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O Abismo Prateado – Festival do Rio 2011

O Abismo Prateado

O Abismo Prateado (2011) é uma experiência um tanto quanto inusitada (e ousada). O longa, dirigido por Karim Aïnouz (Madame Satã, 2002), trata de uma dentista chamada Violeta (Alessandra Negrini), que possui uma vida basicamente feliz, com um marido que basicamente a ama. O princípio é muito isto: básico. A vida básica que muitos absorvem e aceitam e, normalmente, morrem de medo de perder. Porém, os minutos iniciais são carregados por uma melancolia velada, que prenunciam algo de errado nesta “vida feliz”. Quando Violeta recebe uma misteriosa mensagem no seu celular, ela vê o básico de sua vida se esvair e começa uma jornada pelo Rio de Janeiro para recuperar a estabilidade perdida, uma busca que, como toda a busca na vida, é mais uma jornada de autoconhecimento do que para solucionar o problema em si. E é esta proposta que constitui a ousadia do roteiro, por centrar no objetivo e não se ater ao resto.

Dois são os méritos do longa. Um deles é a forma como o diretor apresenta seu mundo. A linguagem falada é subvalorizada e dá a lugar a mais pura linguagem corporal. Grande parte do filme é tomada por momentos de contemplação, onde os personagens contracenam através de um olhar ou um sorriso ou um simples gesto. Não precisa que os sentimentos sejam verbalizados, nós apenas sentimos. E não é esta a natureza dos sentimentos?! E não é esta também a natureza do cinema?! Ver e sentir?! Aïnouz apresenta este silêncio de forma quase poética. Não obstante, quando necessário, rompe a quietude com barulhos e ruídos que dão a sensação de asfixia, de um lugar quebrado e repleto de almas quebradas, todas a espera de alguma coisa que parece nunca vir. Desgostos que podem ser amainados por contentamentos efêmeros, como tomar um sorvete, mas que nunca são realmente aplacados. Um lugar onde o abismo se faz presente e é cada vez mais profundo.

É neste contexto que o segundo mérito se apresenta: Alessandra Negrini. Ela mostra com firmeza porque é uma das mais talentosas atrizes brasileiras. Sua personagem sabe o que quer e corre atrás disto, ainda que precise enfrentar percalços pelo caminho. Percalços estes que lhe trazem uma vivência que amadurece a personagem e promove a ta esperada mudança, a fuga do abismo. Esta leveza que vem surgindo aos poucos é revelada não só na atuação de Negrini, mas também no figurino, que acompanha a evolução da personagem. Se no começo ela encara o peso do sofrimento com roupas que a cobrem da cabeça aos pés, no fim, ela já está somente com o essencial (camiseta, saia e descalça). Assim, como ela abandona as roupas, ela abandona as mágoas, e guarda o essencial: a experiência que resulta em liberdade de espírito. E Alessandra Negrini consegue passar tudo isto com um simples olhar ou um simples gesto. É perfeita e apaixonante.

O Abismo Prateado é inspirado na canção Olhos nos Olhos, de Chico Buarque, uma música que surge cantada no final por Barbara Eugênia e carrega em sua letra todo o significado que permeia o filme. É quase uma punhalada no coração. O longa tem suas falhas, como a atuação superficial de Thiago Martins, mas são coisas que passam despercebidas ante à singeleza e contemplação da história. De fato, quando olhamos para o abismo, ele nos olha de volta. Cabe a nós extrair a iluminação que provém do desespero. Talvez seja daí que venha o prateado: da descoberta.

Première Brasil em competição – Festival do Rio 2011

O Abismo Prateado

Brasil, 2011. 83 minutos.

Direção: Karim Aïnouz.

Com: Alessandra Negrini, Thiago Martins, Gabi Pereira, Otto jr., Carla Ribas.

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