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Os Muppets

Os Muppets

“Life is a Happy Song”… este é o tema musical cantado ao longo de todo o novo filme dos Muppets e que, sem dúvida, diz tudo o que você precisa saber sobre a vida, o universo e tudo mais. Sim, a vida é uma canção feliz e no final das quase duas horas desta linda história, você vai estar cantante e enaltecido, com a música ressoando na cabeça e um sorriso sincero estampado no rosto. Os Muppets (The Muppets, 2011) não só consegue o mérito de trazer de volta os bonecos em grande estilo, como também relembra sentimentos puros e simples que jaziam esquecidos num passado distante.

Devo dizer que até a forma como o longa começa proporciona um choque espiritual metafórico (foi meio exagerado, eu sei, mas vou explicar a impressão que fica). Os dez primeiros minutos de Os Muppets são MUITO chatos, cansativos e arrastados. São minutos que passam como uma eternidade. São minutos que inserem o espectador na frieza e desolação de um mundo sem os Muppets. São minutos que, talvez sem querer, talvez por querer, estão ali para mostrar como nos tornamos pessoas mais frias e duras, absorvidas por um mundo onde tudo gira em torno de celebridades fakes, baixo nível de conteúdo relevante e dinheiro, dinheiro, dinheiro. Quando a primeira música começa a ser cantarolada, do nada, a impressão que temos é de constrangimento, vergonha alheia. Não estamos mais acostumados com canções felizes sendo cantadas por pessoas de roupas coloridas e animaizinhos fofinhos. Por que estaríamos, não é? Afinal, hoje em dia, é muito mais comum vermos um bando de mulheres semi-nuas e homens saradões presos dentro de uma casa durante seis meses disputando milhões de dólares e dizendo asneiras a cada três segundos. A música há muito tempo também ficou em segundo plano no gosto de muitas pessoas. Sim, os dez primeiros minutos são o baque inicial que o filme precisa causar para que nós dispamos nossas frivolidades.

Por quê?

Porque passado este início, nós somos largados indefesos no mundo dos Muppets e conquistados e reconquistados por eles a cada segundo em que eles aparecem em tela. A partir do momento em que o Caco (não vou chamar de Kermit, sinto muito) aparece na tela, o filme muda, a história muda, sua visão muda, tudo muda. O carisma que o líder dos Muppets sempre esbanjou está todo lá, intacto e, eu diria, melhorado. Caco, o Sapo, é o cara e o elemento motivador para que a antiga turma seja reunida e nós, consequentemente, nos reunamos a eles. Eu poria minha mão no fogo pelo Sapo simplesmente por acreditar nas coisas que ele e os Muppets pregam e representam. É impressionante como um bando de fantoches é capaz de exemplificar a verdadeira alegria, mesmo diante da tristeza e da desesperança. E o retorno dos Muppets é justamente isto, a volta da esperança.

O enredo é simples e parece os antigos shows infantis das décadas passadas. Basicamente, um grande barão do petróleo, Tex Richman (Chris Cooper), planeja comprar o velho Estúdio dos Muppets, hoje abandonado, para perfurar a rica reserva petrolífera abaixo do lugar. Esta é a parte frieza de um mundo atual preocupado com dinheiro e poder — introduza aqui uma “gargalhada diabólica”. O vilão (ele é o vilão, você percebeu, certo?!) só tem um probleminha: os direitos do estúdio garantem que ele não poderá ser comprado se os Muppets arrecadarem um milhão de dólares para tê-lo de volta. Assim, entram em cena os novos personagens do longa, o fantoche idealista Walter (um Muppet em potencial), seu irmão humano sempre sorridente Gary (Jason Segel) e a doce, porém complicada, namorada de Gary, Mary (Amy Adams). São eles três que trazem Caco de volta a ativa e, juntos, recuperam aos poucos a trupe dos Muppets a fim de organizar um grande espetáculo que possa arrecadar o dinheiro necessário para impedir a destruição de seu legado.

E a trupe vai aparecendo em grande estilo, pois precisam ser tirados do fundo do poço onde estavam. O Urso Fozzie leva uma vida de rockstar decadente com um grupo chamado Moopets, que não tem metade do brilho de seus antigos amigos. Animal vive preso numa espécie de clínica de reabilitação de raivosos tentando controlar seus instintos agressivos (da forma mais engraçada possível, devo dizer). Gonzo virou um magnata das privadas esnobe. Miss Piggy tornou-se uma renomada socialite francesa que comanda um império da moda — no melhor estilo O Diabo (ou seria O Porco?!) Veste Prada, com direito a hilária participação especial de uma ruiva conhecida. Os demais personagens vão sendo reunidos aos poucos e acrescentando ainda mais graça ao roteiro.

Porque assistir a Os Muppets é isso: estar imerso em graciosidade e alegria. Até os momentos tristes estão lá pelo simples objetivo de enfatizar quão vívida e esperançosa é a trama. Há momentos realmente sombrios e que ainda conseguem se destacar no todo com situações e músicas incríveis (como o rap maligno sobre sonhos fúteis do vilão). Aliás, se os momentos vilanescos rendem é por causa de Chris Cooper; o ator dá um show à parte em cena e representa com habilidade a encarnação de tudo contra o que o filme prega. Ele é a representação da rigidez que impera no mundo contemporâneo e que precisa ser amolecida. Até mesmo entre os protagonistas há uma sombra pairando. Mary, apesar de ser doce e amável, não compreende o espírito que une seu namorado e o irmão fantoche e inveja-os por isso, se sente deixada de lado. Em algum momento, esta inveja vira egoísmo e ela se vê tocada pela frialdade assim como os outros. Até nisto, Os Muppets trabalha sutilmente para mudar emoções. E o elenco contribui. Jason Segel tem uma cara de bobo ingênuo que cativa facilmente qualquer um. Amy Adams fascina com seu jeito mais contido, mas que se solta nas músicas com ótimas performances e uma voz impactante e melodiosa — quem se lembrar de Encantada (2007) sabe que ela leva jeito para a coisa. Além disso, não dá para ignorar o fato de que Amy é uma mulher linda. O acréscimo do adoravelmente inseguro fantoche Walter, criado especificamente para o longa, aumenta o rol de personagens icônicos.

Eu, como muitos dos que vão ao cinema, provavelmente não pegaram Os Muppets em seu auge. Os personagens criados por Jim Helson em 1954 estrelaram inúmeras séries de televisão, filmes para cinema e TV, especiais, shows teatrais etc. e experimentaram o verdadeiro sucesso nesta época. Após a morte de seu criador em 1990, Os Muppets perderam muito de sua base e, aos poucos, foram sumindo até caírem no esquecimento. Aqueles, como eu, que se lembram dos fantoches, provavelmente, os associam ao desenho animado Muppet Babies (1984), que fez grande sucesso, mas foi um dos últimos suspiros dos personagens. Os anos 90 e 2000 não têm muita história para contar sobre os bonecos. Por isso, bendita seja a pessoa que teve a brilhante ideia de ressuscitá-los, pois trouxe de volta personagens que marcaram a infância de muitos de nós e desfilou com singeleza esta nostalgia nas telas do cinema. Dirigido pelo cineasta britânico James Bobin, com roteiro de Nicholas Stoller e do ator Jason Segel, Os Muppets é a primeira história de qualidade dos fantoches em anos.

Os Muppets é um triunfo de simplicidade, inocência e humor pastelão. É um triunfo coberto por pano. É a alegria da infância e da infantilidade, das quedas e das gargalhadas despretensiosas, do contentamento bobo em ver Jack Black envolvido nas mais bizarras situações por causa dos fantoches, em ver como vários artistas da velha e nova geração surgem na tela para prestigiar o retorno dos bonecos, em celebrar e compreender a dualidade do ser humano ante uma conclusão simples — Eu sou um homem… e sou um Muppet — que ainda vem enaltecido por um fabuloso big bang (você vai entender quando ver). Você deve estar se perguntando por que me empolguei tanto que este texto ficou enorme. É porque eu saí do filme com vontade de sorrir. Você provavelmente vai entender depois da sessão.

Dizer que Os Muppets é um grande filme seria pretensão, porque Os Muppets nunca aspiraram tal grandeza.

Como Walter diz — Enquanto houver os Muppets, ainda há esperança.

Eu concordo plenamente.

A vida é uma canção feliz… basta cantarmos também.

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  • http://www.racional-emocional.blogspot.com Débora

    Oi, adorei seu site!
    Adorei também a crítica do filme!
    Fiz um post no meu blog e te citei, pois concordei muito com você, amei!
    http://racional-emocional.blogspot.com/2011/12/vida-e-uma-cancao-feliz.html

    Até mais! (mahna mahna)

    • http://www.nivelepico.com/ Alan Barcelos

      Oi, Debora.

      Fico honrado com a citação.

      Que bom que meu texto conseguiu passar pelo menos um pouco da inspiração que o filme passa.

      Obrigado!

  • Murilo

    Eu ri na parte o big ben. Muito bem colocado ali.
    Ótima crítica.
    Esse pessoal que fala que o filme foi só mais uma tentativa da Disney não sabe o que está falando. Gente que só gosta de filme com sangue é duro..

    :)

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