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César Deve Morrer – Festival do Rio 2012

César Deve Morrer

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Por inúmeras vezes as peças de William Shakespeare já foram encenadas, e mesmo assim sempre há espaço para inovação. Em César Deve Morrer (Cesare Deve Morire, Itália, 2012), temos talvez uma das mais originais abordagens a um texto do bardo inglês. Baseado no texto da tragédia Julius Caesar, os irmãos Paolo Taviani e Vittorio Taviani nos apresentam uma encenação realizada por detentos de alta periculosidade dentro de um presídio italiano. E por incrível que pareça, o resultado final é excelente, mostrando a força do original e ao mesmo tempo atualizando-a de forma magistral.

Filmado em estilo documental, mas sem perder o caráter ficcional, o longa traz uma grande reflexão sobre o poder e o crime. Estamos vendo uma narrativa sobre o assassinato de um tirano, mas poderia muito bem ser um filme de máfia (e o fato dos atores serem todos ligados às diferentes organizações criminosas italianas deixa isso na cara). As falas ditas pelos personagens históricos se encaixam com perfeição a forma como vivem os presos, seja dentro da cadeia, seja no passado criminoso de cada um.

A ideia aqui não é julgar, mas humanizar os condenados. O início nos mostra os testes para escolha do elenco, onde cada um diz quem é e de onde veio, provocando comoção e riso. Após, somos finalmente apresentados aos escolhidos, e então descobrimos por que foram condenados e quais as suas sentenças. Não são coitadinhos, temos até homicidas entre eles. Mas não se tratam tampouco de monstros: são seres humanos, com as mesmas emoções que eu e você.

Seguimos então pelos ensaios, seja ao decorar as falas nas celas ou em leituras em grupo, e a trama assim vai se desenrolando. Quando finalmente chegamos ao clímax é que vemos a encenação no palco acontecer. É neste momento também que o filme passa de p&b para as cores. E essa passagem não é por acaso, como, aliás, cada fala e fotograma apresentado.

A peça em si já tem passagens comoventes, e os Taviani sabem apresentar isso de forma magistral. A cena da morte de César lembra os complôs mafiosos, e o discurso de Marco Antônio nos mostra que a ambição política dos tiranos está aí desde sempre. Nesse sentido, os crimes cometidos pelos atores se diferem apenas pela escala às das grandes figuras históricas? Como em Crime e Castigo, de Dostoievsky, o que nos vem à mente é se a diferença entre um Napoleão e um César para um pivete da esquina não seria apenas o número de vítimas e o estrago que podem causar.

Enfim, entre as muitas reflexões trazidas pelo filme, podemos ter algumas certezas no seu final. A primeira é de que Shakespeare realmente é eterno. A segunda é que os irmãos Taviani souberam em pleno século XXI afirmar o cinema como arte e como terreno da política, e isso sem entediar ou tentar doutrinar a plateia. E a terceira é a de que, para o bem ou para o mal, somos todos romanos.

César Deve Morrer (Cesare Deve Morire)

De Paolo Taviani, Vittorio Taviani.

Com Cosimo Rega, Salvatore Striano, Giovanni Arcuri, Antonio Frasca.

Itália, 2012. 76 min.

Mostra Panorama do Cinema Mundial

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