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Os Anos de Ouro da Pulp Fiction Portuguesa

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Os Anos de Ouro da Pulp Fiction Portuguesa

Não é segredo para ninguém que acompanha as histórias em quadrinhos que aquela mídia teve como antecedente os contos aventurescos publicados em revistas impressas em papel barato, feito com a parte menos nobre da madeira, a polpa. Se pensarmos que as tiras de jornais seriam a mãe, a chamada literatura pulp fiction ocuparia o lugar de avó das HQs.

E o desenvolvimento desse tipo de ficção ocorreu principalmente no mercado dos EUA, nos anos que se seguiram à Depressão da década de 30, dando origem a uma indústria que repercute ainda nos dias de hoje em todo o mundo.

Mas e o que aconteceria se essa fonte inesgotável de ideias também houvesse ocorrido com igual força em outros mercados? E se, por exemplo, em Portugal ocorresse um período áureo de produção e de consumo daquela literatura escrita e pensada na língua que temos em comum?

Uma resposta possível aparece de forma intricadamente elaborada no livro Os Anos de Ouro da Pulp Fiction Portuguesa: Os Melhores Contos do Século XX (2011), publicado em Portugal pela Saída de Emergência , que não se contentou apenas em reunir 13 textos recentes escritos naquele estilo literário; também recriou a própria história do país europeu e de sua relação com a literatura de entretenimento.

A própria capa da antologia lusitana demonstra a proximidade entre a ficção de polpa e as HQs. Aquele é o Sombra que aparece pegando um táxi lisboeta, personagem que nasceu na rádio e nas revistas pulp e já ganhou graphic novel pela Marvel, série pela DC e vai ganhar em breve revista pela Dynamite.

Resultado de um trabalho que levou quatro anos para ficar pronto, desde que foi anunciada a chamada dos contos até a publicação, a obra partiu de um projeto do também escritor Luís Filipe Silva. Ele não só elaborou uma introdução geral sobre o tema, como ainda fez biografias dos autores, comentários sobre cada conto publicado, notas de agradecimento… tudo completamente ficcional.

O cuidado na confecção dessa história alternativa não poupou minúcias, como supostas fotos dos autores e das capas das revistas ou ainda a diagramação que em vários momentos simula fac-símiles de publicações de décadas atrás, com direito a publicidade de época e tudo o mais.

O grande detalhe é que tudo isso foi feito da forma mais convincente possível e sem ser desmentido em momento algum nas páginas do livro. Algo que só foi possível com o apoio total de Luís Corte Real, editor da Saída de Emergência, selo responsável pela publicação de obras de ficção científica e fantasia em terras lusitanas. Sabe a tradução que sai no Brasil da série de livros Game of Thrones? Pois ela é uma adaptação do trabalho do português Jorge Candeias que originalmente foi publicada lá por aquela editora.

A peça acabou sendo levada a sério por alguns blogs de resenhas que realmente acreditaram na veracidade das informações sobre o fictício período dourado da pulp fiction lusa. E, de fato, para perceber a armação é preciso realizar um trabalho quase detetivesco.

Algumas pistas para desvendar o jogo metafórico dos dois Luíses estava nos textos supostamente escritos ao longo do século 20. Se a datação fosse mesmo real, haveria uma mistura maior das várias reformas ortográficas que o português passou nas últimas décadas. Basta comparar com os informes publicitários que surgem aqui e ali, com consoantes duplas e acentos que caíram em desuso.

Outra evidência vem da parte gráfica. Algumas páginas com os contos simulam que foram copiadas de publicações antigas, envelhecidas. Caso olhem atentamente, os leitores podem perceber que certas manchas e dobraduras, certamente feitas de maneira digital com filtros de computador, se repetem, o que não ocorreria se elas fossem naturais.

Mesmo com os dados pontualmente ficcionais, é preciso dizer que no aspecto mais geral os textos de autoria de Luís Filipe Silva só são tão convincentes porque amparados realmente numa pesquisa sólida. Funcionam como uma grande homenagem e referência ao que foi de fato a literatura popular, baseada em histórias escapistas, de forma semelhante ao que o americano Michael Chabon fez no romance As Incríveis Aventuras de Kavalier e Clay, ou o que o britânico Alan Moore criou em relação às HQs de piratas em Watchmen.

E não foi apenas uma homenagem em termos de conteúdo. A forma com que o organizador da coletânea escreveu também remete às antigas histórias de pulp fiction, com reviravoltas nas biografias dos autores, dúvidas em relação a verdadeiras identidades, momentos de tensão… Tais trechos acabam, no mínimo, sendo tão interessantes quanto os contos assumidamente ficcionais do livro.

Por falar nos contos, alguns merecem destaque. Caso do último e maior de todos, a aventura espacial Mais do Mesmo!. Ela foi escrita de modo a desconstruir a imagem de personagens como Flash Gordon e Buck Rogers. O autor é João Barreiros, que a quatro mãos como o próprio Luís Filipe Silva já havia criado aquele que é considerado o melhor livro de ficção científica em língua portuguesa: Terrarium.

Outro texto que vale a pena comentar é de autoria de um brasileiro, Horror em Sangre Cristo. Apesar de creditado a um certo Maxwell Gun, pseudônimo de um engenheiro nascido nos anos 30, este faroeste fantástico no estilo do fumetto Mágico Vento é obra do jovem advogado paulista Marcelo Augusto Galvão. Para quem gosta, por exemplo, do estilo de um Robert E. Howard, o criador de, entre outros, Conan, é um prato cheio esta aventura que se passa no Velho Oeste americano.

No livro há ainda espaço para um vigilante mascarado que atua em Portugal nos mesmos moldes de Batman, com cinto de utilidades e tudo, e para um bárbaro semelhante ao citado Conan. Respectivamente, O Sentinela e o Mistério da Aldeia dos Pescadores, de Orlando Moreira, e O Amaldiçoado de Ish-Tar, de Artur Carvalho, este último protagonizado por Valeriam, um gigante albino adorador do deus Morc (Crom, ao contrário, a divindade maior do personagem de Howard).

Piratas, aventureiros das selvas, detetives durões, soldados combatendo nazistas, monstruosidades genéticas também aparecem nas mais de 400 páginas de Os Anos de Ouro da Pulp Fiction Portuguesa, um livro indicado para quem sempre desejou que tivéssemos uma indústria de entretenimento em língua portuguesa comparável a que existe em inglês.

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