Filmes

Chapeuzinho Vermelho do Inferno – Festival do Rio 2011

Miranda

Assistir a esta produção cubana não é só olhar para a imagem, mas perceber o contexto por trás dela. Chapeuzinho Vermelho do Inferno (Molina’s Ferozz, 2010) não é só um terror escatológico e aversivo, mas uma crítica muito bem engendrada à decadência e à perfídia humana. Pela visão do diretor Jorge Molina, a perversão faz parte da natureza humana e ninguém está a salvo de uma derrapada, mesmo quando trilham um caminho correto. A metáfora aqui é: sempre existe um lobo embaixo da pele do cordeiro. A forma grotesca e feroz (desculpem o trocadilho com o nome original, não deu pra evitar) como o tema surge na tela é o diferencial do longa e marca a ousadia de seu diretor por explorá-lo de forma tão crua. Ele tece um panorama da forma como funcionam as relações em comunidades rurais, especialmente as mais afastadas dos centros urbanos. A barreira imposta pela floresta, que torna difícil o trânsito entre campo e cidade, também funciona como uma espécie de muralha que esconde os maiores pecados do mundo exterior. Ali, no isolamento, é possível dar vazão a qualquer desejo, desde punir desvios de conduta com estupro até uma simples masturbação atrás de uma moita, passando ainda por práticas religiosas pouco ortodoxas, como xamanismo e satanismo. Para balancear, Molina insere sequências despretensiosas da paisagem rural, de árvores e rios, onde donzelas alegres nadam nuas e alheias à atmosfera vil que paira ao redor. É um lugar onde a pureza e a corrupção disputam território com garras e dentes (e machados).

Na trama, Miranda (Dayana Legrá) é uma adolescente que vive na zona rural de Cuba com sua mãe, a viúva Dolores (Ana Silvia Machado). Inocencio (Roberto Perdomo), lenhador e tio de Miranda, faz o que pode para proteger as duas das maldades de sua mãe, a avó da menina. A ligação familiar não impede que ambas sintam uma forte atração pelo homem, que é também um satanista. Um dia, Dolores manda Miranda ir à casa da avó, Dona Zulma (Francisco García), com uma cesta de comida. Contra sua vontade, a jovem veste seu capuz e segue sozinha pela floresta.

Chapeuzinho Vermelho do Inferno

Tudo isto remete a uma interessante interpretação de conceitos instalados na própria história original, no Chapeuzinho Vermelho, de Charles Perrault. Outros elementos do conto de fadas também estão lá, subvertidos ou apresentados de forma mais sutil. O lobo, por exemplo, surge na figura do folclórico Cagüeiro, uma criatura oriunda das lendas cubanas que é capaz de assumir a forma de animais (aqui, obviamente, assume a identidade lupina). A forma como Cagüeiro aparece (ou não) torna a figura ainda mais misteriosa e, até certo ponto, o bicho age mais como um expectador da voracidade do que o voraz em si. De fato, nesta trama, os lobos são os humanos. E o elenco dá o tom certo neste quesito, com boas atuações. Os atores parecem saídos de um teatro de quinta, com atuações toscas adequadas à estética do filme, mas, ainda assim, conseguem boas atuações. Francisco García é simplesmente sensacional de tão sinistro, enquanto Dayana Legrá é um achado. A jovem atriz é uma representação plena de sensualidade em ebulição e inocência prestes a ser perdida. Além disso, sua personagem serve para explorar outro aspecto comum nestas comunidades interioranas: o incesto e a zoofilia.

A metáfora do filme brinca com o mito sem estilizá-lo demais ou aplicar lições de moral baratas, como tentou-se fazer recentemente em A Garota da Capa Vermelha (2011). Molina imprimi no longa todo o gore e o trash necessários para causar impacto com sua mensagem e, embora não seja tão áspero quanto Zé do Caixão em seu Encarnação do Demônio (2008), consegue ser bizarro em sua essência e causar a dose necessária de aversão no espectador. O cineasta ainda insere um leve toque de humor para quebrar a tensão e algumas risadas realmente amansam as feras interiores dos espectadores, sempre tão ávidas para criticar e ofender. Com estas jogadas narrativas, Molina mostra seu mérito para passar sua mensagem. Dada a “epifania” da cena final, é impossível não concordar que o objetivo foi cumprido. Não é um filme fácil de digerir e, provavelmente, muitos vão odiar. Mas, talvez, este seja também um objetivo. O valor de Chapeuzinho Vermelho do Inferno está justamente em seu contexto.

Mostra Midnight Movies – Festival do Rio 2011

Chapeuzinho Vermelho do Inferno (Molina’s Ferozz)

Cuba / Costa Rica, 2010. 79 minutos.

Direção: Jorge Molina.

Com: Dayana Legrá, Ana Silvia Machado, Roberto Perdomo, Francisco García.

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