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Anjo Mecânico

Anjo Mecânico

O sucesso da série Os Instrumentos Mortais deu origem ao spin-off As Peças Infernais, que conta a história dos Caçadores de Sombras durante na época da Inglaterra Vitoriana, com direito a toques de steampunk.

Metamorfos, vampiros, demônios, monstros mecânicos, humanos maquiavélicos, e vários outros elementos sobrenaturais da série anterior ganham ainda mais força aqui, apresentadas numa época do passado mais cavalheiresca e (mesmo assim) sombria do que a época atual. A atmosfera vitoriana favorece história sobre mistérios ou indivíduos obscuros. Não é à toa que a Era Vitoriana é o terreno de figuras ilustres da literatura como Drácula ou Dorian Gray ou Dr. Jekyll e Mr. Hyde.

As Peças Infernais, vol. 1: Anjo Mecânico (The Infernal Devices, vol. 1: Clockwork Angel, 2010) apresenta uma nova saga dos Caçadores de Sombras contra esses montes de criaturas sobrenaturais do submundo fantástico criado por Cassandra Clare. Uma saga que consegue ser bastante superior à original. Sim, porque Anjo Mecânico é melhor do que Cidade dos Ossos e reflete a clara evolução da autora como contadora de histórias — experiência obtida justamente com Os Instrumentos Mortais. A própria narrativa aqui é mais fluida e envolvente, e vai direto ao que interessa, sem floreios desnecessários. Ou seja, é um livro rápido e simples de ler.

A protagonista chama-se Tessa Gray, uma jovem órfã que se muda para Londres, onde descobre ter poderes únicos de metamorfose. Além de aprender a usar os novos poderes, Tessa acaba envolvida com os Caçadores de Sombras para encontrar o irmão desaparecido Nathaniel e ainda precisa lidar com o temperamental Will Herondale e o frágil Jem Carstairs.

Os personagens são o grande charme da trama — como é comum nos livros da Cassandra Clare. O destaque fica por conta do trio principal: Tessa, Will e Jem.

E na protagonista temos a primeira melhoria óbvia. Se em Cidade dos Ossos, Clary é uma chata sem graça, em Anjo Mecânico, Tessa é apaixonante. Ela é uma espécie de metamorfa, uma criatura sobrenatural do Submundo capaz de usar a habilidade chamada Transformação. Porém, ninguém, nem mesmo ela, consegue compreender de onde vem tal poder. E ela o descobre da pior forma possível, através de treinamento cruel das macabras Irmãs Sombrias.

Tessa é construída devagar como uma personagem cheia de conceitos antiquados típicos de uma mulher vitoriana. Em alguns momentos, sua forma de pensar parece um pouco estereotipada, mas no geral é bem desenvolvida. A única coisa irritante de Tessa é que pra tudo ela pensa na tia Harriet (que morreu), muitas vezes coisas bobas, mesmo em situações de vida ou morte. Mas, apesar desses momentos, Tessa é uma protagonista corajosa, ponderada, esperta e mais adulta — diferente da imprudência infantil (e meio idiota) da Clary — e tem um final DOS MAIS SENSACIONAIS. O que ela faz com o poder de Transformação dela no desfecho do livro é realmente de tirar o chapéu!

Tessa ainda cultiva uma dose de ingenuidade atraente, que não descamba pra burrice. Isso é bom, pois gera contradições para a personagem, especialmente no que diz respeito as interações com Will.

E isso nos leva ao personagem mais enigmático — e carismático — do livro. Will Herondale. Jace, sou seu fã, mas me desculpe… Agora sou TEAM WILL! Que personagem foda! Ele é a contradição em pessoa; parece estar sempre contando alguma mentira pra esconder quem é ou o que realmente sente, mas, ao mesmo tempo, nunca fica claro se o que ele fala são de fato mentiras. Ele adora uma boa bravata. E como eu adoro boas bravatas! E a obsessão dele pela tal da Varíola Demoníaca é divertida pra caramba!

Pouca coisa da história de Will é revelada nesse livro, detalhes que devem ser mais explorados nas continuações da série. Seus sentimentos em relação à Tessa são tratados da mesma forma, com ar de incerteza. Nem mesmo olhando a história pelo ponto de vista do personagem conseguimos saber exatamente o que ele está pensando. E por isso mesmo, Will é um dos melhores personagens criados até agora pela autora. Fora o fato de que ele também é fodão na hora da porradaria contra autômatos, vampiros, demônios ou o que quer que cruzar seu caminho!

Como dá pra ver pelo nome Herondale, muitos nomes das famílias dos Caçadores de Sombras citadas em Os Instrumentos Mortais também aparecem em As Peças Infernais. Boa socada, pois traça paralelos entre as duas sagas, estabelecendo relações de descendência e parentesco entre personagens.

E temos ainda a participação ilustre de Magnus Bane, dando o ar da graça mais de cem antes de sua providencial aliança com Clary Fray e Jace Wayland. Magnus continua um personagem providencial para a trama dos Caçadores de Sombras. Não só pelo brilho sacana que concede pra história, mas por fortalecer o cenário. E aqui ele ainda demonstra um apreço todo especial por perturbar a vida de Will. Isso também é divertido!

O aspecto steampunk é bem limitado, nem chega a ser um steampunk de fato, resumindo-se basicamente aos autômatos e às engenhocas de Henry Bronwell — um dos responsáveis pelo Instituto dos Caçadores de Sombras em Londres e, junto com Will, um dos melhores personagens do livro com seu jeitão de cientista-desmiolado-mas-inteligente.

Para além do steampunk quase inexistente, o cenário é bem convidativo e também reflete um pouco da evolução de Clare na escrita. Ela constrói o pano de fundo de sua narrativa com citações de lugares e costumes da época, sem, contudo, se perder num mar de coisas e referências. A história consegue ainda tratar de assuntos relativos ao comportamento humano, como a sede pelo conhecimento que muitas vezes leva à corrupção. Conhecimento é poder e o poder às vezes corrompe. Cassandra Clare trabalha essa ideia de forma bastante concisa e pessimista, algo que reforça ainda mais o cenário sombrio. E a Cassandra tem problemas com irmãos. Fato!

No todo, Anjo Mecânico é um livro com uma história bem trabalhada e personagens cativantes. É muito difícil sentir tédio durante a leitura graças às boas doses de ação, mistério e reviravoltas da trama. Os Caçadores de Sombras continuam fascinantes, agora com algumas engrenagens a mais movendo suas asas angelicais.

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