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Eles Vivem – Festival do Rio 2012

Eles Vivem

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Eles Vivem (They Live, EUA, 1988) é outro dos grandes sucessos concebidos por John Carpenter que usa a ficção científica e o terror para abordar temas políticos e sociais. Aqui, embasado por teorias de conspiração e paranoias que permeavam (e ainda permeiam) a parte rica da sociedade.

O filme conduz sua história com elementos da ficção científica em estados totalitários que controlam as faculdades mentais do povo; no caso, as pessoas são controladas por meio de um sinal transmitido pela TV semelhante à premissa do longa Videodrome, de David Cronenberg. Graças ao sinal, as pessoas são mantidas na ignorância, incapazes de enxergar o que realmente existe por baixo de um mundo frio, elitista e voltado para o dinheiro e o consumo.

A conspiração começa a ser revelada quando Nada (Roddy Piper), um operário de construção civil, encontra óculos de sol que lhe permite enxergar as coisas como elas realmente são. Ele consegue enxergar mensagens subliminares em outdoors e revistas, e descobre que seres alienígenas feiosos vivem misturados à sociedade, disfarçados como homens de negócios e formadores de opinião. Ou seja, eles estão exatamente na posição adequada para exercer seu controle sobre o povo. Quando a capacidade de Nada é descoberta, ele começa a ser perseguido pela polícia e percebe que seus problemas não se restringem somente aos alienígenas, mas também aos humanos que ajudam os invasores em troca de sucesso e riqueza. Sua única ajuda é Frank (Keith David), também um operário que relutantemente põe os óculos e decide enfrentar a opressão que o mantém preso ao lado miserável da sociedade.

O momento da descoberta de Frank sobre a realidade, aliás, merece um destaque. Nada o obriga a usar os óculos depois de uma briga que dura quase 15 minutos. Apesar da tensão da cena, a luta entre os dois, depois de alguns minutos, torna-se divertido uma vez que nenhum delas quer ceder às convicções do outro. É uma sequência lenta, que demora a terminar, mas acrescenta o tom exato de tensão e frustração da história ao mostrar como é difícil para uma pessoa escapar das convenções de seu mundinho comum. Normalmente, é mais fácil permanecer na ignorância do que enxergar as possibilidades que o mundo tem a oferecer, e muitos temem sair desse estado de “cegueira”, pois a mudança sempre é drástica. A cena, contudo, fortalece nossa empatia por Nada, um homem ingênuo e honesto que sempre tentou seguir as regras, mas quando viu que existiam forças além de sua compreensão controlando essas regras decidiu ligar o foda-se e mudar drasticamente sua atitude. É preciso coragem para superar esse medo de enxergar a realidade. Nada representa essa coragem, enquanto Frank é o medo que precisa ser vencido, aos poucos, com esforço. Por isso, a cena da briga demora tanto para acabar.

Por outro lado, as forças atuando nessa sociedade corrompida são fortes até mesmo para os mais corajosos. O filme é uma crítica direta a sociedade superficial, insensível e materialista da década de 80, uma sociedade que almejava apenas mais lucro e não se preocupava com o bem-estar das pessoas — algo que não mudou muito nos dias de hoje. No longa, aqueles que estão no poder foram comprados pelos alienígenas e são implacáveis ao usar a força para manter seu poder e sua riqueza intactos. Isso fica claro quando a polícia e os militares invadem uma favela e matam todos que consideram suspeitos de rebelião sem piedade.

O discurso sobre se mantém atual quando olhamos para o mundo e até mesmo para nosso próprio país, uma vez que governantes alegam se preocupar com as classes mais pobres da sociedade enquanto continuam a arrecadar dinheiro para si e para seus amigos-empresários-que-financiam-sua-campanha-eleitoral. Eles fazem o que precisa ser feito para serem eleitos, dizem o que as pessoas querem escutar apenas para manter sua posição de poder. Mas, no fim, as oportunidades que criam são para seus protegidos, que continuam a tirar proveito dos outros com um sorriso de deboche no rosto.

Essa é a realidade que o filme tenta mostrar, que existe mais do que a verdade que os homens no poder tentam empurrar goela abaixo do povo. E, mais importante, esse é um tipo de filme difícil de ser visto atualmente. Eles Vivem é provavelmente uma das histórias mais subversivas já produzidas no cinema das últimas décadas. Alienígenas aparecendo como ricaços que tomam o controle da Terra?! Outdoors e programas de televisão que, na verdade, contêm mensagens subliminares de “consuma”, “assista a TV” ou “case e reproduza”?! Pobres ficando mais pobres e ricos ficando mais ricos?! Sim, esse é um filme dos anos 80, e ainda se mantém atual. Mas, é um filme que poucos lembram e sobre o qual poucos falam. Talvez justamente pela dificuldade — que parece cada vez maior atualmente — de escapar das convenções do mundinho comum.

Eles Vivem fortalece a premissa do escritor William Gibson (Neuromancer) de que os ricos não mais se lembram de ser humanos. Mesmo quando esquece um pouco da sátira e parte para a ação direta, a proposta mantém seu tom incisivo. Como não gostar um filme tão enérgico e cheio de atitude como esse?!

Eles Vivem (They Live)

De John Carpenter.

Com Roddy Piper, Keith David, Meg Foster.

Estados Unidos, 1988. 93 minutos.

Mostra John Carpenter

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