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Imortais

Imortais

Imortais (Immortals, 2011) era um filme razoavelmente esperado pelos fãs de mitologia grega e dos filmes de ação e fantasia. Desde o primeiro trailer, prometia ser algo realmente épico, que empolgaria aproveitando-se das marcas icônicas do filme 300 (2006), como a atmosfera áspera, o heroísmo exacerbado e as bravatas inspiradoras. Não obstante, o longa trazia como peça central um arco de energia, o Arco de Épiro, que, sem querer, engolfou a expectativa de muitos fãs saudosistas do desenho Caverna do Dragão (1983) — afinal, era algo parecido com o arco do Hank… nos cinemas! Mas o trailer, como de praxe, vendia um produto diferente do resultado final.

A trama gira em torno da eterna (e manjada) luta entre deuses e titãs. As duas raças divinas se enfrentaram, os deuses venceram, os titãs foram aprisionados etc. etc. É a velha história que todo o roteirista tenta se aproveitar quando pensa em mitologia grega. O problema é que o embate de deuses contra titãs poderia render mais, porém, estes roteiristas que se apropriam destes mitos nunca pensam além do convencional. Em Imortais é a mesma coisa. O enredo até tenta variar uma coisa ou outra, mas, no final, a história é tosca. Não só no que tange a deuses e titãs, mas tudo que é referente à mitologia grega no geral é falho. Para complicar ainda mais, o roteiro, o tempo todo, tenta travestir a mitologia grega com pontos-de-vista da mitologia cristã. Outro erro de produtores apegados ao convencional. Vale lembrar que isto aconteceu em Fúria de Titãs (2010), no qual Hades foi transformado num vilão simplesmente porque, sob a ótica cristã, o Deus dos Mortos e do Mundo Inferior é o Mal (invariavelmente). No Hércules (1997) da Disney também é assim, eu sei, mas, pelo menos, o desenho é divertido.

Enfim, voltando à trama. A guerra de deuses e titãs começa narrada por John Hurt e entrecortada por ruídos altos, que já denota problemas na edição de som semelhantes aos do novo Conan: O Bárbaro (2011). Então, John Hurt aparece como um velho que guia os passos de Teseu (Henry Cavill). O homem é um exímio guerreiro e espadachim que, na verdade, tem seu destino ligado aos deuses do Olimpo. Teseu é puxado para uma guerra quando o Rei Hyperion (Mickey Rourke) decide libertar os titãs e, para começar, invade o vilarejo onde vive o herói. No caminho, Teseu encontra Phaedra (Freida Pinto), uma jovem vidente que o ajuda em sua jornada para derrotar Hyperion. Para tanto, é necessário impedir que o Arco de Épiro termine nas mãos do rei tirano, pois é a única capaz de libertar os titãs.

E quando encontram o Arco de Épiro vem outra decepção. O arco é usado umas parcas vezes no filme inteiro. Você nada vai ver de magnitude semelhante a um Caverna do Dragão, saiba disso.

Logo, depois de muita embromação histórica, vem um pouco de ação. Mas, também fica só nisso. É, literalmente, UM POUCO de ação. E, para variar, também é subaproveitada. O primeiro combate de Teseu é o mais bem feito, filmado lateralmente de uma forma que lembra as ótimas cenas de ação de 300. Porém, e lá vai mais um “porém”, fica só nisso. As outras cenas de ação são fracas e mal-dirigidas demais. O confronto entre Teseu e o “Minotauro”, por exemplo, é deprimente. E a batalha final entre Teseu e Hyperion nem se fala.

Todavia, achei melhor não usar o “porém” desta vez, a maior derrapada é na batalha entre deuses e titãs. Os grandes chamarizes para Imortais no trailer eram justamente as estilizadas cenas de luta em que apareciam os deuses. Eu, particularmente, estava ansioso para ver a Atena (Isabel Lucas) quebrando o pau em cima dos titãs. Então, a deusa aparece e nada. A cena é mal editada. A ação, além de pouca, não agrada por causa da montagem péssima. Na batalha entre deuses e titãs, aquelas imagens bonitas de luta dos deuses são entrecortadas por cenas da guerra entre Teseu e Hyperion e foram tão retalhadas pela edição que praticamente não dá para ver o combate das divindades acontecendo.

Sim, este é um daqueles casos em que o trailer é melhor do que o filme.

A sensação principal que Imortais passa é que você está vendo um filme que você quer gostar, mas o vê escorregando pouco a pouco numa confusão terrível. O diretor Tarsem Singh tem pouco senso de narrativa, como ele já mostrou em seu longa de estreia A Cela (2000). O negócio dele parece ser a superexposição de imagens bizarras e diálogos non-sense. É triste ver o Mickey Rourke pavoneando e ronronando satisfatoriamente entre sequências que envolvem decapitações, amputações e emasculações. Eu, sinceramente, gosto de violência gráfica, mas até a violência precisa ter uma razão de ser para estar em qualquer história, especialmente quando o objetivo final não é um filme trash.

O senso estético deturpado é refletido ainda nos figurinos ridículos. Eventualmente, os deuses aparecem descansando no Olimpo com o que parecem ser enfeites de uma Árvore de Natal em torno de suas cabeças. A do Poseidon, que parece um inseto gigante, deve ser o alívio cômico do filme, porque dá uma puta vontade de rir cada vez que aparece. E o que é o capacete de besouro dentado do Hyperion?! Deuses… é muita vergonha alheia para um filme só!

Além disso, a escolha de atores jovens para os papéis acabou completamente com a seriedade que tais divindades deveriam expressar. Imortais não é Cavaleiros do Zodíaco (1986). A única realmente aceitável é a Atena, porque na mitologia ela é mais jovial, porém, a personagem é tão deturpada que deixa de ser a deusa da sabedoria, forte e justa, para ser a filha mimada e submissa de um Zeus que deve ter a idade (pelo menos, aparente) dela. Aqui, Zeus é interpretado por Luke Evans.

O grande, e talvez único, ponto positivo do filme é o ator Henry Cavill. O ator britânico, que vai interpretar o novo Superman em Homem de Aço (2013) mostra um porte musculoso e a capacidade exigida para expressar o olhar determinado. Ele convence como herói. No entanto, há pouco que ele consiga fazer para levantar um roteiro que parece ter sido escrito somente para remendar roteiros de filmes anteriores e parcialmente semelhantes — como Fúria de Titãs (2010), 300 (2006), Tróia (2004), Escorpião Rei (2002). Aliás, as palavras duvidosas “Dos produtores de 300” estampada nos cartazes de divulgação são como um tapa na cara, pois só acrescentam alguma coisa no cenário CGI, nada mais.

Se você esperava algo no mínimo interessante como 300, prepare-se para o suprassumo da decepção. Até o remake de Fúria de Titãs é melhor.

Imortais não agrada gregos, nem espartanos.

Nível Ínfimo



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  • http://cinelogin.com.br Renato

    Porra, Alan… o filme é fraco mesmo. Esperava bem mais.
    Sou fã de mitologia, mas nem me importo tanto em ver os mitos deturpados ou os deuses jovens… desde que estejam em um história interessante… mas nem é o caso.

    Abraço!

    • http://www.nivelepico.com/ Alan Barcelos

      Vou te falar que só me incomodei com os deuses jovens porque o filme é ruim.

      Também esperava bastante do filme.

      Mas, é como você falou mesmo…

      Eu sou a favor das liberdades criativas. Como eu disse, o Hércules da Disney toma várias, mas são aceitáveis porque o desenho é legal. O próprio Cavaleiros do Zodíaco é um festival de liberdades criativas. O foda é que se você já não está levando a sério a história em si, fica ainda mais difícil relevar certas liberdades tomadas no enredo.

  • http://www.pronomeinterrogativo.com Thaís

    Quando o assunto é mitologia, a galera se prende apenas àquilo que era meio óbvio ou tenta deturpar completamente as histórias mitológicas iradas que conhecemos.

    Assim que eu bati o olho no trailer vi que se seria uma bosta, porque minha tese é exatamente esta: quando o trailer é demais, a crítica desconfia.

    Ainda quero vê-lo, mas não no cinema!

    Ótima crítica Alan! Sempre mandando muito bem!

    Um beijão,
    Pronome Interrogativo.
    http://www.pronomeinterrogativo.com

  • http://Omesmo Eu

    Achei uma porcaria por nao mostrar os 12 deuses

  • Juliano

    Achei o filme uma bomba, dão inicio a partes da história sem um fim, o filme não tem continuidade nas suas ações, como exemplo, a parte em que o sacerdote fala (sem língua) onde a mulher (oráculo) está escondida. Este foi um dos casos dentre outros.
    Deuses jovens, sem noção.
    Outro caso é Teseu guerriar e acabar com vários oponentes juntos, e para matar o rei em uma briga solo, toma um coro de um velho.
    Não pela idade, e sim pelo fato de que ele derruba o rei, batendo no pé do individuo.
    Um outro fato, é o combate corpo a corpo dos Deuses, que é ridículo, além do efeito retardado das armaduras dos Deuses.
    Bom pra completar, a história do filme, não tem um fim na guerra entre as duas partes, afinal a guerra acabou em que fim?
    Quem venceu?
    Como o oráculo saiu do santuário ao lado do monte, sendo que tudo desabou?

    Moral, o trailer instiga os apreciadores de mitologia, a ver uma bosta de filme.

    • http://www.nivelepico.com/ Alan Barcelos

      Pois é, Juliano… o filme tem muitas inconsistências. Realmente, o trailer vende uma coisa que o filme não é. O trailer é muito bom, mas o filme é ruim. Uma pena, tinha potencial pra ser um épico. :-/

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