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Hemingway & Gellhorn – Festival do Rio 2012

Hemingway & Gellhorn

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Martha Gellhorn foi uma escritora e jornalista norte-americana, considerada uma das maiores correspondentes de guerra do século XX. Ernest Hemingway foi um famoso escritor norte-americano, que também trabalhou como correspondente de guerra durante a Guerra Civil Espanhola. Hemingway e Gellhorn estiveram juntos na Espanha e lá desenvolveram uma relação que resultaria num conturbado casamento. Durante muito tempo, porém, Gellhorn foi lembrada por ser a terceira esposa de Hemingway, fama da qual se ressentia dizendo que “não tinha intenção de ser uma nota de rodapé na vida de outra pessoa”.

Hemingway & Gellhorn (EUA, 2012) conta um pouco da história por trás do relacionamento entre essas duas figuras ilustres da literatura norte-americana. Mas, sobretudo, é uma homenagem à jornalista Martha Gellhorn e sua importância por apresentar ao mundo a verdadeira tragédia mascarada pelas gloriosas imagens de uma guerra. No equivalente emocional às cenas de combate, o diretor Philip Kaufman, a partir do roteiro de Jerry Stahl e Barbara Turner, recria as duras batalhas de Gellhorn por ser esposa de Hemingway.

A romantização insana com a qual seus personagens são apresentados dá o tom da história. Hemingway & Gellhorn é o tipo de filme em que seus protagonistas (Clive Owen e Nicole Kidman, respectivamente) consumam seu caso enquanto fascistas bombardeiam o hotel onde estão hospedados. A transição do medo para o desejo é plausível, proveniente de um momento em que o homem pressiona a mulher contra uma parede para protegê-la. Mas logo depois eles estão friamente trocando carícias num colchão, com seus corpos eroticamente salpicados pelo pó do gesso que despencou do teto enquanto eles faziam sexo. Isso é o que se pode esperar do filme: exagero!

Não é algo de todo ruim, uma vez que valorizada a figura idealizada de ambos os personagens. Por outro lado, é uma forma narrativa que afeta a credibilidade da história em alguns momentos e impede que Hemingway e Gellhorn sejam completamente humanizados na tela. Num filme que fala o tempo todo sobre humanidade, é uma perda considerável explorar seus personagens sob um ponto de vista frio e idealizado.

Todavia, mesmo com o exagero, os intérpretes dos protagonistas são os grandes responsáveis por manter o filme no eixo.

Clive Owen tem o perfil adequado para esbanjar toda a presunção e exaltação da masculinidade de Hemingway. Ele surge em sua primeira cena num barco, bebendo rum e disputando forças com um peixe-espada que luta para escapar de seu anzol enquanto um séquito de amigos faz coro animadamente em respeito a sua macheza. É uma cena icônica, que se desenrola em preto-e-branco até que o peixe é jogado no convés do barco, derrotado e com o sangue escorrendo em vermelho. A sequência reforça o que podemos esperar do personagem, um homem que acredita que o homem deve ser sujo e feio, não uma tulipa. Mas também é uma cena que contribui com a perversidade fascinante da história ao mostrar que o mundo pode ser tão sujo e feio quanto um homem com delírios de grandeza.

Depois da viagem de pesca, Hemingway conhece Gellhorn durante um momento de bebedeira e auto-adulação no bar Sloppy Joe. Eles trocam uma conversa e ela se revela uma escritora cujos talentos foram comparados por uma crítica literária aos dele. Nesse momento, o espírito da rivalidade acende a paixão entre ambos — rivalidade e paixão, duas forças que constantemente andam juntas durante uma guerra. Juntos, os dois viajam para cobrir a Guerra Civil Espanhola. Hemingway, para produzir um filme propaganda contra as forças facistas ao lado do romancista John Dos Passos (David Strathairn), do cineasta Joris Ivens (Lars Ulrich) e do revolucionário Paco Zarra (Rodrigo Santoro, no papel do personagem baseado no revolucionário José Robles). Gellhorn, para cobrir os acontecimentos da guerra civil pela revista Collier’s.

A história é contada pelo ponto de vista da própria Gellhorn, que aparece idosa enquanto relata os fatos numa entrevista — mais ou menos como a Rose conta sua história em Titanic. É aqui que Nicole Kidman se destaca. Seu desempenho como a mulher que teve uma vida difícil, porém importante, como jornalista é excepcional, mesmo sob a maquiagem para deixá-la mais velha. Ela se coloca numa posição defensiva o tempo todo quando aparece idosa, enquanto suas cenas na juventude refletem uma mulher arrogante, emotiva e sensual. Testemunhar essa mudança de uma garota valente correndo no meio de um bombardeio em uma veterana marcada pelas visões trágicas da guerra é o maior prazer do filme.

Tais visões trágicas, aliás, são outro ponto interessante. As cenas constantemente oscilam do colorido para o preto-e-branco para tons sépia, misturando imagens de arquivo às sequências. Eventualmente, os atores também são inseridos nessas imagens através de efeitos especiais, como quando eles aparecem em meio às imagens de arquivo da marcha em Madri ou dos pedestres transitando em Manhattan. É uma mistura que dá um tom mais documental à obra, mas também é cheia de altos e baixos. A cena em que Hemingway e Gellhorn estão num telhado assistindo a um grupo de rebeldes atirando granadas e Hemingway convida um deles para beber depois é ridícula. Algumas cenas desse recurso funcionam, outras não. Porém, Hemingway & Gellhorn ainda é um relato apaixonado que tem seu valor, seja como homenagem, seja como ficção, seja como documento. Um pouco de ilusão e mentira não é de todo mal. É como diz o próprio Hemingway — “Os melhores escritores são todos mentirosos”.

Hemingway & Gellhorn

De Philip Kaufman.

Com Nicole Kidman, Clive Owen, David Strathairn, Rodrigo Santoro.

Estados Unidos, 2012. 155 minutos.

Mostra Panorama do Cinema Mundial

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