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Cidade das Cinzas

Cidade das Cinzas

Os Instrumentos Mortais, vol. 2: Cidade das Cinzas (The Mortal Instruments, vol. 2: City of Ashes, 2008) é o segundo livro para jovens adultos da autora Cassandra Clare, publicado aqui no Brasil pela Galera Record, o selo de literatura juvenil da Editora Record. O primeiro livro, Cidade dos Ossos (2007) apresentava o mundo misterioso dos Nephilim, os Caçadores de Sombras, guerreiros que mantinham a ordem entre os seres das sombras, dotados de poderes sobrenaturais evocados por símbolos herdados dos anjos. Os eventos de Cidade das Cinzas seguem os acontecimentos finais (reveladores) de Cidade dos Ossos.

Narrado em terceira pessoa, característica que se mantém na continuação, o livro mostrava basicamente a perspectiva de Clary Fray, uma descendente perdida dos Caçadores de Sombras. Clary afunda cada vez mais num mundo perigoso cheio de vampiros, lobisomens, demônios e outras criaturas temíveis. A mãe, Jocelyn, está em coma e o homem que ela descobriu ser seu pai, Valentim, é o maior inimigo dela e dos Caçadores das Sombras. Não obstante, o jovem guerreiro por quem ela apaixonou-se, Jace, é, na verdade, seu irmão. Agora que Clary descobriu as verdades sobre o passado dela, as coisas parecem ainda piores. Jace está transtornado e com atitudes cada vez mais impulsivas e violentas. Para complicar, surge ainda a Inquisidora, uma espécie de juíza e júri entre os Nephilim, que acusa Jace de ser cúmplice nos planos de Valentim. Enquanto isso, Clary tenta dominar os poderes recém-descobertos e ainda precisa resolver a relação conturbada com o melhor amigo, Simon.

Como é de praxe em qualquer trilogia, Cidade das Cinzas, como a segunda parte da história, funciona basicamente como uma ponte. O livro desenvolve o enredo do primeiro, apresenta novos conceitos e personagens pertinentes ao submundo e define os rumos para o fechamento da saga no terceiro e último. Como ponte, este segundo livro funciona bem, mas com ressalvas.

Cidade das Cinzas é divertido, mas não é tão bom quanto o primeiro. Há algumas reviravoltas interessantes, mas, no geral, a trama desenvolve de forma lenta e, em alguns momentos, entediante. O foco parece ser em aprofundar o cenário e mostrar um pouco mais dos vampiros, lobisomens, feiticeiros, fadas e outros. O problema é que a autora aprofunda devagar demais e o andamento da narrativa principal acaba ficando em segundo plano. A impressão é que lemos e lemos e não chegamos a lugar algum. Esta sensação só começa a sumir no terceiro ato, ou seja, depois de quase trezentas páginas. Como eu disse antes, entendo o conceito por trás do segundo livro de uma trilogia, mas faltou um pouco de dinamismo. O Vampiro Lestat (1985) também é o segundo livro de uma trilogia e, na minha humilde opinião, é o melhor dentre os três.

Para se ter uma ideia, o vilão Valentim, que é sempre bastante ameaçador, quase não representa ameaça neste livro (exceto no final foda!). A Inquisidora, que dedica todo o seu tempo a atazanar a vida de Jace, incomoda muito mais (de um jeito bom para história, claro). Ao contrário de Cidade dos Ossos, não há aquele sentimento de urgência durante a leitura. Os planos de Valentim seguem proeminentes, os Instrumentos Mortais vão sendo roubados, demônios poderosos vão sendo invocados e reunidos, mas, ainda assim, não há uma correria verdadeira para evitar isso. Todos parecem mais preocupados em olhar para os próprios umbigos.

Jace e Clary continuam sendo os condutores principais. O drama de serem irmãos e serem apaixonados um pelo outro complica tudo para eles. Boa parte do enredo é sobre as implicações desta relação. O desenrolar, como o restante do livro, é lento. Todavia, a autora trata o relacionamento de forma simples e convincente, sem transformar a trama em algo maçante e non-sense como um Angel Sanctuary (1995). A cena na Corte Seelie é tensa e chocante de uma maneira gostosa, não doentia. Apesar de tudo, muitas circunstâncias atrasam o caminho dos dois, deixando a resolução das questões envolvendo o relacionamento para o terceiro livro (obviamente).

Jace tem que lidar com a Inquisidora, o amor/ódio pelo pai Valentim, os demônios que atravessam seu caminho, os hormônios de um adolescente de 15 anos desacostumado a ter emoções tão fortes. Jace continua um personagem forte, o mais fodão e interessante da série. Mas, aqui, ele é um pouco desconstruído demais e isso incomoda um pouco. O excesso de sentimentalismo não cai bem num personagem que era sempre tão frio e calculista. Porém, é bom ver que ele ainda chuta bundas de demônios poderosos como ninguém. Também é interessante saber que, por baixo da máscara, ele preocupa-se com os amigos, até mesmo com aquele que é seu maior rival. O que ele faz pelo Simon no fim da história é digno de respeito. Aliás, a batalha final contra os demônios no navio é a melhor parte do livro em todos os quesitos!

Já Clary tem que lidar basicamente com o Simon, os rompantes de Jace, os novos poderes, os sentimentos inadequados pelo irmão, o fato de ter muito de mundana ainda em si. Todavia, Clary, infelizmente, consegue ser A PERSONAGEM MAIS CHATA de todas! Apesar do começo razoavelmente promissor em Cidade dos Ossos, aqui, ela se supera. A menina forte e corajosa do primeiro torna-se chata e mimada. E a definição de olhar para o próprio umbigo e foda-se o resto cai nela como uma luva (ou como um símbolo, se preferir). É difícil aturar certas atitudes dela. No caso de Clary, interessante mesmo é quando ela descobre sobre seus poderes, que são bem legais, e o que ela faz com tais habilidades no final. Mas, ainda assim, Clary pouco se desenvolve neste livro. Eu esperava mais dela, mas, no fim, ela termina do jeito que começou, não amadurece, apenas descobre alguns truquezinhos novos.

Os personagens coadjuvantes é que aparecem como o principal trunfo do livro. Alec e Isabelle Lightwood estão melhores do que no livro anterior. Aos poucos, vão assumindo personalidades e papéis na trama mais relevantes e tornam-se figuras apreciáveis. A aparição maior de Magnus Bane além de bem-vinda, dadas as características extravagantes do personagem, auxiliam no desenvolvimento de Alec. Simon continua roubando a cena quando aparece, especialmente depois da reviravolta que sofre a vida dele. E temos a inserção da lobisomem Maia, uma das melhores personagens da série. A garota tem um misto de sagacidade e selvageria que cativa fácil o leitor. Além disso, Maia demonstra uma química com Simon que nenhuma outra dupla de personagens possui. É uma personagem que merece ser mais explorada no futuro, pois ela tem muito potencial para crescer.

No mais, Cidade das Cinzas trabalha mais com o sobrenatural da cultura pop contemporânea. Ainda há elementos nítidos de Guerra nas Estrelas (1977) e Harry Potter (1997), mas algo que se torna mais evidente é o clima de Buffy, A Caça-Vampiros (1997), com criaturas sobrenaturais brotando em cada beco ou esquina e um grupo de pessoas diversificadas lutando contra forças malignas que querem dominar o mundo. Apesar de a batalha ser basicamente entre Caçadores de Sombras, a intervenção dos seres do submundo e o papel de cada um deles nos conflitos reforça o poder do inimigo que estão enfrentando. Por isso que, no começo da resenha, eu disse que faltou um pouco de sentimento de urgência ao tratar dos acontecimentos deste livro.

Os seres do submundo trazem ainda outro aspecto para o enredo: a intolerância. Vampiros, lobisomens, feiticeiros são tratados pelos Caçadores de Sombras como lixo, considerados menos que humanos ou demônios. E, ainda assim, eles tentam ajudar quando necessário e fazem o que é certo. É quase como os X-Men. Há ainda outros temas fortes no livro, como traição, especialmente a falta de confiança entre familiares, e o fanatismo, que move as ações de muitos personagens, especialmente Valentim e a Inquisidora.

Cidade das Cinzas, como sequência e ponte de uma trilogia, cumpre sua função. Tem seus problemas, mas também seu valor. Apesar de não ter a força de Cidade dos Ossos, o livro cultiva méritos que vão agradar os fãs da série. É um romance bem escrito, com uma evolução considerável da autora, especialmente na condução de diálogos. Mesmo apontando defeitos, é uma saga envolvente, que eu aprecio muito e vou continuar acompanhando com prazer. Não é porque tem problemas que é ruim. Cidade das Cinzas vale a pena, especialmente como parte do todo — e como introdução para o ótimo Cidade de Vidro (2009).

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