Prometheus

Alan Barcelos 14/06/2012 2

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Segundo a mitologia grega, Prometeu era um titã que teria criado o primeiro homem a partir do barro e zelado pela humanidade, tendo lhes fornecido o fogo e lhes ensinado várias artes. As versões do mito variam, mas, no geral, Prometeu é visto como um criador.

Prometheus (2012) aborda essa premissa — a criação da humanidade. Porém, não trabalha somente com a ideia de criação, trata também de recriação. No caso aqui, a recriação de um mito, não o grego, o cinematográfico.

O filme traz o diretor Ridley Scott de volta à ficção científica, em parceria com Damon Lindelof (um dos homens por trás de Lost), que co-escreveu o roteiro. Em muitos aspectos, a história é conduzida como que planejada para os fãs de Alien – O Oitavo Passageiro. A proposta parte de uma ligação sutil com Alien, e muda a mitologia para uma direção nova. Prometheus segue a fórmula de Alien em muitos aspectos e deixa vários easter eggs espalhados pelo roteiro, facilmente reconhecíveis por um fã da franquia.

O caminho diferente parece ser nitidamente influência de Lindelof. O roteirista insere na trama o conceito filosófico da busca pelo criador da humanidade, por um suposto Deus, por um suposto Prometeu. Digo “influência visível” porque é parecido com o que Lindelof fez em Lost, quando a ficção científica surgia carregada por temas espiritualistas e referências mitológicas/religiosas.

Prometheus é impregnado com os visuais exuberantes de Scott e as ideias de Lindelof, que abrem espaço para discussões sobre questões como o desejo inerente dos filhos que querem superar os pais, ou a incapacidade que nós humanos muitas vezes enfrentamos quando queremos encontrar respostas para as grandes questões da vida — de onde viemos, o que somos, pra onde vamos. Prometheus transpira questionamento existencial o tempo todo. O roteiro inteligente não alcança tanto a profundidade de um 2001 – Uma Odisseia no Espaço ou de um Árvore da Vida, mas consegue cumprir sua proposta com habilidade.

Mas o prazer real está justamente naquilo que fazia Alien – O Oitavo Passageiro ser superior. A ficção científica. Genuína, tensa e bizarra. Aquela ficção científica old school, feita pra explorar o impacto da ciência sobre a humanidade, assim como as catástrofes que podem acontecer quando os humanos tentam valer-se da ciência para serem deuses. A ficção científica não tão voltada para a ação ou para a comédia, mas aquela voltada para o horror — como o próprio Alien. O longa não é necessariamente feito para dar sustos, é mais para incomodar e causar estranheza (põe estranheza nisso). Além disso, ainda que seja visivelmente uma prequel, Prometheus ambiciona outros ares e universos além daquele que conhecemos do Universo Alien.

Alguns pontos merecem destaque. O 3D é sensacional, um dos melhores que já vi. A sequência de abertura, com um ser pálido sofrendo com uma angústia numa cachoeira e seu DNA se replicando e se destruindo, é belíssima — ainda que não seja realmente essencial para a trama.

O desempenho de Michael Fassbender como o andróide David, cheio de movimentos nítidos e expressões faciais deliberadamente vazias, é fascinante. David permanece o filme inteiro como uma figura enigmática, que ganha ainda mais força quando os acontecimentos da história começam a encontrar seus desfechos. Cabe aqui ainda a percepção que o andróide traz para o aspecto ficção científica existencial da narrativa, especialmente quando o vemos tentando imitar o personagem de Peter O’Toole enquanto assiste ao filme Lawrence da Arábia (nessa cena, além da metalinguagem óbvia, ainda temos a chance de ver o 3D dentro do 3D, fantástico). David é uma máquina, uma criatura sem alma, que, no fundo, deseja ser humano, sentir como um humano, ter a chama que os humanos têm dentro de si — a chama que Prometeu concedeu apenas aos humanos. Não fica muito longe do Frankenstein, de Mary Shelley.

Do outro lado, está Noomi Rapace, como a cientista Elizabeth Shaw, que se mostra igualmente excepcional. Junto com seu namorado e companheiro, Charlie Holloway (Logan Marshall-Green), a doutora descobre desenhos rupestres antigos que apontam para uma galáxia distante, onde supostamente estariam o que ela chama de Engenheiros, os criadores da humanidade. O tal planeta onde o grupo expedicionário desemboca, chamado LV-223, é um velho conhecido dos fãs de Alien – O Oitavo Passageiro, e no futuro receberá o nome de LV-426 (repare na relação entre os nomes). Aliás, reparem também na mensagem de alerta que Elizabeth deixa no final e tente se lembrar o porquê da nave Nostromo ter pousado naquele planeta no filme de 79 — associa pra ver como é DE EXPLODIR O CÉREBRO. Aliás (de novo), o final em si é DE EXPLODIR O CÉREBRO.

A Dra. Shaw torna-se ainda uma versão alternativa da nossa tão estimada Tenente Ellen Ripley. Começa passiva, mais como uma pesquisadora e uma intelectual, e torna-se ativa e badass à medida que as circunstâncias exigem, inclusive fazendo coisas que remetem a Tenente Ripley, coisas grotescas, mas que fundamentam a índole da personagem.

Na nave da expedição, temos ainda as boas participações de Idris Elba, como o carismático piloto Janek, da sempre LINDA Charlize Theron, como a odiosa Meredith Vickers, e do quase irreconhecível Guy Pearce, como o velhote holográfico Peter Weyland — sim, o dono da infame corporação Weyland-Yutani, que vivia atazanando a vida da Ripley nos filmes da série Alien.

De todas as atuações, a mais subaproveitada, infelizmente, é Charlize Theron. Sua personagem, apesar de todo o cacife, não tem razão de ser real na história do filme. O motivo seja talvez por causa da confusão que foi a produção de Prometheus. A ideia inicial, na verdade, era que seriam feitas duas prequels de Alien, mas não rolou. Então, a Fox e o diretor Ridley Scott mudaram tudo devido às constantes divergências criativas. Quando ficou decidido que o filme sairia do papel, Scott queria Noomi Rapace como protagonista e a Fox, Charlize Theron. Para agradar gregos e troianos, puseram as duas. Porém, Theron acabou um pouco preterida, pois tiveram que dar um jeito de inseri-la na história. Ainda assim, ver Charlize Theron é VER CHARLIZE THERON.

Uma vez que a nave Prometheus aporta no planeta, a ação transcorre concisa, com os exploradores entrando em cavernas subterrâneas e descobrindo os mistérios por trás do local, nos dando aquela previsão do caos que sabemos que está por vir — como acontecia em Alien. Quando finalmente vemos o caos acontecer, vemos também o desenvolvimento da protagonista e dos conflitos Criador Vs. Criatura, Humano Vs. Máquina, Fé Vs. Ciência. No fim, os desfechos impulsionados pela Dra. Shaw e pelo andróide David, que tomam para si o centro da narrativa, deixam espaço aberto para discussões intrigantes acerca dos acontecimentos e das descobertas da trama. Sim, o final é deixado parcialmente em aberto, para nossa livre interpretação, para que tiremos nossas próprias conclusões. Ao mesmo tempo, fica claro que as pontas soltas visam uma continuação, na qual algumas questões certamente serão explicadas mais a fundo. A forma como o desfecho é apresentado, aliás, lembra muito outra obra que mistura ficção e espiritualidade, uma das animações japonesas mais sensacionais que já vi: Neon Genesis Evangelion. Ainda que não tenha servido realmente de inspiração, Prometheus cultiva algumas semelhanças com Evangelion, especialmente quando descobrimos certas verdades sobre os Engenheiros.

Prometheus surge como um filme emblemático, autoral, feito em muitos aspectos para fãs de Alien e fãs de ficção científica. É uma recriação de uma ideia, o criador remodelando sua criatura, não com barro, mas com efeitos visuais impressionantes, personagens fortes e narrativa intrigante. Temos um Prometeu de volta. Mas, acima de tudo, temos uma nova Chama.

[bb]

Alan Barcelos

Apaixonado por cultura pop, cafeína e cerveja. Tentou ser taverneiro, desenhista, lutador de rua e shinigami. Não deu certo, acabou virando jornalista.

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Comentários


2 Comentários »


  1. Daniel Feitoza 18/06/2012 at 11:07 - Reply

    Ótima resenha, meu amigo!

  2. Cartazdacultura 24/06/2012 at 12:00 - Reply

    Doido para ver, Ridley Scott parece que voltou a fazer filme bom. O seu anterior, Robin Hood, foi horrível.