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Encontrarás Dragões: Segredos da Paixão – Festival do Rio 2012

Encontrarás Dragões: Segredos da Paixão

Encontrarás Dragões: Segredos da Paixão

Encontrarás Dragões: Segredos da Paixão

Encontrarás Dragões: Segredos da Paixão

O perdão. Talvez o mais importante ensinamento do cristianismo, e o mais esquecido de ser praticado, é o tema central de Encontrarás Dragões: Segredos da Paixão (There Be Dragons: Secrets of Passion, EUA, 2011), o novo filme do diretor Roland Joffé (A Missão). Trazendo como pano de fundo a Guerra Civil Espanhola, temos uma trama bem construída, sem maniqueísmo, onde os personagens vivem em tempos difíceis, e são obrigados a conviver com suas consequências.

Tudo gira em torno da investigação de Roberto Torres (Dougray Scott), um jornalista que está escrevendo um livro sobre Josemaría Escrivá (Charlie Cox), o padre fundador da Opus Dei, uma organização dentro da Igreja Católica cuja missão é realizar a evangelização. O que ele vem a descobrir é que seu pai, o juiz Manolo Torres (Wes Bentley) foi amigo de infância de Escrivá. A partir de então, o longa vai alternando cenas no presente (ou mais especificamente, no ano de 1982) e a Guerra Civil, sempre pela visão de Manolo.

Manolo se envolve com a Guerra ficando a favor da direita, mas se infiltra como espião entre as tropas esquerdistas. Ele se apaixona por Ildiko (Olga Kurylenko), mas esta o rejeita para ficar com o carismático Oriol (Rodrigo Santoro). Ao mesmo tempo, Escrivá tenta pregar sua fé, mas tem que fugir dos constantes ataques das milícias esquerdistas e sua fúria contra os padres, que eram executados sumariamente.

De certa forma, Joffé emprega aqui a mesma estrutura de sua obra mais famosa: A Missão. De novo temos um conflito histórico onde há a luta entre opressores e oprimidos, com membros da Igreja envolvidos contra a vontade, e tentando professar sua fé em meio a toda a turbulência.

Embora pareça tender em certos lados pela visão da esquerda, o diretor não faz propaganda política. O que tenta é entender como a situação chegou a tal ponto, e como os personagens são obrigados a conviver com suas decisões. Não há aqui julgamento de certo ou errado, apenas consequências. O público fica como o jornalista Roberto Torres, tentando entender com olhos distantes tudo o que aconteceu no calor do momento, onde os sentimentos pessoais de amor, ódio, inveja etc. se misturam com o contexto político de uma Guerra Civil que foi o prelúdio dos horrores da Segunda Guerra Mundial, onde fascistas e stalinistas ensaiaram as atrocidades que depois aperfeiçoaram na Grande Guerra.

Falando especificamente no nosso compatriota Rodrigo Santoro, ele entrega uma atuação competente em personagem que, embora coadjuvante, tem papel fundamental na trama. Sua história tem início, meio e fim, e com um desfecho com forte carga dramática. Mas todas as atuações do filme são boas, sem destaque especial para nenhum dos personagens.

O calcanhar de aquiles do filme é justamente a figura do padre Escrivá, que parece um santo — tem sempre uma palavra de sabedoria e está sempre convicto de sua fé. Nele não há dúvidas ou reflexões, apenas a determinação de seguir em frente. Se pensarmos que sua organização acabou por se tornar o que de mais conservador existe no catolicismo, influindo inclusive na política de maneira geral, fica meio sem sentido as afirmações dele de que entende o povo em revolta. Justamente quem tinha mais potencial para gerar discussões acaba sendo retratado de maneira menos complexa.

Outro ponto negativo é a trilha sonora. Ela não é ruim, e tenta dar um clima épico para os acontecimentos. Contudo, muitas vezes erra o tom, pois temos na tela um momento mais calmo, e a música está em uma empolgação que não se reflete nas ações dos personagens.

Enfim, em meio a tantas decisões difíceis e atitudes que geram arrependimentos, a grande lição do filme é saber perdoar. Os dragões a serem encontrados não são nazistas, comunistas ou qualquer inimigo externo, mas nós mesmos. As atitudes impensadas, as verdades não ditas, os sentimentos mesquinhos que influem em nossa vontade, esses sim são os dragões a serem combatidos. O final humanista é bonito e com esperança, e buscando a compreensão do próximo — algo que nem as religiões nem as revoluções parecem se lembrar em seus momentos decisivos.

Encontrarás Dragões: Segredos da Paixão (There Be Dragons: Secrets of Passion)

De Rolando Joffé.

Com Charlie Cox, Wes Bentley, Dougray Scott, Rodrigo Santoro, Geraldine Chaplin, Derek Jacobi, Ana Torrent.

EUA/Espanha, 2011. 120 min.

Mostra Panorama do Cinema Mundial

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  • Everton de Oliveira Ferreira

    Essa foi a crítica mais sóbria que vi a respeito do filme, porém comete um erro similar das outras que vi. Erra ao conceituar determinadas coisas. Aqui erra no conceito do conservadorismo. Mas é compreensível, pois o senso comum a respeito do conservadorismo no Brasil, acaba transformando tal disposição em coisa antagônica, como se estivesse de fato encarregado da manutenção do status-quo.

    Isso não é inteiramente verdade… O conservadorismo como disse é uma disposição, não uma ideologia. O mister do conservador é conservar instituições (é claro que a igreja está inclusa), dar proveito para o capital de experiência adquirido através dos tempos e reformá-los prudencialmente.

    Infelizmente por essas bandas, o conservador é confundido com o reaçonário.

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