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Gigantes de Aço

Gigantes de Aço

Gigantes de Aço (Real Steel, 2011) constrói todo um cenário que pode ser facilmente comparado ao ambiente de Rocky, Um Lutador (1976). A diferença aqui é que os boxeadores não são humanos, mas robôs. O ano é 2020 e o boxe como conhecemos se tornou obsoleto porque o público queria mais violência e carnificina nas lutas, algo que era impossível acontecer num esporte que atuava dentro da lei. A solução foi aposentar os boxeadores e substituí-los por robôs. Estes sim poderiam se matar no ringue, já que depois bastaria consertá-los ou reconstruí-los, sem danos a integridade física de qualquer pessoa. Aos humanos restou a tarefa de servirem como controladores remotos dos robôs, quase como jogadores de videogames. Aliás, muito do conceito por trás do cenário é justamente embasada nos games, já que os controladores usam “joysticks” avançados para controlarem suas máquinas e podem executar manobras especiais para vencer suas lutas. Naturalmente, não demorou muito até investidores gastarem dinheiro no esporte a ponto de torná-lo oficial no mundo todo.

Assim, somos apresentados a um destes controladores, Charlie Kenton (Hugh Jackman), um ex-boxeador que se frustrou com a vida e tornou-se um verdadeiro babaca perdedor. Ele enfrenta lutas clandestinas para tentar ganhar dinheiro, mas tudo o que consegue é se afundar e mais e mais dívidas. E seu caráter vai para o poço junto, a ponto de ele tentar extorquir dinheiro de menininhas por uma olhada em seu robô. De cara, ele é um personagem desprezível (mérito para o sempre tão adorado ator conseguir isto). Para completar, ele descobre que uma antiga namorada morreu e lhe deixou de herança um filho que ele mal conhece, Max (Dakota Goyo). Naturalmente, ele tenta ganhar algum dinheiro em cima disto também já que sua cunhada quer a custódia do menino mais do que tudo. Porém, ele é obrigado a passar um tempo com o garoto e (mais óbvio impossível) isto muda toda a sua vida.

Gigantes de Aço é esteticamente ficção-científica impulsionada por um esporte (boxe), porém, vai além por mostrar mais do que robôs batendo uns nos outros o tempo inteiro. Pai e filho, que não se dão bem, descobrem que têm muito em comum quando encontram um robô velho chamado Atom no meio de uma pilha de sucata. Atom é um simples robô de treino de segunda categoria, um tipo ultrapassado, mas que, eventualmente, torna-se um grande lutador e começa a derrotar inimigos um por um, superando as expectativas. É o velho superando suas limitações perante o novo, como em Rocky Balboa (2006). O robô ainda cria uma relação empática com o garoto, que decide torná-lo um robô lutador a despeito destas limitações, e este laço entre criança e “amigo diferente” não foge a regra de qualquer história com o dedo de Steven Spielberg, que aparece como produtor executivo. É uma amizade bonita e agradável. Os robôs e as lutas, no entanto, são apenas o pano de fundo para contar uma história de superação e redenção, sobre como pai e filho aprendem o valor da união familiar juntos e sobre como um homem perdido na vida começa a encontrar seus próprios valores morais. Os pais são capazes de tudo pelos filhos, inclusive, mudar completamente por eles. Nisto, Gigantes de Aço emula outra inspiração — o filme Falcão: O Campeão dos Campeões (1987).

Aliás, as influências de Steven Spielberg são evidentes — o homem está em todas. Mesmo longe da direção, grande parte dos filmes da atualidade tem a produção executiva dele. O cara estava lá em Transformers 3: O Lado Escuro da Lua (2011), Super 8 (2011) e Cowboys & Aliens (2011). E, em todos, teve alguma participação criativa. Isto diz muito sobre o potencial de uma produção. Gigantes de Aço é o tipo de filme que poderia se aproximar com Transformers, mas, na verdade, carrega muito da atmosfera nostálgica de Super 8. Este é um filme mais família e possui uma originalidade fantástica em sua história, elementos característicos às produções do renomado cineasta.

A direção fica a cargo de Shawn Levy, que consegue um resultado realmente impressionante. Ele não é um cineasta expressivo e não dava para esperar muito de seu trabalho. Porém, ele consegue se superar, auxiliado pelo criativo roteiro de John Gattins, que tem uma boa bagagem no que tange a escrever filmes sobre esportes. Levy consegue dosar a ação e o drama familiar, proporcionando um divertimento genuíno e agradável, a despeito do quão clichê a trama possa parecer. O ponto forte, no entanto, é o elenco. Hugh Jackman assume um papel incomum para alguém considerado o cara mais gente boa da indústria cinematográfica, ainda que seja o intérprete de um dos personagens mais mothafuckers de todos os tempos — Wolverine, de X-Men (2000). Mas… quem não adora o Wolverine, né?! Aqui, no entanto, o ator não é apresentado como um cara simplesmente carrancudo, mas honrado. Ele é um completo canalha, que participa sem dó de crueldade com animais e não parece propenso à redenção em momento algum. Demora (muito) até que ele comece a se preocupar com a segurança do filho além de seu instinto de autopreservação. Ele é basicamente movido por ganância e rancor e, só com muito esforço, consegue se tornar um homem digno. Mas, é esta mudança, que Jackman conduz de forma perfeitamente plausível, que torna a história realmente emocionante. A redenção do personagem e a superação dos medos de seu passado são de derramar lágrimas — como eu disse, é clichê, mas é bonito. Dakota Goyo é a alma do filme e surge esplêndido na tela. O garoto demonstra um vigor e uma capacidade cênica de dar inveja aos veteranos. Em determinadas cenas, ele simplesmente engole os outros atores e leva o filme. A sequência em que desafia o mais temido robô de todos para um combate é de arrepiar o corpo todo de empolgação. FODA!

Há ainda a personagem Bailey Tallet (Evangeline Lilly… LINDA, LINDA, LINDA!!!), que participa como interesse romântico de Charlie. E, com ela, a influência de Spielberg torna-se ainda mais nítida. O relacionamento entre Bailey e Charlie lembra muito o de Indiana Jones e Marion Ravenwood em Os Caçadores da Arca Perdida (1981). Charlie foi treinado pelo pai dela. O ex-boxeador partiu seu coração e ela ficou responsável pelos negócios do pai. E a vida seguiu até que algo os reaproximou, no caso, Max. Lilly entrega uma personagem firme, mas que transmite a dose certa de sensibilidade e carência apenas pelo olhar. Além disso, ela tem química com Jackman e Goyo, fazendo da interação entre eles uma parte deliciosa da trama, mesmo quando estão separados pela distância.

Gigantes de Aço consegue fazer a mistura certa entre efeitos visuais de qualidade, cenas de luta bem coreografadas e carga emocional humana. Ver Charlie e Atom lutando como sombras é arrebatador. E destila sutilmente um tema já bastante explorado, mas nem por isso menos interessante — as máquinas são importantes para a vida contemporânea, mas, sem o fator humano, elas valem nada. O longa, antes de tudo, é uma história sobre pai e filho, e só depois, é um filme sobre esportes e, por fim, ficção-científica. E extrai qualidades de cada estilo. Se Super 8 surpreendeu por suas referências ao passado, Gigantes de Aço é um contraponto, que vence por sua visão agradável e criativa do futuro. Não obstante, é tão divertido quanto um videogame.

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