



É notório que os cineastas brasileiros atuais estão tentando mudar o foco das histórias que transformam em filmes. Dois Coelhos surgiu no começo do ano mudando paradigmas. Reis e Ratos (2012) tem uma ideia parecida, mas com aspectos diferentes. É um filme bem peculiar. E, assim como Dois Coelhos, foi rodado com poucos recursos e aproveitando-se da criatividade para contar um momento da história do Brasil de forma bem-humorada.
A abordagem não se apega a fatos históricos verídicos, mas toma como pano de fundo o Rio de Janeiro no período anterior ao Golpe Militar de 64. O diretor Mauro Lima, de Meu Nome Não é Johnny, cria um ambiente fantasioso de conspiração onde estão inseridos o estranho agente americano Troy Somerset (Selton Mello), que vive no país, e o Major Esdras (Otávio Müller).
Como é comum em tramas sobre conspirações, o longa trata muito de questões de fidelidade, em todos os âmbitos. Troy é o principal peso nessa balança. Apesar de ser um agente da CIA, ele gosta do Brasil. Quando descobre a colaboração dos EUA para o golpe militar, o agente junta-se ao amigo major para impedir que aconteça. De outro lado, Troy é casado com a brasileira Leonor (Paula Burlamaqui), uma participação que também desperta questões no personagem sobre ser ou não ser fiel a conceitos, partidos, matrimônio, profissão. Todavia, no fim, Troy só deseja continuar fazendo seu trabalho tranquilo na calmaria brasileira.
Outra premissa por trás da história é o amor, representado por Amélia Castanho (Rafaela Mandelli), cujo sonho é encontrar o amor verdadeiro. Ao ser salva de uma explosão, o caminho dela cruza com o do locutor de rádio e médium nas horas vagas Hervê Gianini (Cauã Raymond). Amélia, no entanto, é arrastada para a conspiração pelo vigarista Roni Rato (Rodrigo Santoro), que trabalha secretamente para a dupla Troy e Esdras.
O enredo com toques de noir dá um clima especial para o cenário decadente da época, enquanto as cenas alternam entre paletas amareladas e em preto e branco de forma melancólica. Porém, não há aquela sensação constante de tragédia iminente comum ao noir. Reis e Ratos tenta levar as coisas na brincadeira. A femme fatale não é tão fatal. E os protagonistas são mais descontraídos, como se estivessem de férias — o que de fato é o objetivo de Troy, permanecer de férias para sempre. Uma prova disso são os diálogos sensacionais entre os personagens de Selton Mello e Otávio Müller, com falas rápidas e rocambolescas que divertem cada vez que os dois surgem em cena divagando sobre a vida, o universo e tudo mais.
Selton Mello, aliás, usa toda a sua habilidade vocal para fazer uma voz de taquara rachada semelhante às dublagens antigas de filmes policiais americanos. E Otávio Müller, com todo o talento que tem, acompanha sem deixar a peteca cair um instante. Mas a grande surpresa do longa é Rodrigo Santoro, que surge na tela irreconhecível e desprezível na pele do Roni Rato, algo digno de respeito para um galã como ele. A única que destoa é Rafaela Mandelli; cada vez que a menina entra em cena, a qualidade decai. Ela é muito fraquinha e parece atuar no piloto automático o tempo todo.
O filme tem seus problemas, especialmente no final, quando perde um pouco da veia cômico e tenta levar-se a sério demais. Não é algo, porém, que atrapalhe. Reis e Ratos tem valor principalmente por tentar trazer para o cinema uma nova visão sobre filmes de ditadura. Fãs deste tipo de narrativa poderão notar referências a filmes como Chinatown, Fargo, Los Angeles: Cidade Proibida, Queime Depois de Ler, Cães de Aluguel, entre outros. Mauro Lima soube como aproveitar-se das referências para construir sua história numa época decadente do Brasil.
Fico feliz por ver um resultado positivo que o cineasta obteve, afinal, espero ansioso pela adaptação cinematográfica do quadrinho Mesmo Delivery, do Rafael Grampá.


Não Tenha Medo do Escuro
Billi Pig
Anjos da Lei
Os Outros Caras
Assalto em Dose Dupla














Estou indo ver hoje. As histórias que remetem a Ditadura me interessam. Essa com humor na tônica despertou curiosidade.