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007 – Operação Skyfall

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Humanizar personagens quase invencíveis e mostrá-los sob um ponto de vista mais próximo da realidade está se tornando uma ferramenta inteligente para rejuvenescer franquias cinematográficas nos tempos atuais. Tal visão normalmente exacerba aspectos mais intimistas de histórias conhecidas por serem mais (digamos) expansivas.

Christopher Nolan fez isso recentemente com seu Batman Begins e foi extremamente bem-sucedido. Curiosamente, grande parte da inspiração de Nolan veio dos filmes do 007. Agora, também curiosamente, o 007 chega perto do Batman não só por ter sua franquia rejuvenescida, mas por concluir com êxito assombroso o objetivo instaurado para o agente secreto desde que Daniel Craig assumiu o posto em Cassino Royale.

Sam Mendes é um diretor conhecido por sua habilidade em trabalhar com esses aspectos intimistas, vide Beleza Americana e Estrada Para Perdição, e conseguiu, definitivamente, trazer a série de volta à velha forma depois do não-tão-empolgante Quantum of Solace. Mendes não só pôs James Bond de volta aos trilhos (aliás, literalmente no começo do filme), como usou os materiais certos para a construção de novos trilhos. Depois de seu filme, novos caminhos estão abertos a quem quiser segui-los.

007 – Operação Skyfall (Skyfall, EUA, 2012) é o final de um arco, um novo começo e uma homenagem ao aniversário de 50 anos da franquia mais duradoura e bem-sucedida do cinema mundial. James Bond, sem dúvida, completou 50 anos muito bem comemorados!

Operação Skyfall, no entanto, não é um filme convencional do famoso agente secreto britânico. Ainda é um filme de James Bond, mas, acima de tudo, é um filme sobre James Bond. A história ousa por fazer algo diferente e aprofundar os aspectos mais íntimos de seu personagem — que sempre foi mais conhecido pela extravagância fria do que pelas explosões emocionais. Isso vem sendo trabalhado, como eu disse, desde Cassino Royale, mas é aqui, no 23º filme da franquia, James Bond torna-se um misto pleno do agente à moda antiga com o agente contemporâneo. Porque mesmo sendo mostrado no íntimo de sua história pregressa e de sua psique, James Bond ainda ostenta velhos conceitos: o glamour, a ação, o suspense, a sedução, o vilão. Tudo coordenado com absoluta convicção por diretor e elenco.

Ainda que possua o clima de Cassino Royale, há de se mencionar que Operação Skyfall não é uma continuação direta de Cassino Royale e Quantum of Solace, embora pegue elementos emprestados dos dois filmes. A própria organização Quantum não é a grande vilã dessa trama — mas ainda pode voltar nas próximas.

Há de se mencionar também que o clima de um filme do 007 é uma coisa difícil de acertar. Quando é muito irreverente, perde o senso de realismo, como o esquisito 007 Contra o Foguete da Morte; quando é sóbrio demais, deixa escapar o glamour, focando apenas num monte de sequências de ação não-tão-empolgantes, como o supracitado Quantum of Solace. Outras vezes, consegue-se certo equilíbrio entre a sobriedade e o humor, mas mesmo que consiga um resultado divertido, ainda escorrega em excessos dispensáveis que afetam de alguma forma o todo, como o divertido-mas-problemático Um Novo Dia Para Morrer.

Mendes consegue, de fato, estabelecer esse equilíbrio sem derrapar pelo caminho. Operação Skyfall tem o tom e o clima de um filme a entrar para os clássicos de James Bond, com seus acessos de espetáculo exagerado, seus toques surreais dignos dos romances do criador Ian Fleming, e seu vilão consistente que parece um misto dos vilões mais icônicos da série — sendo que dentre os mais óbvios estão Dr. No, Stavro Blofeld, Emilio Largo e Goldfinger. Porém, o filme também desenvolve uma sobriedade admirável em suas intenções, especialmente pela tentativa de trazer seus personagens mais para perto da realidade. Enquanto o início é mais espetacular, o final é mais centrado e até um pouco sombrio, e a mudança entre ambas as formas acontece gradativamente ao longo de toda a trama. Por causa disso, os personagens tornam-se muito mais críveis e cativantes. Operação Skyfall tem momentos certeiros de ação, drama e humor; não é totalmente cheio de vida e diversão, mas também não sofre com excesso de seriedade sem humor. Ou seja, equilíbrio!

O filme começa com uma sequência espetacular de ação que mostra James Bond e sua parceira Eve tentando capturar um criminoso pelas ruas de Istambul, Turquia, com direito à perseguição de motos por telhados, luta mano-a-mano no topo de um trem em alta velocidade e — PUTAQUEPARIU! — uma escavadeira mecânica! Além de bem conduzida, coreografada e editada, a cena reflete a preferência de Mendes por mostrar ações paralelas dentro da perseguição, algo que se torna ainda mais interessante ao constatarmos a incredulidade dos operativos da agência enquanto recebem informações pelos comunicadores sobre os feitos de Bond durante a perseguição. Com isso, acompanhamos os acontecimentos por vários ângulos e pontos de vista diferentes, forma narrativa que é usada ao longo de todo o filme para intercalar ação, suspense e humor. Mais uma vez, equilíbrio!

O clímax da cena inicial culmina na clássica sequência de abertura, que literalmente garante a imersão na atmosfera desse novo filme com James Bond graças ao visual bonito (e mórbido) que ressoa com a música elegante cantada por Adele — música que facilmente remete a algumas canções célebres dos filmes mais antigos do espião e parece ficar melhor a cada vez que você escuta!

Depois disso, Operação Skyfall é puro entretenimento. Na trama, James Bond (Daniel Craig) desaparece durante uma missão e dado como morto. Depois de um período de isolamento, ele decide voltar à ativa quando descobre que o quartel-general da MI6 foi atacado pelos terroristas que deixou escapar quando fracassou em sua missão. Mas, quando retorno, encontra a MI6 desestabilizada, com a chefona M (Judi Dench) enfrentando um julgamento sobre sua capacidade de liderança. Pra complicar, ainda precisa lidar com o burocrata Gareth Mallory (Ralph Fiennes), Presidente do Comitê de Inteligência e Segurança, que questiona constantemente se Bond está realmente apto para voltar ao serviço. Com a ajuda de Eve (Naomie Harris) e do jovem Q (Ben Whishaw), Bond sai à caça do misterioso Silva (Javier Bardem), o homem responsável pela missão fracassada de outrora.

A missão fracassada, na verdade, envolve um disco rígido que contém identidades dos principais agentes britânicos infiltrados pelo mundo. Ainda que seja lugar-comum das histórias de espionagem, esse macguffin do roteiro funciona perfeitamente aqui, pois serve como estopim para a construção de um cenário original e envolvente que coloca a MI6 sob ataques do inimigo e pressões políticas. A agência secreta sempre tão imponente e impenetrável nos outros filmes também ganha contornos de vulnerabilidade, assim como os personagens que a fazem existir estão se tornando mais humanos e passíveis de erro.

A própria M está mais humanizada aqui, fato que se torna ainda mais evidente quando, numa das cenas mais melancólicas do filme, ela cita o poema Ulysses de Tennyson ao som de uma trilha instrumental de rasgar o coração. Ali, testemunhamos uma personagem sempre tão seca e sarcástica refletir sobre sua vida, sua carreira, seus medos e suas fraquezas. Porque, no fundo, Operação Skyfall é um filme sobre conhecer o medo; é sobre saber o momento certo de fugir ou de agir quando se está encurralado, algo normalmente instintivo para um rato (ou dois), mas nem sempre fácil para uma pessoa, especialmente pessoas supostamente infalíveis dentro da redoma de uma agência secreta supostamente à prova de falhas.

Sim, o grande chamariz de Operação Skyfall é seu roteiro, que merece todos os créditos aos roteiristas Neil Purvis, Robert Wade e John Logan pela caracterização impressionante, pelos diálogos afiados e pela trama cujos mistérios mantém o clima de suspense acima do convencional para um filme do 007. Ainda que o cenário possua aquele teor enérgico de um Missão Impossível no quesito ação/suspense, o aspecto de história conduzida por pessoas emocionalmente danificadas inevitavelmente lembra a abordagem de um Batman Begins — o que não parece realmente intencional, ainda que seja uma comparação louvável.

Soma-se a isso o elenco magistral. Daniel Craig assumiu DE VEZ o manto de James Bond. Seu 007, além da “fúria fria” dos dois filmes anteriores, surge como um homem aparentemente cansado dos sacrifícios que a vida de agente demanda. Ao mesmo tempo, sem essa mesma vida, ele não consegue se sentir completo. Craig passa com firmeza o charme viril do icônico agente secreto através de suas expressões e gestos, enquanto seus penetrantes olhos azuis revelam-se como janelas para o espírito torturado e confuso do homem por trás do agente — uma proposta que é, inclusive, exposta na sequência de abertura do filme. Porém, Craig é ainda mais impressionante quando oferece vislumbres das marcas que fizeram de James Bond tão famoso, especialmente as marcas deixadas no papel por Sean Connery. O uso do Aston Martin DB5, o primeiro carro de Bond em toda a sua epicidade clássica, mostra-se ainda um reforço para essas marcas. As reações de Craig ao Aston Martin são um deleite para os fãs da série, não tenha dúvidas.

Do outro lado da história, Javier Bardem aparece impecável com o vilão Silva, uma contra-parte perfeita para Bond. Inteligente, perverso, manipulador e absurdamente extravagante, Bardem consegue passar toda a carga dramática de um vilão de 007 sem parecer estereotipado ou caricato — aliás, não dá pra definir um vilão tão aproximado aos demais vilões da série como algo caricato, algo que merece ainda mais respeito por não ser estereotipado. Em alguns momentos, até mesmo outros vilões icônicos surgem refletidos na caracterização do excêntrico Silva, como o Coringa de Heath Ledger em Batman: O Cavaleiro das Trevas, ou o Hannibal Lecter de Anthony Hopkins em O Silêncio dos Inocentes, ou o Anton Chigurh do próprio Bardem em Onde os Fracos Não Têm Vez. Bardem está realmente incrível!

No restante do elenco, Judi Dench se destaca ao se tornar o centro das atenções de boa parte da trama. Toda a trajetória da atriz com sua versão matriarcal e mais compassiva de M atinge o ápice nesse filme. Além disso, a importância da personagem nessa história é tanta que ela deixa de ser simplesmente a chefona da MI6 que possui sutis laços afetivos com James Bond. Ela se torna a Bond Girl do filme! Isso mesmo. Operação Skyfall, assim como muitos filmes do 007, tem sua Bond Girl evidente e sua Bond Girl não-tão-evidente. Sévérine, a Bond Girl mais óbvia, é interpretada pela exuberante Bérénice Marlohe, e cumpre seu papel no filme com eficiência. M, por toda a sua importância nessa história, é quem assume a função de Bond Girl não-tão-evidente, o que talvez se torne menos óbvio pelo fato de Dench estar na franquia desde 007 Contra GoldenEye, ao invés de ser uma participação esporádica em cada filme. Mas, se você parar pra pensar, é a Bond Girl que sempre esteve presente e que mais teve importância na vida do 007 desde o começo — fato que move esse filme!

Há ainda as ótimas participações de Naomie Harris, agradável como a divertida Eve; Ralph Fiennes, esbanjando classe como o enigmático Mallory; e Ben Whishaw, altivo como o nerd Q, que tem algumas das melhores falas do filme, especialmente na primeira (e fantástica) cena em que ele se encontra com Bond.

Apesar dos muitos méritos, Operação Skyfall não é um filme perfeito. Ainda que a humanização dos personagens e da história seja bem-vinda, eventualmente exagera no sentimentalismo e, às vezes, a trilha sonora também extrapola nesse quesito. Porém, olhando de perto, são problemas que parecem menores diante da grandiosidade dessa obra. O grande trabalho de re-apresentação e reconfiguração dos elementos clássicos da série não só prestam as devidas homenagens aos 50 anos de James Bond como fundamentam o universo da MI6 para o re-início que vemos nas telas desde Cassino Royale. Tudo isso com o claro objetivo de satisfazer os fãs e mostrar que James Bond ainda têm muitas missões pela frente.

007 – Operação Skyfall é, na verdade, triunfante ao apresentar essa re-invenção com personagens vigorosos e emocionalmente complexos, sem comprometer os valores e as tradições que desde o começo caracterizam os filmes de James Bond como entretenimento, diversão e escapismo.

O velho herói trilha um novo caminho sem perder o carisma. Vivemos uma época em que velhos heróis às vezes são esquecidos, mas não este. Nas sábias palavras de M citando Tennyson, “não somos mais aquela força dos velhos tempos; movemos céu e terra, somos o que somos; corações heroicos de uma única temperança; enfraquecidos pelo tempo e destino, mas fortes na vontade; para lutar, buscar, encontrar, e não se render”.

De fato, os tempos mudaram. O cinema mudou.

Mas um herói permanece forte na nossa vontade.

Bond, James Bond.

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