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Síndrome Mortal – Festival do Rio 2011

Síndrome Mortal

Dario Argento é um dos grandes nomes do cinema de terror, sendo mais conhecido por sua preferência pelo gênero giallo nos seus filmes. Porém, com Síndrome Mortal (La Sindrome di Stendhal, 1996), apesar de manter um pouco desta veia giallo, ele resolveu investir numa premissa diferente, um filme mais artístico e conduzido por um terror mais sutil e psicológico. Dario Argento faz o que ele mais gosta de fazer — inovar. Não obstante, o longa aprofunda o apreço do cineasta pelo estudo da mente humana e das peças que ela pode nos pregar.

A trama é centrada na bela e jovem policial Anna Manni (Asia Argento, que é filha do diretor). Ela está trabalhando num caso complicado e viaja para outra cidade na pista de um estuprador violento e assassino. Sua investigação a leva para um museu em Florença, onde ela desmaia por causa de uma reação misteriosa às pinturas e estátuas exibidas no local. Mais tarde, Anna descobre que sofre de uma estranha doença mental chamada Síndrome de Stendhal. Os problemas de Anna aumentam quando ela se depara com o assassino, Alfredo Grossi (Thomas Kretschmann), que parece ter um interesse obsessivo nela.

A ideia central do enredo é basicamente focada na condição de Anna e esta é a grande sacada de Dario Argento. O longa é quase um estudo sobre as oscilações comportamentais de uma mulher em crise: por causa de coisas que aconteceram com ela, por causa dos homens que a rodeiam, por causa da sociedade em que vive etc. O cineasta conduz a trama movendo os fios sutilmente através da doença, sem que, no entanto, o espectador perceba onde exatamente ele está querendo chegar. A Síndrome de Stendhal, por ser pouco conhecida do grande público, cria possibilidades que são bem exploradas pelo diretor. Algumas pessoas, talvez, sintam alguma dificuldade de acompanhar o raciocínio da trama, especialmente por causa da forma como Dario Argento apresenta os fatos. Situações que normalmente aconteceriam no final de qualquer filme de suspensa, aqui, surgem no meio da história, promovendo uma sensação de que não há mais o que contar e de que tudo está realmente resolvido. Então, vem a virada e Argento surpreende com seu movimento. Síndrome Mortal é uma prova da habilidade do diretor em explorar conceitos diferenciados a partir de ideias simples. A simplicidade, todavia, pode também provocar uma compreensão prematura do enredo. O mínimo entendimento acerca da Síndrome de Stendhal, que é explicada ao longo do filme, pode ajudar alguns a desvendar a intrincada história que Argento está querendo contar. Isto não é exatamente um problema. Entretanto, se há um problema que pode ser citado é a duração exagerada do filme, que tem cerca de duas horas. Os arcos e as viradas da narrativa, apesar de bem desenvolvidos, acabam se estendendo demais e a partir da segunda metade a trama perde um pouco da forma, dispersando-se em subtramas que prejudicam a ligação das pontas para o desfecho. O ritmo cai e o filme torna-se cansativo. Mesmo assim, é inegável a inteligência como tudo é dirigido até o seu ápice.

Para completar, o diretor trabalha com a violência de uma forma tão niilista que torna o filme frio e áspero, com um toque chocante que lembra muito os filmes de terror das décadas e 70 e 80 — época, aliás, de muitos filmes do próprio Argento. A atmosfera do longa ainda tem sua estranheza ampliada pela trilha sonora de Ennio Morricone, que realça com perfeição o olhar pungente do diretor. O mundo de Síndrome Mortal é um lugar quase que completamente sem emoção, onde um serial killer é capaz de estuprar e atirar na cabeça das vítimas com despreocupação e um sorriso estampado no rosto. Mesmo quando parece que as emoções vão jorrar e aquecer este mundo desolador, a realidade mostra-se cruel em subverter o que seria uma representação de carinho e segurança. Dario Argento perverte os conceitos e brinca com a dualidade das coisas. Homens e mulheres, bandidos e mocinhos, bem e mal, nada disso tem valor realmente ante uma mente cuja síndrome mortal é mudar ingredientes padrões do horror e adaptá-los em gêneros completamente diferentes e inusitados. Apesar do aspecto experimental, Síndrome Mortal tem um toque raro de originalidade. E Dario Argento surpreende como poucos.

PS: A Síndrome de Stendhal (ou síndrome de sobredose de beleza) foi observada pela primeira vez pelo escritor francês Marie-Henri Boyle que, ao visitar a cidade de Florença, em 1817. A doença é caracterizada por aceleração do ritmo cardíaco, vertigens, falta de ar e mesmo alucinações, decorrentes do excesso de exposição do indivíduo a obras de arte, sobretudo em espaços fechados. O escritor francês descreveu sua experiência como: “absorto na contemplação de tão sublime beleza, atingi o ponto no qual me deparei com sensações celestiais. Tive palpitações, minha vida parecia estar sendo drenada”. O transe mental provocava uma euforia que o desnorteava completamente. A síndrome só foi diagnosticada e catalogada em 1982 e recebeu o nome Stendhal porque este era um pseudônimo de Marie-Henri Boyle. A curiosidade por trás do filme é que Dario Argento diz ter passado por uma experiência com a síndrome quando criança. De férias em Atenas, Grécia, com os pais, Dario escalava as escadarias do Partenon quando foi atingido por um transe que fez com que ficasse perdido de seus pais por horas. Assim, ele transformou sua experiência infantil na ideia do filme.

Dario Argento e seu mundo de horror – Festival do Rio 2011

Síndrome Mortal (La Sindrome di Stendhal)

Itália, 1996. 120 minutos.

Direção: Dario Argento.

Com: Asia Argento, Thomas Kretschmann, Marco Leonardi, Luigi Diberti.

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