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Assalto em Dose Dupla

Assalto em Dose Dupla

Assalto em Dose Dupla (Flypaper, 2011) lembra, de certa forma, aqueles filmes das décadas de 80 e 90 derivados da “pulp fiction”, feitos sobre a premissa de uma qualidade duvidosa e uma história para lá de absurda, com personagens insanos, diálogos rápidos, muitos tiroteios e exagero de cores. Inclusive, tenta se inspirar num clássico que se apropriou das características do gênero com êxito: Pulp Fiction – Tempos de Violência (1994), embora não seja tão bom (óbvio!) quanto o longa de Quentin Tarantino. Apesar de soar um pouco ultrapassado, existe uma razão. O roteiro foi escrito há mais de dez anos pelos (na época, aspirantes a) roteiristas Jon Lucas e Scott Moore, dupla por trás do muito bem sucedido Se Beber, Não Case (2009). Só agora o roteiro foi transformado em filme e, não obstante, ainda conta com a direção de Rob Minkoff, que também dirigiu O Rei Leão (1994).

A trama acompanha um inusitado assalto, em que dois grupos invadem um banco ao mesmo tempo na tentativa de roubá-lo. Cada grupo, no entanto, possui interesses diferentes dentro do banco, por isso, decidem continuar o assalto sem se meter um com o outro, cada um com seu objetivo. De um lado, um trio de ladrões de elite formado por Darrien (Mekhi Phifer, que não vejo desde ER – Plantão Médico), Weinstein (John Ventimiglia) e Gates (Matt Ryan), que surgem equipados de alta tecnologia com a intenção de esvaziar o cofre. Do outro, estão dois caipiras loucos e inexperientes, Peanut Butter (Tim Blake Nelson) e Jelly (Pruitt Taylor Vance), que desejam apenas roubar algum dinheiro explodindo os caixas eletrônicos. No meio, porém, estão os funcionários e clientes do banco feitos de refém pelos bandidos: a funcionária altiva Kaitlin (Ashley Judd), o esperto cliente que sofre de um estranho transtorno obsessivo-compulsivo Tripp (Patrick Dempsey), entre outros (que inclui nomes como Jeffrey Tambor e Octavia Spencer).

A história, trabalhada de forma ágil pelos roteiristas, coloca os personagens numa típica situação de filme de roubo de banco e acrescenta doses de sarcasmo e humor ao gênero. Inicialmente, parece que vai ser um simples filme de crime com comédia. Porém, os personagens (e suas excentricidades) começam a ser apresentados e, logo depois, eles começam a morrer misteriosamente. Neste momento, Assalto em Dose Dupla surpreende. A trama toma um rumo diferente à medida que os cadáveres aparecem e Tripp, afetado por sua obsessão e sem remédios para se controlar, desanda a investigar tudo e começa a juntar peças de um quebra-cabeça que mostra segredos por trás daquilo que deveria ser um simples assalto a banco. A busca por pistas e para desvendar os mistérios do assalto movimenta o longa e é muito divertida de acompanhar. Como nos filmes Operação: Fim de Jogo (2009) e Os Sete Suspeitos (1985… baseado no jogo de tabuleiro Detetive) ou nos vários romances de Agatha Christie, como, por exemplo, Assassinato no Expresso Oriente (1974), Assalto em Dose Dupla conduz o público por uma rede de intrigas em que não se pode confiar em ninguém e todos são suspeitos, tanto os ladrões como os reféns.

O mistério em torno da trama é que garante a diversão, embora existam algumas ressalvas a se considerar. Uma delas é no que tange ao desenvolvimento dos personagens. Muitos deles são apresentados de forma mais superficial, o que pode impor dificuldade para o público criar expectativas sobre eles. Partindo da ideia de que todos são suspeitos dos crimes que estão acontecendo, sem um grande desenvolvimento, às vezes fica difícil especular quem são os verdadeiros mocinhos e vilões da história. E, neste tipo de trama, é interessante que o público possa também tentar deduzir o que está acontecendo antes de ser realmente revelado. Todavia, este também é o tipo de história na qual o mistério é conduzido mais pelas pistas salpicadas ao longo do enredo do que pela índole dos personagens em si. Ainda é possível aproveitar as várias reviravoltas que acontecem no terceiro ato e que direcionam o mistério para o desfecho. A outra ressalva são os flashbacks que surgem para revelar tudo mastigado quando as pistas são reunidas. Alguns são válidos, outros, nem tanto. Eu, particularmente, não gosto deste recurso porque normalmente subestima a inteligência do espectador. Porém, não é algo que realmente atrapalhe a diversão.

A qualidade técnica também não é das melhores, mas isto não é necessariamente um defeito e é justamente isto que faz lembrar a atmosfera pulp que citei anteriormente. Na verdade, a baixa qualidade ajuda mais do que atrapalha. A atuação também colabora. Patrick Dempsey é um ator simpático que constrói um personagem divertido e cuja curiosidade e esperteza (somadas aos tiques nervosos) lembram o detetive do seriado Monk (2002). Ashley Judd não é tão impactante e tem uma personagem mais apagada, mas tem seus momentos. Tim Blake Nelson é uma das melhores partes do elenco, com um personagem tresloucado e até certo ponto ingênuo. Os outros apenas contribuem para o desenrolar da trama e para dar alguns toques de comédia ao enredo.

O longa não é revolucionário ou extraordinariamente inteligente ao ponto de deixar você embasbacado no final. É uma história peculiar com muitos mistérios e reviravoltas, trabalhada com descontração e despretensão por dois caras com boas ideias. Alguns vão gostar, outros, não. Ainda assim, traz um roteiro esperto e divertido, que vale a pena especialmente pelo momento de distração que proporciona e pela sensação de reviver histórias de mistérios como as que eram comuns nas décadas passadas. No fim, Assalto em Dose Dupla consegue roubar alguns risos da plateia.

Nível Heroico

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