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Um Vulto na Escuridão – Festival do Rio 2011

Um Vulto na Escuridão

Um Vulto na Escuridão (Il Fantasma dell’Opera, 1998) é a versão do mestre do horror, Dario Argento, para o clássico romance de Gaston Leroux, O Fantasma da Ópera (1910). Era um filme que, nas mãos de um cineasta como Argento, tinha grande potencial para ser inovador, mas não foi o caso. Infelizmente, o longa não é um dos melhores momentos do diretor no cinema, somente uma adaptação morna e confusa da obra de Leroux.

O enredo, que possui algumas diferenças do original, acontece em Paris, no século XIX, onde um bebê é abandonado no esgoto e salvo por ratos. Anos mais tarde, ele vive em segredo junto com os ratos no subterrâneo do teatro Ópera, sendo considerado um fantasma que muitos aceitam como mera superstição. Um dia, inadvertidamente, o Fantasma (Julian Sands) escuta a voz da bela Christine Daaé (Asia Argento) e se apaixona perdidamente por ela. Para tê-la, ele não mede esforços, mas Christine se vê dividida entre sua devoção ao misterioso habitante do subterrâneo e seu apreço pelo Barão Raoul de Chagny (Andrea Di Stefano), que também a deseja.

O foco da história são os personagens e, especialmente, o triângulo amoroso formado pelos protagonistas, porém, este é também o maior deslize do longa. Para começar, o Fantasma não é uma alma torturada e sequer possui o rosto deformado e coberto pela icônica máscara branca. O filme tenta estabelecer um caráter meio heróico, meio vilanesco para o personagem, mas, acaba não criando a empatia necessária para gostarmos dele (ou simplesmente odiarmos). E a caracterização é triste. Ele mata as pessoas, é obcecado e possessivo, e tem acessos de loucura sem qualquer razão aparente, apenas porque foi criado por ratos e cresceu com este instinto primitivo aflorado. Detalhes que até passam. MAS, ele tem relações sexuais com ratos… e isto não passa de jeito algum! Um personagem com qual deveríamos simpatizar e torcer a favor (como é no original), no fim, causa apenas repulsa. Ele tem seu momento de redenção, mas é tão apático, que se torna irrelevante. O Willard (2003) consegue ser mais simpático. Raoul é outro personagem insosso, que sofre com oscilações de humor também sem motivo aparente e surge como um interesse romântico extremamente artificial para Christine. E Christine é outro caso que não chama a atenção. Ela apenas se sente atraída pelos homens que a perseguem e vira objeto de disputa entre eles. Só isso. Nem mesmo seu interesse em tornar-se uma cantora oficial no teatro tem alguma relevância para a trama. Os personagens são extremamente mal desenvolvidos e isto pesa muito para o desenvolvimento do filme. E os atores, para completar, não têm química entre si. Asia Argento é uma atriz competente, mas que não funciona aqui. Julian Sands se esforça, mas os problemas de seu papel atrapalham seu desempenho. Andrea Di Stefano é simplesmente apático.

O roteiro exageradamente corrido faz com que as coisas aconteçam rápido demais e sem a construção do clima adequado. O Fantasma e Christine se conhecem e se apaixonam perdidamente e brigam e se apaixonam de novo. E com Raoul é a mesma coisa, só que com menos cenas. Ou seja, o roteiro acaba ficando vazio e com muitas lacunas, que terminam preenchidas por mortes grotescas (os únicos momentos em que efetivamente vemos a mão de Dario Argento no longa). Os diálogos, igualmente mal construídos, também não ajudam. Soma-se a esta profusão de falhas, a falta de sentido de alguns pontos do enredo. Um caso são os supostos poderes psíquicos do Fantasma, que são usados por motivos bobos, nunca quando são realmente necessários. A telepatia/telecinese do Fantasma não faz sentido algum e, em certo ponto, é simplesmente abstraída.

A direção de Argento é variável. Ele conduz boas sequências, mas, muitas vezes, elas não culminam num bom desfecho. E isto se repete na história em si do filme, que tem um final para lá de sem graça. Os melhores momentos do diretor são quando ele constrói cenas com suspense e usa alguns ângulos de câmera que remetem muito ao estilo empregado noutro filme seu: o excelente Terror na Ópera (1987). A violência, bastante gráfica, é um dos pontos positivos do longa. Mas, fica só nisso. Infelizmente, mesmo o melhor dos cineastas tem seus momentos ruins na carreira e Um Vulto na Escuridão é isto: um vulto na carreira promissora de Dario Argento.

Dario Argento e seu mundo de horror – Festival do Rio 2011

Um Vulto na Escuridão (Il Fantasma dell’Opera)

Itália, 1998. 99 minutos.

Direção: Dario Argento.

Com: Asia Argento, Julian Sands, Andrea Di Stefano, Nadia Rinaldi.

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