John Carter – Entre Dois Mundos

Alan Barcelos 09/03/2012

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John Carter

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Demorou, mas, enfim, temos uma adaptação cinematográfica de Uma Princesa de Marte, de Edgar Rice Burroughs, o mesmo criador do Tarzan. A obra inspirou várias outras de ficção-científica, por isso, as comparações serão inevitáveis. Mas, digo logo que John Carter é maior do que isso.

John Carter – Entre Dois Mundos (John Carter, 2012) é o primeiro longa dirigido por Andrew Stanton (egresso da Pixar) a utilizar de atores reais. O cineasta parece ter trazido uma paixão especial para a produção, não só pelo material original, mas também pelas artes visuais que consagraram a Pixar no mercado cinematográfico das animações.

De cara, somos apresentados ao grandioso cenário da trama, o planeta Marte — chamado pelos nativos de Barsoom. Numa vertiginosa batalha aérea, somos apresentados a uma guerra ancestral entre reinos rivais, com direito a criaturas estranhas, naves com asas de inseto que “navegam na luz” e metrópoles que se erguem imponentes sobre desertos ressequidos.

Descobrimos que as nações de Helium e Zodanga, respectivamente dos marcianos vermelhos e azuis, estão em guerra por causa das maquinações de uma entidade antiga, Matai Shang (Mark Strong). Cada cidade é governada por um jeddak — o mesmo que rei. Para aplacar a batalha, o jeddak de Helium, Tardos Mors (Ciarán Hinds) tenta uma trégua com o jeddak de Zodanga, Sab Than (Dominic West); Mors oferece a mão de sua filha, Dejah Thoris (Lynn Collins) em casamento para o inimigo.

Então, somos levados a Terra — ou Jasoom —, onde conhecemos John Carter (Taylor Kitsch), um homem com passado doloroso, confuso, cansado da guerra, que perdeu a fé nas pessoas. Perseguido por inimigos, ele acaba sendo transportado para Marte — não estranhe se você perceber semelhanças com Cowboys & Aliens, pois o cenário é o mesmo, até o ouro ainda tá lá no teto da caverna. :-P

Em Marte, John Carter conhece primeiramente a tribo dos Thark, que são liderados por Tars Tarkas (Willem Dafoe, irreconhecível pelos efeitos visuais). Não demora muito até que a Princesa Dejah Thoris cruze o caminho do terráqueo. Logo, John Carter se vê lutando pela sobrevivência ao lado de Helium contra Zodanga.

Em seu primeiro filme de ação live-action, Andrew Stanton, que trabalhou em Wall-E e Procurando Nemo, conseguiu criar um espírito único para Barsoom. Não é tanto como uma animação da Pixar; está mais para os filmes animados de Hayao Miyazaki — como Nausicaä do Vale do Vento ou A Viagem de Chihiro —, vide a cidade gigante que se move com um caranguejo, os espíritos místicos metamorfos que conspiram nas sombras ou mesmo o adorável cachorro alienígena Woola, que segue Carter para todo lado e corre numa velocidade absurda.

A própria Barsoom pega emprestado características do Egito Antigo, Grécia, Roma, assim como de muitos clássicos da literatura, como Viagem ao Centro da Terra, de Júlio Verne, ou Duna, de Frank Herbert — aliás, os olhos de alguns personagens do filme são tão azuis que era quase como se estivessem em Arrakis, rodeados pela Especiaria. Não só isso, John Carter ainda lembra muito seriados antigos, como Flash Gordon, ou épicos mitológicos como Jasão e os Argonautas — com um herói sem motivação, algo raro no cinema moderno, onde até mesmo os heróis mais tradicionais precisam ter algum propósito.

Quanto às atuações, Taylor Kitsch e Lynn Collins têm química. Kitsch dá um tom plausível de liderança para Carter, que não quer tomar partido, mas acaba se envolvendo mais e mais. E Collins é impressionante como a Princesa de Marte, forte e independente, mas, ao mesmo tempo, fragilizada por suas próprias convicções para com seu povo. Com presença marcante e habilidades valiosas com espada, ela mostra-se mais do que um simples interesse romântico para o herói.

O filme, naturalmente, tem problemas. O 3D é quase imperceptível, apenas provocando alguns relances de profundidade, nada mais. E os vilões são interpretados de forma evasiva e desinteressante por Mark Strong e Dominic West. As politicagens são confusas e até mesmo desconcertantes, salvas normalmente pelas boas doses de humor do roteiro. Ver o herói ser chamada de “Virgínia” o tempo todo por causa de um mal-entendido é divertido, e vê-lo tomar um “pedala” na nuca por causa de outro mal-entendido é sensacional! :-)

No mais, John Carter é absurdamente bonito em termos visuais, com cenas bem filmadas e direção de arte admirável. O longa usa computação gráfica de qualidade numa produção com ares de antiguidade — um valor justo se considerada a época de origem do herói John Carter na literatura. É um filme sobre lealdade e heroísmo puro, que não tenta ser um épico da ficção-científica como Avatar — prefere ser mais como um Piratas do Caribe (no deserto!). De fato, há o nítido propósito de se criar uma nova franquia com John Carter, como havia com Jack Sparrow. Não vou me espantar se os 11 livros escritos por Burroughs forem transformados numa trilogia. Fico até animado com esta possibilidade!

Sim, eu gostei bastante de John Carter. Saí da sessão com vontade de sentar numa mesa de RPG com amigos e jogar Dark Sun — se você conhece o RPG Dungeons & Dragons, sabe do que estou falando. Aliás, reparem na pronúncia: Dark Sun = Barsoom! Pois é, fui fisgado pelo filme. E como não seria, com paisagens desérticas tão exuberantes e uma Princesa de Marte tão MARAVILHOSA?!

Alan Barcelos

Apaixonado por cultura pop, cafeína e cerveja. Tentou ser taverneiro, desenhista, lutador de rua e shinigami. Não deu certo, acabou virando jornalista.

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