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Os Três Mosqueteiros

Os Três Mosqueteiros

Paul W.S. Anderson é um cineasta de altos e baixos e sua última produção, Os Três Mosqueteiros (The Three Musketeers, 2011) reflete bastante o motivo. O diretor resolveu fazer uma pausa no seu estilo inquieto (e geralmente inconveniente) de fazer cinema, vide Resident Evil: O Hóspede Maldito (2002), para esbanjar um pouco de ponderação ao trabalhar com a repaginada de um clássico da literatura. O resultado é um filme de ação mediano, adaptado como uma de aventura capa-e-espada e steampunk, uma ideia semelhante ao que Guy Ritchie fez em seu Sherlock Holmes (2009). Anderson, que conseguiu fazer um dos piores filmes de sua carreira com Resident Evil 4: Recomeço (2010), consegue mostrar que tem qualidades em Os Três Mosqueteiros.

Para começar, o cineasta conseguiu montar um elenco realmente favorável à confecção de sua história. No século 17, a França está à beira de uma guerra com a Inglaterra. Os mosqueteiros, seus maiores, estão obsoletos, embora ainda devotem respeito ao seu rei. O Rei Louis (Freddie Fox), no entanto, não passa de um jovem mimado que é facilmente manipulado pelo Cardeal Richelieu (Christoph Waltz). O cardeal, por sua vez, é um homem astuto, que trabalha sorrateiramente na produção de armas de guerra com o objetivo de tomar o poder na França. Athos (Matthew Macfadyen), Porthos (Ray Stevenson) e Aramis (Luke Evans) são os três lendários mosqueteiros, mas que se desiludiram com a coroa e agora vivem como arruaceiros e beberrões. As coisas mudam com a chegada do jovem D’Artagnan (Logan Lerman), que apesar da imprudência e impetuosidade, vai trazer de volta aos mosqueteiros um propósito pela qual lutarem. Porém, além do cardeal, eles ainda precisam lidar com o perigoso Duque de Buckingham (Orlando Bloom) e a traiçoeira agente dupla M’lady De Winter (Milla Jovovich).

A trama é relativamente fiel ao romance original, Os Três Mosqueteiros (1844), de Alexandre Dumas, com a inserção dos elementos steampunk que dão um toque especial à história, como os navios voadores (ou zepelins), o excesso de bombas e armas de fogo e as engenhocas usadas pelos personagens para roubos ou segurança particular. Tudo colocado da forma mais impressionante possível para exaltar o cenário, mas trabalhado com uma dose agradável de bom humor. Os três mosqueteiros possuem uma relação que transmite uma sensação aprazível de camaradagem. A chegada de D’Artagnan acrescenta um tempero extra por recuperar naqueles velhos decrépitos valores que somente o idealismo jovial é capaz de cultivar. Os três atores principais, Macfadyen, Stevenson e Evans, estão adequados aos seus papéis, embora o destaque evidente fique nas mãos de Stevenson, que torna seu Porthos o personagem mais carismático e sagaz da história. A história ainda foca nos sentimentos de amor e amizade, tanto no que tange ao sentimento utópico e ingênuo comum aos jovens (mais explorado pelas visões de D’Artagnan e do Rei Louis) quando no que se refere ao sentimento complicado e malicioso (encabeçado especialmente por Athos, M’lady De Winter e Buckingham). Neste caso, aliás, a participação de Milla Jovovich mostra-se uma cartada na manga do diretor. A dualidade da personagem é bem explorada e as expressões de desprezo e doçura da atriz dão um ar ainda mais pérfido a ela, que faz você amá-la e odiá-la. Christoph Waltz contribui com uma participação mais modesta, mas dotada da qualidade de sempre.

O maior problema do elenco é o desempenho fraco de Logan Lerman, que já provou ter muitas limitações em Gamer (2009) e Percy Jackson e o Ladrão de Raios (2010). O ator até se sai bem no quesito atuar com uma espada, mas quando abre a boca, é uma tragédia. Ele não consegue gerenciar o misto de jovialidade, impulsividade, arrogância e galanteio inerentes a um personagem como D’Artagnan. Seu personagem, que deveria ser o mais interessante de todos, muitas vezes só provoca antipatia, e a inexpressividade de Lerman só complica as coisas. O novato Freddie Fox, no entanto, é totalmente oposto. Ele está brilhante como o monarca afetado que se preocupa mais com a cor da roupa do que com a iminente guerra, uma personagem que deveria provocar repulsa, mas que só transmite simpatia.

Além do elenco, Paul W.S. Anderson ainda consegue um bom desempenho nas sequências de ação. Mas, há problemas, como o 3D, que não acrescenta em absolutamente nada e pode ser sumariamente ignorado. Apesar da melhoria na direção, Anderson ainda comete erros comuns às suas produções anteriores. Ele possui uma predileção inconveniente pelo recurso da câmera lenta, pois não sabe usá-lo com sabedoria. Para toda e qualquer cena, ele põe uma câmera lenta. E isto prejudica, quebra o ritmo da ação. Neste filme, ele ainda consegue se controlar um pouco, mas se perde em alguns erros primários. Há uma razão para o efeito de câmera lenta ser chamado de “bullet time”… é porque ele fica melhor em sequências envolvendo tiros e armas de fogo. Entretanto, Anderson tenta usá-lo em combates com espadas e o resultado é péssimo. Quando o diretor deixa as lutas de espada correrem soltas é que as cenas de ação ganham rapidez e consistência… e divertem. O grande acerto vem com a batalha de navios voadores, que é realmente fantástica.

O filme consegue juntar todos estes elementos de forma aceitável e sem gerar atritos entre os gêneros. A trama não tenta ser uma reedição fiel do romance original, mas consegue reinventar a saga de três dos mais conhecidos heróis da história e ainda deixa um gostinho de quero mais no final — porque o diretor encerra a trama num ponto que deixa evidente a vinda de um segundo filme e, mais do que isto, a produção de uma nova franquia. Os Três Mosqueteiros surge como um filme estritamente comercial e despretensioso, mas que garante um bom momento de diversão com sua história alegre e movimentada, seus diálogos afiados, seus duelos heróicos e sua mistura inusitada de capa-e-espada e steampunk.

Um por todos. E todos por um.

Nível Heroico

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