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Lista Mortal – Festival do Rio 2011

Lista Mortal

Lista Mortal (Kill List, 2011) tenta se valer das entrelinhas de sua narrativa, até possui algum mérito nisto, mas se perde no meio do caminho. É o tipo de filme que tenta causar impacto mental. A trama dirigida por Ben Wheatley acompanha pessoas que vivem fora-da-lei enquanto seguem caminhos poucos esperados para criminosos. A história enfatiza armadilhas físicas e psicológicas de seus estilos de vida duvidosos e os horrores trazidos por esta ambiguidade.

O longa começa focado na vida do jovem casal, Jay (Neil Maskell) e Shel (MyAnna Buring), mostrando as dificuldades de um casamento construído sob pressão e que vive a beira de um colapso. Nos primeiros 20 minutos de filme, esta é a realidade e, até certo ponto, fica difícil saber se este é mesmo um filme de suspense ou um drama familiar. Apesar das brigas e discussões incessantes, o diretor intercala momentos de alento naquelas vidas conturbadas, apresentando altos e baixos comuns a qualquer casamento. Porém, o problema deste início, é que o drama familiar estende-se demais e, em algum momento, torna-se maçante. O ciclo é quebrado com a introdução de Gal (Michael Smiley), um velho amigo do casal, que vem a casa deles para um jantar acompanhado da misteriosa Fiona (Emma Fryer). Neste ponto, descobrimos que Jay e Shel são, na verdade, ex-militares e assassinos de aluguel. A inserção de Fiona acrescenta um novo elemento à trama e, enfim, somos encaminhados para o suspense da história. A forma como somos apresentados à “profissão” de Jay é interessante, pois acontece numa conversa entre ele e Gal, na garagem da casa após a refeição. Os homens conversam ali, cercados por aparelhos de ginástica e outras parafernálias caseiras, sobre o “novo trabalho”, como se tivessem saído para tomar um chá. A sensação de segurança familiar começa a desmoronar neste momento… e, grande parte da ideia do filme, de fato, parece ser sobre isto: unidade familiar (ou a falta dela).

Quando Jay decide aceitar o trabalho, a abertura torna-se efêmera, pois Lista Mortal muda completamente seus rumos e adentra num terreno mais sinistro. Após o encontro com um misterioso e macabro cliente (Struan Rodger), a dupla de assassinos precisa matar três alvos (um padre, um bibliotecário e um deputado), mas, à medida que vão eliminando suas vítimas (sempre recebendo dos alvos um sorriso e um agradecimento em retorno antes do assassinato), os motivos por trás do contrato vão ficando mais misteriosos e sórdidos.

Lista Mortal não é um filme de sustos ou ruídos altos. Tudo é muito silencioso e claustrofóbico. A fotografia usa colorações sempre muito frias e nauseabundas. Os movimentos de câmera são ora parados demais, ora frenéticos demais, causando uma sensação de incômodo ao espectador semelhante ao que deve estar sendo sentido pelos personagens em cena. A direção de Wheatley é bem eficiente e só derrapa mesmo por causa da montagem, cujos cortes secos mudam o panorama dos acontecimentos muito abruptamente. O diretor tem crédito também por conseguir dosar sequências com muito sangue e tensão com momentos alegres (ou supostamente alegres). A cena de Jay e Gal jantando no hotel enquanto escutam um monte de baboseira de um grupo de cristãos pseudo-felizes (que mais parecem dementes) é não só divertida, mas antológica. E, sorrateiramente, ainda bate num problema que muitas pessoas fazem questão de cultivar: falta de bom-senso. Esta oscilação constante entre risos e angústia é que tornam o filme instigante a partir do segundo ato. O elenco dá o apoio necessário para a direção. Há uma boa mistura de diálogos afiados e caracterização convincente. Neil Maskell, Michael Smiley e MyAnna Buring possuem uma presença forte, especialmente Buring, que consegue mudar da ira para candura em questão de segundos, sem, contudo, perder a força de personalidade de sua personagem.

Os elementos técnicos, ainda mais considerando o baixo orçamento da película, são um grande mérito. O maior problema fica por conta da trama em si, que é uma hemorragia de gêneros e estilos. Drama doméstico, filme de assassinato, terror “satanista”, snuff movie, thriller, humor negro… é uma salada que torna difícil definir aonde o diretor quer chegar com a história. O longa lembra muito o polêmico Um Filme Sérvio (2010)… e, na verdade, a semelhança é gritante em certos aspectos, com a diferença que Lista Mortal não explora cenas explícitas de violência ou sexo. Tudo no filme é mais implícito. E é nesta premissa subliminar que a coisa desanda. A questão não é se o espectador vai ou não entender o filme. O fato é que, no final, o diretor prefere deixar tópicos soltos para serem preenchidos pela imaginação do espectador. Isto seria muito válido se todo o restante da narrativa conduzisse efetivamente para este desfecho, mas não é o que acontece. Os elementos do mistério são apresentados de forma muito rasa ao longo da história. Como eu disse, a variação excessiva de gêneros atrapalha esta condução. No final, não sentimos o impacto que deveríamos sentir pela reviravolta que acontece. O diretor é ambicioso e criativo, mas se perde no meio do caminho e cai na armadilha da previsibilidade. De fato, se você não entender o final, vai achar fraco… se você entender, vai achar fraco da mesma forma. Porque, no fim, a compreensão real que atingimos é de que o filme simplesmente não tem razão de ser.

Mostra Midnight Terror – Festival do Rio 2011

Lista Mortal (Kill List)

Reino Unido, 2011. 95 minutos.

Direção: Ben Wheatley.

Com: Neil Maskell, MyAnna Buring, Michael Smiley, Emma Fryer, Struan Rodger, Ben Crompton.

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