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Cosmópolis

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Robert Pattison está começando a fugir do estereótipo de fenômeno adolescente da Saga Crepúsculo. Atitude louvável. Primeiro, ele aceitou uma proposta mais adulta em Água Para Elefantes. Mas, com Cosmópolis (Cosmopolis, França, 2012), ele definitivamente se jogou num caminho diferente!

Baseado no livro homônimo de Don DeLillo, o drama psicológico de David Cronenberg tem a marca de seu diretor: carregado de escuridão moral, violência gráfica (aqui, mais psicológica), nudez, indivíduos estranhos e muito hedonismo. Marca que facilmente encontramos em outros filmes do cineasta, como Scanners ou Videodrome.

A história se passa num futuro-não-tão-futuro-assim, quando a era do capitalismo está chegando ao fim ou atingindo um momento em que tudo vai ser dominado por mega-corporações e se tornar o futuro da série Continuum.

Eric Packer (Robert Pattison) é um ricaço que anda por toda a cidade em sua extravagante limousine em busca de um simples corte de cabelo. Porém, a visita do presidente dos Estados Unidos paralisa Manhattan e à medida que o dia passa, várias situações violentas e insanas estouram pelas ruas da cidade. Eric assiste a tudo impotente e vê seu império entrar em colapso. Paranoico, ele começa a reunir pistas que o levam a um segredo terrível: seu assassinato iminente.

Robert Pattison — é o que você quer saber, eu sei! — é uma das melhores coisas do filme. Ele consegue interpretar de forma convincente e quase alienígena todo o cinismo estampado em seu personagem, sem tornar-se uma completa caricatura de si mesmo. Não, você não vai ver um garoto crepúsculo aqui; você vai ver algo mais. Cronenberg consegue extrair o máximo de Pattison, e o ator consegue nos deixar incomodados com esse personagem tão vil. Aliado à atmosfera claustrofóbica que o cerca, Pattison torna-se a imagem hedionda e enervante de um genuíno homem de poder contemporânea, consumido pela matéria e totalmente desprovido de alma.

O restante do elenco é passageiro, como muitos elementos do filme. Mas outro que merece destaque — sempre! — é Paul Giamatti. A performance forte e angustiante do ator acrescenta um pouco de humanidade àquela história tão fria. Giamatti surge como contraponto de Pattison, e nos apresenta uma visão perturbadora das consequências da frieza implacável, do distanciamento emocional e da busca exagerada por perfeição. Enquanto o Eric Packer de Pattison é o apego à teórica perfeição e à simetria, o Benno Levin de Giamatti é a próstata assimétrica — a prova viva de que nem tudo é perfeição.

O filme é como um embate de significados — o rico contra o pobre, o belo contra o feio, o são contra o louco, a virtude contra o vício — que roda numa espiral de insanidade fantástica, destilando sarcasmo e cinismo sobre um mundo fundamentado pelo dinheiro, onde o presente torna-se raivosamente mais rápido, super-povoado por pessoas que não conseguem (ou não sabem) como viver. O dinheiro, inclusive, é o tempo todo menosprezado, tão degradante quanto o cadáver podre de um “rato”.

Cosmópolis é uma única cidade. E todas. Cheia de gente. E coisas. Pulsando. E pulsando. Mas sem realmente estar viva. O lugar é Nova Iorque, mas sem qualquer noção de espaço. Tudo parece perto e ao mesmo tempo longe. Lugares e personagens são vistos basicamente pelos vidros da limousine de Eric, que aos poucos vai ficando embaçado, assim como nossa visão vai se deturpando no decorrer da vida com a perda da inocência, quando aqueles ideais puros que nos levaram a algum lugar são conquistados e deixam de ter relevância frente à perda daquilo mais importante para qualquer pessoa — sua sociabilidade.

Cronenberg consegue extrair de sua história discursos realmente impactantes sobre a sociedade contemporânea e a vida fria e ordenada num grande centro urbano. Eric é um homem que tem tudo, aparentemente inatingível, para quem até mesmo o presidente significa nada. Ele é o epíteto de tudo o que a sociedade atual pode ser ou representar.

Eric no fundo é um homem tentando reencontrar sua humanidade, sua capacidade de sentir e de relacionar com os outros. É um homem tão dominado pela rotina e pela riqueza e pela vida ordenada de sua selva de pedra pessoal que, apenas para escapar um pouco, decide cruzar a cidade para cortar o cabelo. E que melhor lugar para encontrar um pouco de calor humano e sociabilidade do que num barbeiro do tipo antiquado e pobretão?! Melhor que isso, só num táxi!

O diretor nos oferece ainda um olhar apurado sobre o tempo e o espaço, todos os tempos e todos os espaços, que parecem fluir entrelaçados em seu mundo atemporal. Em momento algum fica claro em que ano se passa a história, que parece acontecer ao mesmo tempo no presente e no futuro.

Sim, Cosmópolis é quase uma ficção cientifica, das mais existencialistas, do tipo que prega que estamos sujeitos ao tempo, da mesma forma que o sujeitamos a nós; especialmente numa cidade contemporânea, onde estamos sempre tão presos a superficialidades e anseios frios, que muitas vezes não conseguimos desacelerar e desfrutar um pouco do tempo que temos no mundo. Vivemos e morremos, mas estamos sempre tão preocupados em ser ricos ou pobres que dificilmente olhamos para os significados disso. O que isso significa? O que tudo significa? É a questão chave do filme. Talvez signifique muito. Talvez signifique nada.

Não é um filme facilmente palatável e, para muitos pode até ser cansativo devido à enxurrada audiovisual de informações que jorram de cada cena, cada diálogo bizarro, cada intenção obscura, cada ruído agonizante da brilhante trilha sonora de Howard Shore. É um filme quase odioso, de um jeito bom, porque é tão consciente quanto sem sentido. E não é fácil acompanhar tanta insanidade.

Tudo isso para, finalmente, chegarmos a uma conclusão em que presente e futuro parecem se encontrar, em que o tempo pode ou não resolver as diferenças sobre ser ou não ser humano. Assim mesmo, isso fica aberto as mais variadas interpretações. Essa é justamente a beleza da coisa. Interpretar. Vivemos numa sociedade tão ordeira e apática que as vezes esquecemos o quão importante é a interpretação. Pois é através das diversas interpretações dos diversos significados das diversas existências que conseguimos ser o que somos. Sem isso, somos apenas uma limousine ultra-tecnológica vagando a esmo por uma cidade-universo decadente e desesperadora.

[bb]



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