Cinema

Prometheus

História segue uma equipe de cientistas em busca de desvendar o mistério da origem da humanidade na Terra. Eles viajam a bordo da nave Prometheus rumo aos confins do universo, uma jornada que testará seus limites físicos e mentais.

(Prometheus) – Ficção Científica. Estados Unidos, 2012.

De Ridley Scott. Com Noomi Rapace, Michael Fassbender, Guy Pearce, Idris Elba, Logan Marshall-Green e Charlize Theron. 2h04min. Distribuidora: Fox Films. Classificação: 16 anos.

Nível Exemplar

Prometheus


A chama da criação

Segundo a mitologia grega, Prometeu era um titã que teria criado o primeiro homem a partir do barro e zelado pela humanidade, tendo lhes fornecido o fogo e lhes ensinado várias artes. As versões do mito variam, mas, no geral, Prometeu é visto como um criador.

Prometheus aborda essa premissa – a criação da humanidade. – Porém, não trabalha somente com a ideia de criação, trata também de recriação. No caso aqui, a recriação de um mito; não o grego, o cinematográfico.

O filme traz o diretor Ridley Scott de volta à ficção científica, em parceria com Damon Lindelof (um dos homens por trás de Lost), que co-escreveu o roteiro. Em muitos aspectos, a história é conduzida como que planejada para os fãs de Alien: O Oitavo Passageiro. A proposta parte de uma ligação sutil com a franquia, e muda a mitologia para uma direção nova. Prometheus segue a fórmula de Alien em muitos aspectos e deixa vários easter eggs espalhados pelo roteiro.

O caminho diferente parece ser nitidamente influência de Lindelof. O roteirista insere na trama o conceito filosófico da busca pelo criador da humanidade, por um suposto Deus, por um suposto Prometeu. Digo “influência visível” porque é parecido com o que Lindelof fez em Lost, quando a ficção científica surgia carregada por temas espiritualistas e referências mitológicas/religiosas. Por um lado, é algo que ajuda a enriquecer a história. Por outro, às vezes concede peso desnecessário à trama. Os problemas dessa abordagem em Prometheus, inclusive, são similares aos de Lost. O excesso acaba esvaziando a premissa em alguns momentos. O roteiro não alcança tanto a profundidade de, por exemplo, 2001: Uma Odisseia no Espaço ou Árvore da Vida, mas consegue cumprir sua proposta.

O filme é impregnado com os visuais exuberantes de Scott e as ideias de Lindelof, que abrem espaço para discussões sobre questões como o desejo inerente dos filhos que querem superar os pais, ou a incapacidade que nós humanos muitas vezes enfrentamos quando queremos encontrar respostas para as grandes questões da vida: de onde viemos, o que somos, pra onde vamos.

O prazer real, contudo, está naquilo que fazia Alien: O Oitavo Passageiro ser superior. A ficção científica. Genuína, tensa e bizarra. Aquela ficção científica old school, feita pra explorar o impacto da ciência sobre a humanidade, assim como as catástrofes que podem acontecer quando os humanos tentam se valer da ciência para serem deuses. A ficção científica não tão voltada para a ação ou para a comédia, mas aquela voltada para o horror. O longa não é necessariamente feito para dar sustos, é mais para incomodar e causar estranheza. Há problemas nesse sentido, principalmente quando personagens especialistas em suas áreas demonstram completa inabilidade para lidar com situações que seriam corriqueiras para sua área de atuação – como um geólogo se perde tão facilmente em uma caverna? – Essa inaptidão dos personagens, que às vezes beira a estupidez, afeta a credibilidade da história em vários momentos. Ainda assim, o filme tenta se manter firme para trilhar seus objetivos. Ainda que seja visivelmente uma prequel, Prometheus ambiciona outros ares e universos além daquele que conhecemos da mitologia de Alien.

Alguns pontos merecem destaque. A sequência de abertura, com um ser pálido sofrendo de angústia em uma cachoeira com seu DNA se replicando e se destruindo, é belíssima! Como um prólogo, é pouco essencial para a trama, mas ainda é uma maravilha visual inestimável.

O desempenho de Michael Fassbender como o sintético David, cheio de movimentos nítidos e expressões faciais deliberadamente vazias, é fascinante. David permanece o filme inteiro como uma figura enigmática, que ganha ainda mais força quando os acontecimentos da história começam a encontrar seus desfechos. Cabe aqui ainda a percepção que o androide traz para o aspecto ficção científica existencial da narrativa, especialmente quando o vemos tentando imitar o personagem de Peter O’Toole enquanto assiste ao filme Lawrence da Arábia. David é uma máquina, uma criatura sem alma, que, no fundo, deseja ser humano, sentir como um humano, ter a chama que os humanos têm dentro de si – a chama que Prometeu concedeu apenas aos humanos. – Não fica muito longe do Frankenstein, de Mary Shelley.

Do outro lado, está Noomi Rapace como a cientista Elizabeth Shaw, que se mostra igualmente excepcional. A doutora descobre desenhos rupestres antigos que apontam para uma galáxia distante, onde supostamente estariam o que ela chama de Engenheiros, os criadores da humanidade. O planeta onde o grupo expedicionário desemboca, chamado LV-223, é um velho conhecido dos fãs de Alien: O Oitavo Passageiro, e no futuro receberá o nome de LV-426 (repare na relação entre os nomes). Aliás, reparem também na mensagem de alerta que Elizabeth deixa no final e tente se lembrar o porquê da nave Nostromo ter pousado naquele planeta no filme de 1979. As conexões são instigantes.

A Dra. Shaw torna-se ainda uma versão alternativa da Tenente Ellen Ripley. Começa passiva, mais como uma pesquisadora e uma intelectual, e torna-se ativa e fodona à medida que as circunstâncias exigem, inclusive fazendo coisas que remetem à Tenente Ripley, coisas grotescas, mas que fundamentam a índole da personagem.

Na nave da expedição, temos ainda as boas participações de Idris Elba como o carismático piloto Janek, Charlize Theron como a odiosa Meredith Vickers, e do quase irreconhecível Guy Pearce como o velhote holográfico Peter Weyland, o dono da infame corporação Weyland-Yutani, que vivia complicando a vida de Ripley nos filmes da série Alien.

De todas as atuações, a mais subaproveitada é Charlize Theron. Sua personagem, apesar de todo o cacife, não tem razão de ser real na história. O motivo talvez seja por causa da confusão que foi a produção de Prometheus. A ideia inicial, na verdade, era que seriam feitas duas prequels de Alien, mas não rolou. A Fox e o diretor Ridley Scott mudaram tudo devido às constantes divergências criativas. Quando ficou decidido que o filme sairia do papel, Scott queria Noomi Rapace como protagonista, e a Fox, Charlize Theron. Para agradar a gregos e troianos, puseram as duas. Porém, Theron acabou preterida, pois tiveram que dar um jeito de inseri-la na trama. Ainda assim, ver Charlize Theron em cena é VER CHARLIZE THERON EM CENA.

Quando a nave Prometheus aporta no planeta, a ação transcorre para desenvolver a protagonista e os conflitos Criador vs. Criatura, Humano vs. Máquina, Fé vs. Ciência. Os desfechos impulsionados pela Dra. Shaw e pelo sintético David, que tomam para si o centro da narrativa, deixam espaço aberto para discussões intrigantes acerca dos acontecimentos e das descobertas da trama. O final é deixado parcialmente em aberto, para nossa livre interpretação, para que tiremos nossas próprias conclusões. Ao mesmo tempo, fica claro que as pontas soltas visam uma continuação.

Prometheus surge como um filme emblemático, autoral, feito em muitos aspectos para captar a mitologia de Alien e de uma nova perspectiva de universo. É a recriação de uma ideia, o criador remodelando sua criatura, não com barro, mas com efeitos visuais impressionantes, personagens fortes e narrativa intrigante. O que temos é um Prometeu de volta. Mas, acima de tudo, temos uma nova Chama.

Prometheus

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Prometheus

Prometheus Alan Barcelos



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  • http://dicaaleatoria.wordpress.com Daniel Feitoza

    Ótima resenha, meu amigo!

  • http://cartazdacultura.com/ Cartazdacultura

    Doido para ver, Ridley Scott parece que voltou a fazer filme bom. O seu anterior, Robin Hood, foi horrível.

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