pelo próprio Newman em outras obras que escreveu. Geneviève é mais velha e poderosa do que Drácula, e não gosta do Príncipe Consorte, ainda que prefira não se envolver nos assuntos dele se não for estritamente necessário. A altivez de Geneviève dá um charme todo especial à personagem, fora que ela é absurdamente carismática. Charles Beauregard é a contraparte dela, um homem mais sisudo, de boa índole, endurecido pelos anos que passou lutando na guerra. Beauregard aparece como uma espécie de detetive, uma vez que Sherlock Holmes não está disponível aqui (por motivos explicados na história). As interações entre Geneviève e Beauregard são muito divertidas por causa da diferença entre ambos, além do fato dela ser uma vampira presa na aparência de uma menina de 16 anos e dele ser um humano robusto cheio de códigos morais.

Outro elemento crucial é Jack, o Estripador. Quando você descobre quem ele é de fato e por que está matando prostitutas vampiras, é FANTÁSTICO!, porque tem tudo a ver com o cenário e com a fonte de onde veio boa parte das referências para a história (o livro Drácula, claro).

Há ainda alguns paralelos interessantes com o nazismo, na qual é facilmente possível substituir o termo “nazista” por “vampiro”, com direito a desaparecimentos misteriosos, leis ditatoriais e campos de concentração de mortais. Drácula é quase como um Führer, não tenha dúvidas disso; na verdade, é até mais selvagem.

Anno Dracula mostra-se uma história alternativa das mais brilhantes, com uma mitologia refinada que vai agradar fãs do sanguinário Príncipe da Valáquia, fãs das histórias ambientadas na época da sempre ilustre Rainha Vitória, e fãs de uma boa trama de mistério e assassinato envolvendo o mítico Jack, o Estripador. Acima de tudo é um clássico pulsante como sangue nas veias, prazeroso como o beijo negro de um vampiro.



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