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Cidade de Vidro

Cidade de Vidro

Os Instrumentos Mortais, vol. 3: Cidade de Vidro (The Mortal Instruments, vol. 3: City of Glass, 2009) é o terceiro livro para jovens adultos da autora Cassandra Clare, publicado aqui no Brasil pela Galera Record, o selo de literatura juvenil da Editora Record. É muito melhor do que o segundo e tão bom quanto o primeiro; eu diria até que é o melhor livro da trilogia.

Anteriormente, em Cidade das Cinzas (2008), pouca coisa avançou drasticamente na história. Tudo foi conduzido com parcimônia pela autora, apresentando mais do cenário do que da trama. Aqui, as coisas andam, com rapidez e impacto, trazendo o desfecho para a saga e muitas revelações, algumas previsíveis, outras nem tanto.

A revelação de que Jace era, na verdade, filho de Valentim e o comportamento tempestivo do jovem fez dele alvo da desconfiança dos familiares, amigos e da alta cúpula dos Caçadores de Sombras, a Clave. Para muitos, Jace não passava de uma arma a serviço do pai. Valentim estava mais poderoso do que nunca. O vilão havia matado os Irmãos do Silêncio para conseguir a Maellartach, a Espada Mortal, e, com ela e o sangue de seres do submundo, invocou uma horda de demônios contra os Nephilim. Após uma batalha monumental a bordo de um navio infestado de monstros, os Caçadores de Sombras saem vitoriosos, mas com problemas ainda maiores para resolver.

Em Cidade de Vidro, o cenário muda das ruas sombrias de Nova Iorque para as belezas naturais de Idris, a terra ancestral dos Nephilim. Mais especificamente, a trama é levada para a cidade de vidro de Alicante, capital de Idris. O lugar é descrito como num conto de fadas, onde tudo é perfeito e magnífico. A cultura dos Caçadores de Sombras é apresentada com detalhes, inserindo o leitor num mundo completamente alheio, onde a segregação não é apenas um estado de espírito, mas uma forma de existência. Os Nephilim vivem isolados de tudo que não é Nephilim e possuem uma cultura própria que define muito sobre suas naturezas e seus comportamentos. Aqui, entendemos porque os Caçadores de Sombras são o que são.

Os personagens são melhores trabalhados neste livro e muitos passam por um crescimento considerável.

Mas, vou começar pela única que parece não evoluir, a protagonista Clary. Como personagem principal, qualquer um esperaria por um amadurecimento da parte dela, porém, o problema do segundo livro continua neste, algo que eu já havia destacado na resenha de Cidade das Cinzas. Clary não cresce, apenas toma as atitudes sem pensar em ninguém a não ser em si mesma, traga todos ao redor para uma espiral de situações perigosas e sequer percebe que está errada, agindo como uma menininha mimada que não pode ser contrariada. Sério, ela é muito chata!

Minhas maiores alegrias durante a leitura foram, com certeza, os esporros fenomenais que Clary tomou de Luke, Jace e Isabelle. Esporros que parecem servir para alguma coisa somente no final, quando Clary amadurece um pouco. A questão é que amadurecer de repente nas últimas cem páginas do livro não é exatamente uma evolução. Além disso, cadê o treinamento dela?! A garota é uma Caçadora de Sombras, tem poderes para lá de impressionantes e ninguém treina ela para combater como a guerreira que é?! Disto eu senti falta. Clary deveria estar sendo treinada desde o segundo livro e, aqui, já era para ser uma guerreira mais ou menos habilidosa (pelo menos), não uma menina mimada sendo protegida (e enganada) por tudo e todos.

Deixando Clary de lado, as coisas mudam. A maioria dos personagens tem seus momentos.

Jace é o cara! Os dramas e dilemas que a autora joga em cima dele dão um brilho especial ao personagem. Acompanhamos a trajetória dele com pesar e torcemos pela volta por cima. O mais interessante do jovem guerreiro é que ele está sempre lutando. A desconfiança sobre Jace por causa da ligação com Valentim continua, mas ele não se abala com isso, faz o que tem que ser feito. A tragédia de Jace é conduzida de forma agradável e fortalece a mente confusa e fragmentada dele. Aos poucos, ele consegue sobrepor-se às intrigas e aos relacionamentos complicados que o afetam e volta ser o Jace que aprendemos a respeitar em Cidade dos Ossos (2007).

A interação entre Jace e Clary torna-se mais bonita, você torce por eles, e nem mesmo a petulância de Clary consegue estragar isso. Há ainda a relação entre Jace e Valentim, que ressurge repleta de elementos novos e sentimentos mais complexos do que se poderia supor.

Aliás, Valentim ganha muito mais espaço em Cidade de Vidro, afinal, neste desfecho, o espetáculo é dele. Todo o plano do vilão fecha-se aos poucos, enredando toda a Idris numa batalha de vida e morte onde até mesmo as criaturas do submundo tornam-se peças-chaves. Com as revelações sobre o plano de Valentim, descobre-se que ele é mais do que parece. A forma como Valentim é desenvolvido faz-me lembrar muito de outro vilão astuto — Aizen Sousuke, de Bleach (2004). É inevitável, cada vez que eu penso no Valentim, eu penso no Aizen, em todos os sentidos: aparência, inteligência, poder, comportamento. Todavia, Valentim é um antagonista mais humanizado, que ainda guarda emoções fortes por baixo do complexo de deus, ao contrário de Aizen, que é totalmente frio e cruel.

Alec também recebe bastante atenção. Nos livros anteriores, ele era sempre quieto, irritadiço e assustado. Aqui, ele põe o peso de muitos acontecimentos sobre seus ombros e, uma vez que é o mais velho do grupo, chama as responsabilidades para si. Aos poucos, Alec vai tornando-se mais adulto e toma atitudes condizentes. E que atitudes! O personagem aparece mais sisudo e, em combate, mostra-se mais capaz do que antes. Eu não gostava do Alec antes, mas, em Cidade de Vidro, eu aprendi a respeitá-lo.

Isabelle, como nos outros, recebe uma atenção moderada, o que é uma pena, pois é uma personagem que pode ser muito mais. Eu também não gostava muito dela no primeiro livro, era chatinha demais. No segundo, ela melhorou. Neste terceiro, Izzy tornou-se uma das minhas preferidas. Ela não muda tanto, mas tem seus momentos de amadurecimento, em parte por causa de circunstâncias trágicas e inesperadas com as quais tem que lidar. Só o esporro que Izzy dá em Clary já vale a personagem no livro, mas ela transforma-se numa mulher decidida e numa guerreira astuta, especialmente com aquele chicote dourado na mão. No fim, Isabelle é decisiva na batalha final contra Valentim e a participação dela ao ajudar Jace fez-me abrir um largo sorriso de satisfação. Para completar, ainda vemos o começo de uma divertida relação com Simon e Maia.

Simon, por sua vez, adquire algumas complicações aqui. Ele era um dos melhores personagens antes e, transformado agora num vampiro, ficou ainda melhor. O problema é a insistência da autora em mantê-lo como um mundano, que vive com os pais fingindo ser mortal, blábláblá. Não gostei muito disso. Já que ela transformou-o num vampiro, seria bom se ele agisse (pelo menos um pouco) como tal. No começo, entendo que role um período de adaptação, por isso a dificuldade de abandonar a família e os hábitos mundanos, mas, depois de dois livros, já deu.

Por sorte, em Cidade de Vidro, Simon é arrastado para Idris e jogado numa guerra que não é dele. Assim, não sobra muito espaço para pensamentos mundanos demais. Além disso, como agora pode andar de dia, o vampiro torna-se objeto de disputa entre Caçadores de Sombras e outros vampiros, representados por seu criador Raphael. No final é que Simon recupera o charme de antes. Ele faz uma jogada decisiva para a guerra contra Valentim, auxiliado por uma marca feita por Clary. Na hora que a origem da marca é revelada, eu tive que soltar um PUTAQUEPARIU! É neste momento que vemos o velho Simon de volta, esperto e corajoso. A relação meio bromance entre Simon e Jace é também um dos pontos altos do livro. A forma como eles aos poucos vão tornando-se amigos e aprendendo a respeitar um ao outro é para lá de engraçada, com trocas constantes de ofensas e piadas que só fazem rir.

No mais, temos diversos outros personagens, mais ou menos trabalhados. Enfim, conhecemos verdadeiramente a mãe de Clary, Jocelyn, e aprendemos mais sobre Luke, que é um herói clássico. Magnus Bane dá o ar de sua graça em grande estilo. Maia aparece pouco, mas deixa um gostinho rústico na trama que provavelmente será mais explorado no futuro. Uma personagem que me agradou muito neste livro foi a matriarca Maryse Lightwood, que ganha mais destaque e assume uma posição de liderança em relação aos acontecimentos. Maryse cativa pela imponência. Há ainda a inserção de Sebastian, um Caçador de Sombras tão charmoso quanto misterioso, que parece ter um interesse especial em Clary. Sebastian é tão interessante que às vezes ofusca todos os outros personagens, e sua complexidade só aumenta no decorrer das páginas.

Cidade de Vidro traz um enredo mais intenso do que os livros anteriores, com mais violência gráfica, e ainda aborda pontos que vão além da história e dos personagens fascinantes. Clary, como é alheia ao mundo sombrio dos Nephilim, consegue enxergar corrupções e distorções nas tradições da Clave que os outros Caçadores não veem. É fácil para quem olha de fora perceber os defeitos que o tradicionalismo e o fanatismo excessivos trazem. Clary, apesar das atitudes infantis, é a mudança que muitas vezes faz-se necessária para que conceitos e sistemas melhorem. O próprio Valentim possui esta representação. E, de fato, Clary e Valentim são lados da mesma moeda; ambos querem a mesma coisa, mas buscam-na de formas diferentes.

Do outro lado, está Jace, que lida com tais limites cheio de rancor e raiva. Ele aprende da maneira mais difícil que todos temos uma parte ruim em nós mesmos (um lado negro da Força), alguns mais do que outros. A ideia de colocar a culpa de nossos atos em outras coisas, isentando-nos da responsabilidade pelas consequências, é sempre tentadora. A força vem de superar isto. Nós somos o que somos, independente de onde viemos ou de como fomos criados; não temos escolha sobre o que somos, mas podemos escolher qual caminho vamos seguir de acordo com as coisas que aprendemos e a experiência que acumulamos. Jace carrega dentro de si todos estes conflitos e faz transbordar estes pensamentos nas páginas. É por isso que ele é fodão, não porque é o melhor guerreiro, o maior matador de demônios, mas porque tem mais humanidade do que ele próprio imagina.

Cidade de Vidro encerra com louvor a trama iniciada em Cidade dos Ossos, sem deixar muitas pontas soltas. Porém, há detalhes deixados em aberto, pois este não é o final definitivo da saga, mas o fechamento de um arco, da primeira trilogia. A história vai continuar numa segunda trilogia, que começa com o quarto livro, Cidade dos Anjos Caídos (2011). Existe também uma prequel que mostra os Caçadores de Sombras na Era Vitoriana, iniciada com As Peças Infernais, vol. 1: Anjo Mecânico (2010).

Logo, muita água vai rolar ainda. E eu confesso que estou curioso para ver como a história de Jace, Clary, Simon e os outros vai continuar, pois eles estão apenas na metade do caminho. Estes personagens ainda têm muito a aprender. Nós ainda temos muito a ler.

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