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Selvagens – Festival do Rio 2012

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A selvageria é algo inerente ao ser humano, o mais básico dos instintos, que pode garantir a sobrevivência e promover os mais terríveis atos de violência. Selvagens (Savages, EUA, 2012) traz o diretor Oliver Stone de volta ao seu lado obscuro e amoral, com uma energia cruel e toques de humor mórbido. A trama é baseada no romance homônimo de Don Winslow. Em sua essência, o filme trava a velha batalha entre bem e mal, mas todos aqui são maus, alguns mais do que outros, e todos têm um lado bom.

Apesar de tudo, Selvagens ainda é a mais simples das histórias: uma história de amor. E nesse ponto fica difícil saber quem são os selvagens: os três protagonistas com sua relação amorosa a três, que seria facilmente tachada como selvagem por fugir totalmente dos padrões sociais; ou os violentos bandidos, que não medem esforços para atingir seus objetivos — e curiosamente não conseguem aceitar o amor selvagem de um ménage à trois.

O trio central é formado por Chon (Taylor Kitsch), Ben (Aaron Johnson) e O (Blake Lively), que vivem um romance com tons shakespearianos que vão desde a bipolaridade de Hamlet até os delírios utópicos de Romeu e Julieta. Ophelia (nome verdadeiro de O, inspirado na personagem que comete suicídio em Hamlet) deixa claro desde o início que “só porque está contando aquela história, não significa que estará viva no final”. Ela é o fio condutor de toda a trama, que se move como uma peça teatral narrada por uma jovem sonhadora e de personalidade tortuosa. É quase como um conto de fadas às avessas, que soa falso e verdadeiro (ao mesmo tempo).

Chon e Ben são donos de uma das mais proeminentes plantações de maconha da Califórnia, e levam a vida numa boa com O. Ben, no entanto, quer deixar o negócio das drogas para trabalhar com energia renovável. O problema começa quando os dois são contatados por Elena (Salma Hayek), chefona de um cartel de drogas mexicano que deseja se expandir nos EUA. A proposta é simples: ou Chon e Ben partilham seu negócio com ela, ou vão sofrer consequências drásticas pela recusa. Elena coordena tudo de seu país através da tela de um computador e de seu fiel capanga, Lado (Benicio Del Toro).

Dito isso, entra em cena outro lado da história, Dennis (John Travolta), agente da DEA que aceita subornos de Chon e Ben para acobertar a distribuição de drogas dos dois. Dennis é um patife esperando para lucrar com as oportunidades que se apresentam a ele, e ao mesmo tempo é ingênuo a ponto de esperar seus subornos e acreditar que acordo é acordo. Num dos momentos mais engraçados do filme, temos a chance de vê-lo gritando espantado: “você esfaqueou um agente federal!” E ver novamente aquela canastrice salafrária do John Travolta é divertido pra caramba!

As atuações são consistentes e todos conseguem algum destaque: Kitsch, com seu homem de poucas palavras e paixão desmedida, que mais parece um cavaleiro honrado sob forma de soldado ensandecido; Johnson, com seu otimismo liberalista, que aos poucos vai endurecendo devido às circunstâncias; Lively, com sua beleza inocente e seu jeito sedutor, capaz de fascinar todos com um olhar, um sorriso ou um movimento; Hayek, com sua chefona do crime astuta e implacável, mas ainda capaz de demonstrar sentimentos genuínos de carinho e consideração.

Mas o destaque mesmo fica por conta de Del Toro, que aparece ATERRORIZANTE. Lado é o mais selvagem dos selvagens, impuro e simples, capaz de fazer você se contorcer de medo enquanto corta um bife — ele consegue ser ainda mais assustador do que o assassino Anton Chigurh em Onde os Fracos Não Têm Vez. Lado é de dar medo. MUITO MEDO.

Selvagens renova a premissa dos filmes de drogas, como toda sua riqueza e violência desmedidas, cartéis mexicanos e sonhos californianos. Oliver Stone voltou com tudo à sua velha forma, daqueles tempos bons de Assassinos Por Natureza e Platoon. Ele sabe explorar a escuridão da alma humana como poucos.

A violência aqui é gráfica, com diálogos que oscilam entre a paixão e a loucura, mas que proporcionam momentos de bravatas antológicas — especialmente de Chon e sua hilária obsessão pelo Afeganistão. Ainda assim, em meio a tanta ferocidade, Selvagens consegue ser um filme polido e denso, que toma formas de romance rufianesco. É um entretenimento de alta qualidade sustentado por um espírito apaixonado. Num filme sobre a selvageria humana, de fato, esse é um dos elementos que mais devem prevalecer: a paixão.

Selvagens (Savages)

De Oliver Stone.

Com Taylor Kitsch, Blake Lively, Aaron Taylor-Johnson, John Travolta, Benicio Del Toro, Salma Hayek, Emile Hirsch.

Estados Unidos, 2012. 131 minutos.

Mostra Panorama do Cinema Mundial

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