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O Artista

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A história do cinema é rica em detalhes que muitas vezes passam despercebidos por aqueles que sentam nas salas para desfrutá-lo hoje em dia. Mudanças drásticas aconteceram ao longo dos anos, acompanhando as mudanças no próprio mundo. O próprio cinema que vemos atualmente nos anos 2000 é muito diferente do que víamos nos anos 90. As coisas mudam muito rapidamente. Porém, poucas mudanças foram tão revolucionárias para a indústria cinematográfica quanto a transição do cinema mudo para o cinema falado.

A década de 30 foi o marco, quando a Grande Depressão assolava o mundo, levando a uma queda terrível na produção industrial de diversos países, incluindo na produção cinematográfica. Neste período de recessão, o advento do som nos filmes difundiu o cinema entre as massas e mudou tudo. Diretores, atores e roteiristas que não se adaptaram ao novo modelo, foram simplesmente substituídos e tornaram-se obsoletos. É quase como a revolução digital que vivenciamos hoje, com recursos e técnicas de filmagem cada vez mais avançados, salas em 3D, IMAX, 4K.

Num mundo como o nosso, imerso na superexposição imagética e sonora do cinema colorido e falado repleto de efeitos visuais, parece uma ousadia tola o surgimento de um filme mudo em preto e branco. Não é. E de tolo, o cineasta Michel Hazanavicius tem nada. O Artista (The Artist, 2011) é prova disto. É uma grata surpresa, capaz de enaltecer os corações dos apaixonados pelo cinema e por sua história.

O Artista trata especialmente da época de mudanças supracitada, produzido em cada minúcia para reverenciar o cinema de outrora. Escrito e dirigido por Hazanavicius, o longa é totalmente preto e branco, filmado com o estilo de um filme mudo, com músicas melodramáticas e entreatos que apontam diálogos específicos e relevantes. Várias referências aos filmes clássicos saltam aos olhos, com progressões de acordes e instrumentais que evocam o jazz e o blues e o roteiro cômico e romântico que parece egresso do cinema daquela época gloriosa.

Na Hollywood de 1927, o astro do cinema mudo George Valentin (Jean Dujardin) perde seu espaço com a chegada do cinema falado e, por não adaptar-se, cai no esquecimento. Enquanto isso, a bela atriz iniciante Peppy Miller (Bérénice Bejo) recebe uma oportunidade para trabalhar neste novo segmento do cinema e torna-se uma sensação instantânea. George foi quem ajudou Peppy a entrar para o mundo do cinema. Ele fica atraído por ela, mas a relação torna-se complicada quando o ator vê a garota substituindo no estrelato.

O Artista é enquadrado e conduzido com esmero. Apesar do formato preto e branco e silencioso, o longa é dinâmico e fluido. O tempo de projeção passa agradavelmente sem que notemos; quando você vê, o filme acabou. A sequência de abertura, onde a mais recente produção de Valentin é intercalada por sorrisos e aplausos da plateia, conclui-se num silêncio absoluto que pode soar estranho para o público de hoje tão acostumado à barulheira dos filmes. Hazanavicius o faz deliberadamente, usando depois de som e música para exaltar um ou outro ápice de drama/comédia nas cenas. Há momentos mais tensos e agitados, exaltados com ruídos pertinentes, e momentos mais leves e emotivos, que aproveitam sons mais amenos. A excelência na trilha sonora instrumental é tamanha que as emoções fluem com a música, um dos grandes méritos do longa, capaz de sensibilizar até o mais duro dos corações. Fez-me lembrar de Cantando na Chuva (1952).

O filme é tão meticuloso que não basta vê-lo simplesmente como um filme mudo que homenageia o cinema. A montagem, os efeitos, os graus de luz e sombra, as cores contrastantes de preto e branco, tudo forma um produto de estudo honesto e apaixonado sobre a mais profunda apreciação da história do cinema. Mas O Artista ainda ostenta a alma de um filme mudo em todos os âmbitos, dependente da poética do corpo humano, da transmissão do espírito pelo olhar. É uma forma que exige maestria e pureza nos gestos, sem espaço para desdéns ou ironias tão corriqueiras no cinema contemporâneo. Não obstante, há pequenas mensagens escondidas por todo o longa, normalmente em segundo plano, que surgem pedindo silêncio ou quietude de alguma forma, e deixam claro a valorização da falta de ruído. A inserção do cão leal ao dono (no caso, a George Valentin) é um elemento a mais, trazendo uma sóbria reflexão sobre o potencial do cinema mudo disfarçado na capacidade do cãozinho em salvar a vida de uma pessoa sem expressar-se com palavras, apenas com gestos. Sim, até ali a força do cinema mudo exaltada pelo filme faz-se presente — e tal cena envolvendo o cão é belíssima.

O elenco faz sua parte com exatidão. Os dois protagonistas, Jean Dujardin e Bérénice Bejo, estão perfeitos, esbanjam o tipo de carisma comum ao cinema daquela época, quando os atores eram vistos mais como deuses do que como pessoas comuns, estando sempre bem vestidos, arrumados e maquiados. Dujardin é intenso e expressivo, consegue passar todo o clima da cena com um mero sorriso ou um levantar de uma sobrancelha. Bejo é radiante e graciosa, arrebata cada vez que sorri ou faz a dancinha seguida do beijo. Os dois atores demonstram uma química imediata em cena; é fácil imaginá-los como atores de qualquer filme da década de 30, algo decisivo para a qualidade de O Artista.

Temos ainda participações providenciais do sempre ótimo John Goodman, como um típico chefe de estúdio ranzinza; Penelope Ann Miller, como a infeliz esposa de Valentin, um contraponto à suposta felicidade sempre vista no ator; e James Cromwell, como o motorista devotado de Valentin. Há até uma aparição breve do ator Malcolm McDowell. Atores diversificados, grandes nomes do cinema americano e francês, imprimem sofisticação à trama, tornam o silêncio universal, assim como é o cinema.

O saudosismo é bom, mas, ao mesmo tempo, O Artista deixa no ar um sentimento de tristeza ao apresentar para o mundo contemporâneo a extinção de um estilo cinematográfico. Com originalidade e singeleza, o filme relembra um tempo que passou, evidencia a queda do velho e a ascensão do novo. Porém, apesar da melancolia, O Artista também olha para além das inovações modernas, para um momento em que não se precisava delas para fazer o bom cinema. Este filme elegante e bonito merece, sem dúvida, ser visto.

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