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O Levante – Festival do Rio 2011

O Levante

Toda sublevação busca a liberdade… física, mental, espiritual. O Levante (La Sublevación, 2011) é um retrato singelo desta busca pela qual todo o ser humano luta durante a vida, especialmente quando atinge uma idade avançada e vê que esta luta pode estar por um fio. O filme do jovem cineasta Raphael Geyer Aguinaga explora estes anseios de forma simples, mas recheada de significado.

O longa conta a história de um asilo apático habitado por figuras para lá de excêntricas. Um dia, uma senhora, Alicia (Marilú Marini), é deixada na porta e precisa se adaptar ao lugar. A enfermeira-chefe é adorável e os idosos que lá vivem, apesar de suas particularidades, são amistosos e receptivos, especialmente o assanhadinho Miguel (Luis Margani). Porém, quando a enfermeira sai de férias, eles precisam lidar com a chegada de seu temido substituto, um jovem tirano chamado simplesmente de “A Bruxa” (Pablo Lapadula). Enquanto isso, o mundo exterior, ao qual eles só têm real acesso através da televisão ou do rádio, passa por uma grande transformação com uma exaustivamente debatida segunda vinda de Jesus Cristo, que teria sido clonado e estaria caminhando de novo entre os mortais.

Um toque interessante desta história é justamente a simbologia inserida na trama envolvendo o clone de Jesus. Esta parte trabalha com a ideia da liberdade espiritual, com a qual as pessoas são capazes de ter fé e esperança. Enquanto esta vinda de Jesus representa um mundo melhor por si, para aqueles velhinhos confinados sobre o julgo de um sádico é a esperança de ter aquele seu mundinho do asilo melhor. Num determinado momento, o ápice da fé é a possibilidade de cura para a AIDS. Enquanto Jesus luta para vencer esta doença temida e incurável, os velhinhos tentam curar outro medo que aflige muitos humanos, a velhice, que é vista por muitos como tão temida e incurável quanto a pior das doenças. Apesar da premissa absurda, a forma como é conduzida pelo diretor torna tudo muito crível dentro daquele cenário. A força desta espiritualidade é tamanha que até mesmo o mais incrédulo dos personagens da trama, Juan (Arturo Goetz), encontra sua redenção. E muito do filme é sobre isto: redenção. A forma como o arco entre Juan e Alicia se fecha expressa bastante esta ideia de que a felicidade não depende de uma crença específica, mas da forma como escolhemos acreditar na vida. O Levante mostra que cabe a nós mesmos encontrar a força motriz para promovermos mudanças e melhorias em nossas vidas.

Entretanto, este toque dramático é bem permeado por uma dose saudável de humor por parte dos velhinhos, que têm todo o espaço necessário para trabalharem suas peculiaridades e interações. Os atores, muito bons em seus papéis, recebem total liberdade para construírem suas ações e apresentam personagens cheios de vida e personalidade, que cativam o público de primeira. Eles são a expressão da liberdade física e mental. O antagonista A Bruxa, apesar de ser mostrado como um jovem sem pudores ou quaisquer amarras morais (o que seria um tipo de liberdade), é o puro epíteto da opressão. Ele quer, mais do que tudo, acabar com a liberdade, mas no fundo, ele próprio corre atrás da liberdade, ainda que seja uma falsa proveniente de drogas. Todos ali querem a mesma coisa, só não sabem como consegui-la. Mas, nesta hora, os idosos mostram o que os torna diferentes dos jovens: eles já percorreram um caminho e sabem como evitar armadilhas porque já têm experiência. O desfecho, apesar de surreal, é libertador em todos os seus âmbitos, no melhor estilo Cocoon (1985). Desafio você a sair do cinema sem um sorriso de satisfação estampado no rosto.

Raphael Aguinaga mostra-se seguro na direção e sabe usar bem os parcos recursos que tem a mão. A narrativa segue de forma lenta, mas fluida. A movimentação na tela é deixada por conta do vigor dos atores, sem grandes movimentos na câmera. Todos os atores têm seus momentos para aparecem e todos o fazem com uma presença impressionante. A fotografia cria uma aura ainda mais mágica ao redor do cenário e de seus personagens, oscilando entre cenas escuras e claustrofóbicas que exibem o ar melancólico do lugar e cenas mais claras e ensolaradas que esbanjam toda a energia dos personagens que ali habitam. É impossível não ficar fascinado com aquele mundo tão real e tão fantástico ao mesmo tempo, com personagens tão adoráveis que você gostaria de conhecer pessoalmente. Se você acha que a velhice é o fim… pense de novo!

O longa, no entanto, tem suas fraquezas. Nos momentos finais, o ritmo oscila e a trama torna-se um pouco mais forçada, sem tanto da espontaneidade com a qual vinha sendo conduzida, ainda que o final seja para lá de divertido. Não é algo que atrapalhe o todo, apenas uma consideração. A estreia de Aguinaga no cinema ainda é um sucesso louvável. O Levante, no fim, mostra-se uma experiência agradável e sincera, que vale a pena. Sinta-se livre para apreciar. Afinal… isto é uma sublevação.

Premiére Latina – Festival do Rio 2011

O Levante (La Sublevación)

Argentina / Brasil, 2011. 95 min.

Direção: Raphael Geyer Aguinaga

Com: Marilú Marini, Arturo Goetz, Luis Margani, Lidia Catalano, Pablo Lapadula.

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